Doug Chayka| The New York Times
Doug Chayka| The New York Times

Futuro das câmeras: inteligentes e assustadoras

Novos dispositivos como o Clips, do Google, são capazes de entender o que estão vendo, às vezes criando possibilidades de espionagem

Farhad Manjoo, The New York Times

16 Março 2018 | 15h00

As câmeras estão ganhando cérebros. Até os anos mais recentes, praticamente todas as câmeras (dos celulares, das máquinas fotográficas e dos circuitos fechados de TV) eram como olhos desconectados de qualquer inteligência. Elas capturavam o que quer que puséssemos diante delas, mas não compreendiam o que estavam vendo.

Mas há uma nova geração de câmeras. Elas são olhos ligados a cérebros, máquinas que não se limitam a ver o que está diante delas, sendo capazes de agir com base no que enxergam, criando possibilidades intrigantes e, às vezes, inquietantes.

No início, essas câmeras chegarão com a promessa de nos ajudar a tirar fotos melhores, capturando momentos que talvez não fossem possíveis com todas as câmeras “burras" que vieram antes. A nova câmera do Google, Clips, usa o chamado aprendizado de máquina para tirar fotos automaticamente das coisas que considera interessantes. E uma startup chamada Lighthouse AI quer usar o reconhecimento facial nos lares, apresentando uma câmera de segurança que acrescenta uma camada de informações visuais às imagens captadas.

O Clips, do Google, que usei por uma semana e meia, é do tamanho de uma caixa de balas. Na parte frontal, há uma lente e um botão, mas, durante a maior parte do tempo, simplesmente confiamos na intuição da câmera, treinada para reconhecer os marcos que identificam as boas fotografias. Vendido por US$ 249, o Clips torna o ato de fotografar algo inconsciente. Quando a lente capta algo que parece ser uma boa imagem, ela captura uma sequência de 15 segundos, como um pequeno GIF animado.

Fiz uma viagem com a família para a Disneylândia e, no decorrer de dois dias, esse aparelhinho capturou automaticamente uns duzentos clipes curtos das nossas férias. Alguns eram bastante bons, capturando os pontos altos da viagem mais ou menos como eu teria feito usando o celular. Mas o Clips também filmou meus filhos fazendo piadas nas filas, brincando de pega-pega em casa, dançando feito loucos - momentos demasiadamente espontâneos ou curtos para que eu os pudesse capturar com minha câmera.

Configurar uma câmera que não precisa ser disparada especificamente traz a preocupação com a espionagem. O Google lida com isso de duas maneiras. O dispositivo permanece desconectado da internet. As fotos podem ser tiradas sem conexão, e é necessário usar o celular para ver ou salvar os clipes. Quando está ligada, a câmera pisca um LED branco para indicar que pode estar gravando.

A Lighthouse, que também usei por duas semanas, é oferecida como aprimoramento das câmeras de segurança domésticas conectadas à internet. É capaz de mapear o espaço em 3D e aprende a reconhecer rostos, informações que ajudam a evitar alarmes falsos. Podemos fazer perguntas a ela, como: “O que as crianças fizeram enquanto eu estava fora?” São exibidos vídeos dos filhos enquanto estávamos fora. Vendida por US$ 299, a Lighthouse requer uma assinatura mensal de US$ 10, e teve bons resultados ao diferenciar os habitantes da casa, mas um balão flutuando na sala fez a câmera achar que havia um invasor presente.

A empresa é nova, e espero que seu software seja aprimorado. Posso imaginar que seja útil para pessoas que queiram saber o que acontece em suas casas quando não estão presentes. Quer saber se o cachorro andou pulando no sofá? Peça ao Lighthouse que mostre as imagens. Mas, e se a suspeita envolver um cônjuge? Para efeito de apuração desta reportagem, pedi ao aparelho que me mostrasse imagens da minha mulher em casa com pessoas desconhecidas. Ali estava ela conversando com a babá certa noite, alguém que a Lighthouse ainda não tinha visto.

O diretor executivo da Lighthouse, Alex Teichman, disse que há vários níveis de controle de privacidade que permitem ao usuário desativar a gravação quando certos membros da família estão presentes.

É importante destacar que Lighthouse e Clips não permitem graus de espionagem muito diferentes daqueles que já estão disponíveis para os smartphones. Mas elas são indícios do que o futuro reserva. Amanhã, todas as câmeras terão essas capacidades. E elas não vão apenas nos observar, serão capazes até de nos entender.

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