Cig Harvey/The New York Times
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Em livro, Gabriel Byrne é a estrela de sua própria história

Em 'Walking With Ghosts', ator conhecido por suas interpretações contemplativas em 'Os Suspeitos' e na série 'In Treatment' defronta-se com o caminho improvável que percorreu desde a infância

Sarah Lyall, The New York Times - Life/Style

03 de fevereiro de 2021 | 05h00

Há cerca de um ano, Gabriel Byrne dava os últimos toques no seu livro de memórias, Walking With Ghosts, uma série que ia do começo de sua vida na Irlanda e nos anos seguintes, quando de repente, apertou alguma tecla misteriosa no seu laptop.

E, Puf! A tela ficou em branco.

“Fiquei arrasado”, falou Byrne em uma entrevista por vídeo. “Fui para a loja onde sei que há alguns gênios” – a Apple, com a sua Genius Bar – para reparos de hardware – e disse: ‘Quero o seu gênio mais Gênio”. E disseram: ‘A não ser que você consiga algum espião envolvido nisso, o seu livro foi embora e não temos a menor ideia de onde foi’ ”.

Felizmente, Byrne descobriu que o seu material de certo modo se fixara em seu inconsciente, e conseguiu ressuscitá-lo, escrevendo em cafés, dessa vez com um iPad e com o abundante emprego da função “salvar”. Escrito como se o autor fosse “um intruso em meu próprio passado”, como ele disse, Walking With Ghosts foi publicado pela Grove Press. Segundo o escritor Colum McCann, é “um livro que torcerá os nossos corações cansados”.

Agora, aos 70 anos, e com uma longa e crescente lista de atuações na televisão, no cinema e créditos no teatro em seu nome, Byrne está passando a maior parte da pandemia em sua casa numa colina em Rockport, Maine, com a esposa Hannah Beth King, documentarista, e sua filha pequena. (Ele tem dois outros filhos mais velhos de sua primeira esposa, Ellen Barkin, e tem também um apartamento em Manhattan.) Rockport é o tipo de lugar, em que, como nota, ninguém liga para o que ele faz na vida.

Em uma prosa evocativa, emocionada, Walking With Ghosts descreve a cidadezinha fora de Dublin onde cresceu, o primeiro de seis irmãos que viviam amontoados em uma casa pequena, com o pai fabricante de barris da cervejaria Guinness. Eles estavam mergulhados no catolicismo, parte de um sistema que na realidade visava “a desconstrução do ser”, segundo Byrne.

Em passagens ora horripilantes, ora engraçadas, ou ambas as coisas, ele fala por exemplo, que aprendeu a história de Adão e Eva com uma freira, em uma aula que se encerrava com Deus declarando ao casal caído: “E a propósito, seus filhos serão miseráveis também.” (“É por isso que o mundo é este lugar infeliz”, acrescenta a freira.)

Byrne conta da sua decisão juvenil de se tornar padre, convencido de que tivera um chamado, de como deixou a Irlanda aos 11 anos para matricular-se em um seminário católico na Inglaterra. (O pai mal se despediu dele, mas quando Gabriel esqueceu de alguma coisa e voltou para casa, ouviu o pai chorar atrás da porta fechada da cozinha). Ele revela que foi assediado sexualmente pelo sacerdote que aparentemente o tratava com a maior ternura, e então deixou o seminário e renunciou à sua fé.

De volta à casa paterna na Irlanda, o seu caminho rumo à profissão de ator não foi algo inevitável. Refugiou-se nos filmes e nos livros, e trabalhou, em geral sem sucesso, em uma série de bicos – lavador de pratos em um restaurante, encanador, trabalhador braçal, vendedor de porta em porta e até cometeu pequenos delitos – antes de ir para a faculdade e participar de um grupo amador de teatro que o colocou em uma trajetória completamente diferente.

Byrne não pretendia escrever o livro de memórias típico das celebridades, com episódios fúteis sobre Brad PittBenicio Del Toro, embora tenha trabalhado com os dois.  Quando escreve sobre a própria carreira, em geral, ele o faz para lembrar dos momentos de incongruência – como o período de bebedeiras em que mergulhou depois da recepção explosiva de Os Suspeitos (1995) em Cannes – e se sentiu desconfortável com o sucesso.

Ele conta que o seu objetivo era que o livro explorasse a memória e a identidade, questões complexas depois de ele ter deixado há tanto tempo a Irlanda.

Elizabeth Schmitz, vice-presidente e diretora editorial da Grove Atlantic, afirmou que gostou muito do livro por causa da voz singular de Byrne e porque ele não se comportava como um astro do cinema, mas como um escritor. Elizabeth lembra do seu primeiro encontro com ele, em um café da manhã em um hotel de Soho. Havia levado para ele uma pilha de livros e descobriu que Byrne já tinha lido a maioria.

“Fui encontrá-lo com o manuscrito, onde havia feito inúmeras observações, achando que ele sentaria lá e folhearia página por página”, ela disse. “Mas Byrne só queria conversar sobre livros”.

Quem assistiu a uma interpretação de Byrne – em alguma obra de O’Neill na Broadway, em filmes, na televisão como um terapeuta na série da HBO In Treatment e, mais recentemente, na adaptação da BBC de Guerra dos Mundos de H.G. Wells – imaginaria uma pessoa contemplativa, com frequentes períodos de escuridão, e então descobrimos a pessoa que ele é. Ele escreve sobre sofrimento e depressão e, como no passado tudo isto esteve relacionado ao alcoolismo.

Era um campeão da bebedeira. Ela o tornava confiante; o tornava sociável, tirava “o eterno embotamento dos meus dias”, escreve, e os enchia de colorido. “O álcool tornou-se meu amigo mais confiável, antes de me trair e me mergulhar nos dias mais sombrios”. Finalmente, ele buscou ajuda depois de acordar uma manhã, coberto de sangue, um olho fechado inchado e sem um dente, uma mulher de que ele não lembrava na cama ao seu lado. “Não posso continuar morrendo desse jeito”, falou a um amigo.

Byrne está sóbrio há quase um quarto de século e se orgulha disso. O álcool era a “fuga do presente, uma fuga da realidade cinzenta da vida, a possibilidade de estar em outro lugar”, afirmou. “Mas agora para isto uso a minha imaginação”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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