Martin Bureau/Agence France-Presse - Getty Images
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Relato de vítima estimula acerto de contas sobre abuso de crianças na França

Gabriel Matzneff escreveu por anos sobre sua "predileção" por crianças e continuou sendo aclamado. Agora umas das vítimas se pronunciou

Norimitsu Onishi, The New York Times

15 de janeiro de 2020 | 06h20

PARIS - O escritor francês Gabriel Matzneff nunca escondeu o fato de ter abusado sexualmente meninos e meninas no início da adolescência. Ele escreveu inúmeros livros detalhando sua procura insaciável, e apareceu na televisão gabando suas façanhas. No entanto, nunca sofreu qualquer consequência. Ao contrário, foi aclamado.

Grande parte da elite literária e jornalística celebrou o autor e o seu trabalho por dezenas de anos. Matzneff, hoje com 83 anos, já foi agraciado com o mais alto prêmio literário em 2013, e, há cerca de dois meses, uma das mais prestigiosas editoras da França publicou sua obra mais recente.

Entretanto, a publicação, no dia 2 de janeiro, do relato de uma de suas vítimas, Vanessa Springora, repentinamente acendeu um intenso debate a respeito da postura historicamente displicente do país em relação ao sexo com menores de idade. E também lançou uma luz particularmente crua sobre um período durante o qual algumas das principais figuras literárias e os jornais mais famosos da França - nomes da projeção de Foucault, Sartre, Libération e Le Monde - promoveram agressivamente a prática como uma forma de liberação humana, ou pelo menos a defenderam.

Em Paris, os promotores anunciaram que, depois de “analisar” o conteúdo do livro, abriram uma investigação no caso e procurarão também outras vítimas dentro e fora do país. Na França, é ilegal um adulto fazer sexo com uma criança com menos de 15 anos. Mas o ato não é considerado automaticamente estupro.

Com a mudança das atitudes em relação ao sexo e à igualdade de gênero, em 2018 a França endureceu sua legislação contra os crimes sexuais e também estendeu o estatuto de limitação para crimes de abuso sexual - elevando-o para 30 anos, em comparação a 20 - e permitindo que as vítimas apresentem suas acusações até a idade de 48 anos. A nova lei, que não é retroativa, não se aplicaria ao caso de Springora.

Em Le Consentement, Springora, hoje com 47 anos, conta que foi seduzida aos 14 pelo famoso escritor, que, na época, tinha mais de 50. Apresentada pela mãe ao famoso autor, a vítima escreve que se apaixonou por Matzneff e só se decepcionou ao descobrir alguns escritos em que ele descrevia suas relações com inúmeros outros meninos e meninas.

Ela também relata a depressão que sofreu com o acontecido, e os anos que ela levou para se recuperar. “Ele não era um bom homem”, escreveu. “Era um ogro”, ela disse. Em mensagens enviadas ao Le Parisien, Matzneff afirmou que o teor do livro era “injusto e excessivo”, e falou na “beleza do amor que compartilhamos, Vanessa e eu.”

Bernard Pivot, que convidou diversas vezes Matzneff em seu programa literário na televisão, Apostrophes, disse que nos anos 1980, “a literatura era mais importante do que a moral”. “Nós somos todos os produtos intelectuais e morais de um país e particularmente de uma época”, afirmou, acrescentando que lamentava não ter as “palavras que teriam sido necessárias” nas entrevistas com Matzneff. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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