Khadija Farah para The New York Times
Khadija Farah para The New York Times

Enxames de gafanhotos ameaçam o fornecimento de alimentos no Quênia

Em toda a África Oriental, gafanhotos estão devorando culturas e pastos na pior praga dos últimos 70 anos

Abdi Latif Dahir, The New York Times

28 de fevereiro de 2020 | 06h00

WAMBA, QUÊNIA - Quando a densa mancha começou a bloquear o céu na em pleno dia, muitos moradores de uma aldeia de pastores, no norte do Quênia, imaginaram que se tratasse de uma chuva próxima. Mas a esperança se transformou em terror assim que a gigantesca mancha se revelou como um enxame de gafanhotos do deserto capazes de se deslocarem rapidamente, que desde o final de dezembro vêm causando devastação no país.

O tamanho absurdo do enxame espantou os moradores. “Era como se um guarda-chuva tivesse coberto o céu”, disse Joseph Katoner Leparole. A comunidade tentou espantá-los usando um braço para persegui-los com bastões ou batucando em panelas de metal, e o outro para cobrir o próprio rosto e os olhos quando os insetos de um amarelo brilhante zumbiam em volta deles.

As crianças gritaram de medo, e os animais dos quais a aldeia depende para sobreviver ficaram em pânico. “As vacas e os camelos não enxergavam por onde andavam”, disse Leparole. Enquanto as pessoas lutavam pra repelir a invasão, Leparole, lembrou das histórias que ouvia quando criança sobre enxames vorazes que outrora se deslocavam sobre esta região.

“O que então era uma história tornou-se realidade”, ele disse. O Quênia combate a pior praga de gafanhotos do deserto dos últimos 70 anos, e ela se espalhou pela parte oriental do continente e do Chifre da África, arrasando pastos e campos produtivos na Somália e Etiópia e invadindo o Sudão do Sul, Djibuti, Uganda e Tanzânia. Os insetos viajam até mais de 130 quilômetros por dia. Os enxames, que podem conter 80 milhões de gafanhotos adultos em cada quilômetro quadrado, comem diariamente a mesma quantidade de alimento de cerca de 35 mil pessoas.

A infestação representa um risco para a segurança dos alimentos, prejudica o crescimento econômico e, se não for logo controlada, exacerbará o conflito comunal a respeito dos pastos. Além dos 12 milhões de pessoas que já sofrem aguda escassez de alimentos na Etiópia, Quênia e Somália, a crise dos gafanhotos agora constitui uma ameaça em potencial à segurança dos alimentos para mais de outras 20 mil, segundo a Organização para a Agricultura e a Alimentação, uma agência da ONU.

Cyril Ferrand, diretor da equipe de resistência da agência para a África Oriental, disse que os gafanhotos são um alvo em movimento e "nós corremos contra o tempo”. Os gafanhotos são uma ameaça particularmente terrível para as comunidades pastoris como a de Leparole, que dependem da vegetação para alimentar o seu gado.

Enquanto o Quênia começava a pulverização química em janeiro, a vastidão e a inacessibilidade de áreas como Wamba significam que os ovos deixados pelos gafanhotos poderão escapar da erradicação, afirmou Celina Lepurcha, uma funcionária de Wamba. E o governo nacional suspendeu a pulverização na região em razão da escassez do produto. “Se as substâncias químicas não chegarem a tempo, este círculo vicioso se perpetuará”, disse Celina. Embora a pulverização ajude, os moradores temem que as substâncias químicas envenenem o abastecimento de água.

A atual infestação no Chifre da África foi exacerbada pelas pesadas chuvas que castigaram a região no final de 2019, causadas pelo aquecimento das águas do Oceano Índico. Além disso, o clima úmido provoca o crescimento e a multiplicação destes insetos. A elevação das temperaturas também faz com que os insetos possam chegar à idade adulta mais rapidamente e espalhar-se para áreas mais altas.

O diretor executivo do Programa para a Alimentação Mundial, David Beasley, alertou recentemente que a região poderá sofrer uma “catástrofe” exigindo mais de US$ 1 bilhão em assistência. A Organização para a Agricultura e a Alimentação da ONU pediu US$ 76 milhões aos países membros para controlar o aumento da praga no Chifre da África.

Em uma plantação de três hectares em Maseki, uma cidade no leste o Quênia, Mwikali Nzoka ficou olhando impotente enquanto os gafanhotos devoravam os seus campos de milho, feijão frade e tomates. “Eles vão de um lado para o outro, estão em toda parte”, ela disse erguendo os braços. “Estava tudo tão verde aqui. Logo virará um deserto”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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