Armando Franca/Associated Press
Armando Franca/Associated Press

Na batalha pelas praias, a gaivota é campeã

Com mais de 100 espécies no mundo, as 'aves ladras' desenvolveram técnicas eficientes de sobrevivência

James Gorman, The New York Times

07 de setembro de 2019 | 06h00

Eis aqui três aspectos positivos a respeito das gaivotas: são dedicadas aos filhotes. Os machos dividem igualmente com as fêmeas o cuidado com as crias. Isso inclui chocar o ovos. E elas descobriram muitas maneiras de sobreviver em um mundo austero e difícil. Algumas comem mariscos, outras comem peixe, e outras são atraídas pelos aterros sanitários. É claro que algumas delas mergulham em nossa direção na praia ou no calçadão para roubar uma batatinha, um biscoito ou até uma fatia inteira de pizza.

A abordagem da pirataria praiana é o ponto em que humanos e gaivotas entram em conflito, é claro. E a indignação dos humanos é quase tão estridente quanto o chamado das próprias gaivotas. Várias reportagens já descreveram os hábitos predatórios das gaivotas e alguns possíveis remédios para esse comportamento. Em Ocean City, Nova Jersey, falcões serão trazidos, e alguns cientistas sugeriram que as gaivotas podem ser afastadas se as encararmos diretamente. Mas isso é difícil de fazer quando a ave chega furtivamente enquanto estamos distraídos passando requeijão na bolacha de água e sal.

Há relatos de problemas mais graves. Na Inglaterra, uma mulher disse que uma gaivota levou embora seu chihuahua, e, na Rússia, um piloto foi considerado um herói depois de pousar com sucesso a aeronave depois de colidir com uma revoada de gaivotas. Na região de Nova York, milhares de gaivotas e outras aves são mortas para manter os céus limpos para o tráfego aéreo depois que um avião fez um pouso forçado no Rio Hudson depois de trombar com uma revoada. Mas os ataques das aves continuam.

É na praia, porém, que os ânimos parecem fugir ao controle, o que não surpreende. Ainda assim, pouco foi escrito a partir do ponto de vista das gaivotas. É necessário reconhecer que as próprias gaivotas têm uma voz estridente, mas a maioria de nós é incapaz de decifrá-la. Para isso, temos a ajuda dos ornitólogos. Christopher Elphick, da Universidade de Connecticut, tem um fraco pelas gaivotas.  “Elas encontraram uma forma de prosperar no mundo", disse . “Boa parte da biodiversidade está sofrendo, desaparecendo e se perdendo. E uma parte de mim quer simplesmente celebrar o fato de haverem organismos capazes de se adaptar e prosperar.”

Mais de 100 espécies

Há mais de 100 espécies de gaivotas no mundo, e todas parecem viver bem. Algumas vivem longe do mar, o que torna observadores e aves e ornitólogos avessos ao termo comum “gaivota marinha". Algumas espécies enfrentam problemas, como a gaivota-de-marfim, no Ártico, quase ameaçada, e a gaivota-da-Nova-Zelândia, de bico preto, ameaçada.A

Sarah J. Courchesne, que estuda as gaivotas-prateadas e o gaivotão-real no Laboratório Marinho Shoals, na Ilha Appledore, Maine, diz que nem todas as aves têm estilo de vida frívolo. “Temos gaivotas que nunca são vistas na praia, e sabemos disso porque temos chips de GPS presos a elas, e observamos que elas nunca se aproximam das pessoas", disse a pesquisadora. “Ficam o tempo todo no mar, pescando o próprio alimento". “Não se pode negar que haja gaivotas que roubam comida", acrescentou. “E não se pode negar o talento das aves para tal prática.”

Aves ladras

Mas as aves ladras são especialistas. E merecem crédito, pois desenvolveram técnicas eficientes. “Quando estamos lidando com uma gaivota que sabe roubar comida", afirmou Courchesne, “é provável que essa gaivota tenha aperfeiçoado sua estratégia ao longo de anos".  Além disso, o comportamento que tanto incomoda aos humanos começa com os próprios humanos. “Todos que vão à praia e se irritam com as gaivotas deve agradecer aos humanos que os precederam", justificou. Elphick concordou. “A culpa é nossa", ele disse. “Se não deixássemos tanta comida por aí, as aves não se comportariam dessa maneira.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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