Stephanie Gengotti para The New York Times
Stephanie Gengotti para The New York Times

Gaivotas viram dor de cabeça para moradores de Roma

População de gaivotas cresceu e hoje são dezenas de milhares, afirmam os especialistas

Jason Horowitz, The New York Times

27 Setembro 2018 | 15h00

Em seu apartamento no quarto andar de um edifício no centro de Roma, Emanuela Tripi acordou com os sons aterrorizantes de uma invasão em sua casa. Foi até a cozinha na ponta dos pés e viu a culpada - o longo pescoço branco, olhos avermelhados - golpeando com o bico o latão do lixo. Emanuela jogou seus chinelos, os dois, nela. E ela a atacou.

“Arrivederci, você ganhou”, ela pensou enquanto saía correndo da cozinha, fechando a porta atrás de si. Ficou batendo na porta para assustar a ave que descreveu como “um bicho enorme, de uma altura que chegava acima dos meus joelhos, do tamanho de um peru selvagem americano”. Mas a ave nem se mexeu, “como se aquele espaço fosse seu”, prosseguiu; comeu até ficar satisfeita, e depois saiu voando pela janela.

Os romanos queixam-se há anos da degradação de sua cidade: ruas esburacadas, parques sem manutenção e a falta da coleta de lixo, que enche o ar de fedor e contribui para assorear o rio.

Mas as gaivotas não se queixam dos espaços cobertos de mato e da comida de graça, e o seu ritual ao pôr do sol, entre grasnados roucos voando em círculos sobre o Foro e a colina do Palatino, não é um bom prenúncio para Roma.

“Nós dissemos a elas que Roma era a sua casa”, disse Francesca Manzia, diretora da Liga Italiana para a Proteção das Aves de Roma. “E elas aproveitam”.

A população de gaivotas em Roma cresceu e hoje são dezenas de milhares de aves, segundo os especialistas. Suas dimensões físicas também cresceram, por causa de todo o lixo que engolem; elas se banqueteiam com o que turistas cúmplices lhes atiram, e arrancam sanduíches das mãos de pedestres distraídos.

Uma espécie que gosta de pombos, morcegos, estorninhos e até mesmo de outras gaivotas, o Larus michahellis protege seu espaço como um valentão local.

Sem nenhum plano para abatê-las, Manzia disse que explicou às autoridades que precisarão limpar a cidade e melhorar o comportamento dos romanos se quiserem reduzir a população de gaivotas. “A prefeitura se limita a dizer: ‘Impossível’”, afirmou.

Por isso, em uma recente apresentação da ópera “La Traviata” nas Termas de Caracalla, um dueto se tornou um trio quando uma gaivota começou a grasnar.

E perto do Vaticano, onde as gaivotas estraçalharam as pombas da paz soltas da janela do papa, um par delas fez um voo ameaçadoramente rasante sobre o solidéu roxo do ministro do Exterior do Vaticano.

A investida provocou certa resistência. Barbara Nat, arquiteta, vendo os pássaros rasgarem os sacos de lixo em baixo do seu terraço, nas proximidades do Circo Máximo, pegou três laranjas e as atirou contra os pássaros, surtiu efeito. “Eu me senti ótima”, afirmou.

Como muitos romanos, Barbara está convencida de que as gaivotas romanas sofreram uma mutação e adquiriram proporções monstruosas. Mas os especialistas insistem que elas parecem maiores porque as pessoas não estão acostumadas a vê-las de perto. Mas nem todos acreditam nisso.

“Isso não é uma gaivota!” gritou Joe Potenza, ao esquivar-se de dois destes enormes pássaros que brigavam por causa de uns restos de pizza, na Ponte degli Angeli. Joe contou que as gaivotas da Austrália, onde nasceu, são a metade do tamanho de suas primas romanas, que são grandes o suficiente para “Arrancar a mão das pessoas”, falou.

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