Tom Jamieson/The New York Times
Tom Jamieson/The New York Times

Galeria em Londres completa 50 anos levando a fotografia muito a sério

Quando a Photographers’Gallery abriu em Londres em 1971, poucos viam esse meio como adequado a exposições. Hoje, todo mundo vê

Alex Marshall, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2021 | 05h00

LONDRES - Em 1968, Sue Davies trabalhava como secretária no Institute of Contemporary Arts da capital britânica quando um colega adoeceu e ela teve que terminar uma exposição fotográfica em que estavam trabalhando.

A exposição, realizada no ano seguinte e centrada em imagens de mulheres, foi um sucesso. Os visitantes fizeram fila no quarteirão para entrar, e Davies perguntou aos fundadores do instituto se eles considerariam exibir mais fotografias. A resposta, ela disse, não foi a que queria ouvir: eles apenas haviam contratado a última exibição, disseram, porque as fotos foram oferecidas de graça.

Isso fez Davies ficar brava, ela disse mais tarde ao British Journal of Photography. Então ela tomou uma decisão: se os museus não queriam fotografia em seus espaços, ela começaria o seu próprio espaço.

Três anos depois, em janeiro de 1971, Davies abriu a Photographers' Gallery em um antigo salão de chá no West End em Londres. Foi o primeiro espaço de exposição da cidade dedicado à fotografia; seu objetivo, Davies escreveu em sua proposta original, era "obter reconhecimento para a fotografia como uma forma de arte".

Cinquenta anos depois, a Photographers’ Gallery mostra seu sucesso - agora está alojada em um edifício maior de cinco andares e comemora seu meio século com uma série de exposições chamadas Light Years: the Photographers' Gallery at 50, até 1º de fevereiro de 2022.

David Brittain, ex-editor da revista Creative Camera que foi o curador das exposições de aniversário, disse que a galeria havia “armado o andaime” para que a fotografia fosse considerada com seriedade na Grã-Bretanha.

Martin Parr, um fotógrafo conhecido por suas imagens humorísticas da vida britânica, ecoou o sentimento. “Aqui você podia se sentir parte de uma comunidade”, ele disse  sobre a galeria. “Tornou-se quase um lugar de peregrinação.”

Oliver Chanarin, vencedor em 2013 do prêmio Deutsche Börse anual da galeria, disse que o maior sucesso da Photographers’ Gallery “foi, de certa forma, tornar-se redundante", observando que ela abriu o caminho para muitos outros espaços e museus dedicados a exposições inaugurados na Grã-Bretanha. (Outro pioneiro, o Impressions, foi inaugurado em York em 1972.)

Davies, que morreu em 2020, é muito elogiada por seu papel pioneiro, mas o projeto poderia facilmente ter terminado em desastre. “Sue teve que renegociar a hipoteca de sua casa e ficou sem salário por 18 meses”, Brett Rogers, a diretora da galeria desde 2005, disse em uma entrevista por telefone. (Em 1973, Davies disse ao New York Times, “Sofremos de uma falta crônica de dinheiro.”)

Mas as exposições que ela organizou logo encontraram um público disposto a pagar um pequeno valor de ingresso.

O foco inicial da galeria era a reportagem, exibindo fotos socialmente conscientes tiradas para jornais e revistas. Entre elas estavam as imagens impressionantes dos residentes da The Black House, um albergue londrino para jovens negros, tiradas por Colin Jones e apresentadas em uma exposição de 1977.

No entanto, logo Davies diversificava, hospedando uma retrospectiva do trabalho do fotógrafo de moda David Bailey, e outra de imagens de Floris M. Neusüss, um fotógrafo alemão que fez retratos em tamanho real de seus modelos.

Na década de 1980, a galeria apresentou trabalhos de fotógrafos negros, incluindo o grupo D-Max, além de mais fotografias de mulheres. Nos anos 1990 e depois, as exposições temáticas exploraram questões como o papel da fotografia na era dos computadores e seu uso na vigilância. Também houve exibições de artistas famosos como Catherine Opie, Taryn Simon e Wim Wenders.

Algumas vezes, a variedade da galeria foi demais para os tradicionalistas. Em 1978, houve uma exposição, intitulada Fragments, de colagens de fotos de John Stezaker. O artista relembrou em uma recente entrevista por telefone que seu trabalho de recorte e colagem não deu certo. “Lembro-me do presidente dos patronos escrevendo uma diatribe de várias páginas contra mim no livro do visitante, sugerindo fortemente que Sue perderia seu financiamento se continuasse promovendo esse lixo”, ele disse.

Stezaker não expôs na Photographers’ Gallery novamente até 2012, quando ganhou o prêmio Deutsche Börse. “Sue se sentiu tão vingada quanto eu”, disse Stezaker.

Ocasionalmente, as controvérsias eram de natureza mais séria. Em 2010, a galeria realizou a exposição de Sally Mann, uma fotógrafa americana que faz retratos de seus filhos, nus, e que foi acusada de produzir pornografia infantil. Depois de saber da exposição, a polícia de Londres investigou, mas decidiu que as imagens não eram obscenas. “Nós as defendemos como arte e sempre o faremos”, disse Rogers.

Dois anos depois, a Photographers’Gallery mudou-se de suas instalações originais, perto de Leicester Square. Com dois espaços de exposição em cada lado de um teatro do West End, acessíveis um ao outro apenas pela rua, essa primeira configuração era estranha, disse Rogers: Quando chovia, os visitantes ficavam presos, ela notou, e apenas um dos espaços tinha banheiro.

O lar atual da galeria, em um armazém reformado perto da Oxford Street, se tornará no próximo ano a âncora para uma iniciativa do conselho local chamada Soho Photography Quarter, destinada a rebatizar e desenvolver a área ao redor.

Então, qual é o papel da galeria hoje, quando a fotografia é tão aceita e admirada que parte de Londres será renomeada segundo essa forma de arte?

Chanarin disse que a galeria era "mais necessária do que nunca". A fotografia “se tornou um meio mais complexo e em camadas” graças aos smartphones e às redes sociais, ele observou. As fotografias agora nos observam e também observam as escolhas que fazemos, tanto quanto as olhamos, acrescentou, apontando que aplicativos como o Instagram registram todas as imagens que um usuário curte. Espaços como a Photographers' Gallery são necessários para explicar as mudanças no contexto da fotografia, ele disse.

Rogers concordou que o papel da galeria era vital em uma época em que “todo mundo acha que é fotógrafo”. O desafio para a instituição, acrescentou, era dizer: “Bem, sim, mas o que torna uma fotografia tão memorável que seja capaz de durar séculos?”

Apesar de todas as mudanças, isso se parecia muito com a missão de Davies quando ela começou a galeria há 50 anos: trazer fotografias empolgantes ao público e fazê-lo querer voltar para ver mais. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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