Marco Longari/Agence France-Presse - Getty Images
Marco Longari/Agence France-Presse - Getty Images

Comissão da verdade de Gâmbia julga ex-presidente por tortura a 'feiticeiros'

Jammeh deteve dissidentes, ordenou execuções extrajudiciais e obrigou pacientes com aids a largar os remédios, de acordo com organizações de defesa dos direitos humanos

Julie Turkewitz, The New York Times

23 de novembro de 2019 | 06h00

SINTET, GÂMBIA - Matty Sanyang estava em uma cerimônia de batizado de um bebê quando os soldados chegaram a Sintet, cidade de agricultores não muito longe do litoral da África Ocidental. Eles arrancaram seus vizinhos de casa e anunciaram que o presidente tinha tomado uma decisão: os habitantes do vilarejo dela eram feiticeiros, e teriam que ser curados.

Ela disse que, então, soldados a empurraram para um caminhão, arrancaram suas roupas e a obrigaram a dizer que era feiticeira. “O que eles tomaram foi nossa dignidade", disse Matty. No dia 11 de novembro, uma comissão pública da verdade e da reconciliação nacional na Gâmbia começou a ouvir pela primeira vez os depoimentos gravados por cidadãos como Matty, que se dizem vítimas daquilo que funcionários da comissão estão chamando de “caça às bruxas” ordenada pelo ex-presidente, Yahya Jammeh, que governou por 22 anos antes de fugir do país em 2017.

A comissão foi criada para investigar atrocidades cometidas durante o longo reinado dele. Como presidente, Jammeh deteve dissidentes, ordenou execuções extrajudiciais e obrigou pacientes com aids a largar os remédios, de acordo com organizações de defesa dos direitos humanos. Ele também classificou alguns dos cidadãos como feiticeiros, tática que seus críticos apontam como central para manter o país dividido e consolidar o poder.

Desde o início das audiências, um integrante da polícia da Gâmbia acusou o ex-inspetor-geral de polícia, Ensa Badjie, de participação no comando da caça às bruxas. Outra testemunha de um pequeno vilarejo da Gâmbia depôs que pelo menos dois de seus vizinhos morreram como resultado dos ataques.

Centenas de pessoas foram sequestradas na Gâmbia, de acordo com a Anistia Internacional. Em Sintet, soldados jogaram um líquido ácido na boca e nos olhos de muitos moradores, de acordo com testemunhas, deixando alguns com vômitos e diarreia; outros disseram ter problemas de longo prazo na visão e nos rins.

Em uma sexta-feira de meados do ano, funcionários da comissão da verdade foram a Sintet para uma oficina cujo objetivo era ajudar os aldeões a lidar com o passado. Bandeiras verdes do partido de Jammeh eram vistas em muitas casas. No edifício da creche, os moradores explicaram que Jammeh tinha trazido a eles maquinário pesado, tratores, fertilizante e ensino.

Mas há o problema dos sequestros. Matty, mãe de quatro, lembra do caos do dia em que foram todos tirados de suas casas, em março de 2009. Caminhões e ônibus chegaram em grande número, disse ela. Então veio uma multidão de homens. Eles anunciaram que eram curandeiros e foram de casa em casa, escoltados por soldados e policiais, arrancando as pessoas de suas camas e mandando-as para os caminhões.

Momodou Bah, ex-líder eleito do partido de Jammeh, disse tê-los visto levar a tia e a avó. “Disseram que estavam fazendo isso em nome do presidente", disse ele. Os policiais levaram dezenas de pessoas a Kanilai, cidade natal do presidente, até um complexo na fazenda do presidente, de acordo com entrevistas e informações reunidas pela Anistia Internacional.

Dentro do complexo, policiais autoridades obrigaram Matty e dezenas de outros a beber o líquido estranho, jogando-o no rosto deles, disse ela. Bah disse ter seguido a caravana na tentativa de negociar a libertação dos cidadãos de Sintet. Ele disse ter visto vizinhos gritando e se contorcendo no chão até perder a consciência.

Quando as vítimas sequestradas voltaram a Sintet, muitas descobriram que o trauma não tinha chegado ao fim. As pessoas adoeceram, prejudicando seus negócios e fazendas. Crianças passaram fome. As audiências da comissão da verdade começaram em janeiro e devem durar dois anos. Depois disso, o procurador-geral vai decidir quem será processado. Ninguém sabe se as autoridades conseguirão levar Jammeh ao tribunal.

Matty disse que, mesmo se for à televisão contar sua história e esclarecer que não é feiticeira, não tem certeza se as pessoas acreditariam nela. Mas ela disse que deseja depor mesmo assim. “Quero a oportunidade de dizer: ‘Isso aconteceu comigo.’” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.