Sasha Maslov/The New York Times
Sasha Maslov/The New York Times

Como 'O Gambito da Rainha' gerou novo debate sobre o machismo no xadrez

O sucesso da Netflix captura as lutas das mulheres no jogo, onde grandes mestres são raras. Mas a realidade é pior

Dylan Loeb McClain, The New York Times - Life/Style

25 de novembro de 2020 | 05h00

Judit Polgar talvez seja a única mulher no mundo que sabe como Beth, a heroína da série de sucesso da Netflix O Gambito da Rainha, realmente se sente. Como Beth, Polgar, que é húngara, destacou-se durante a carreira por vencer regularmente os melhores jogadores do mundo, incluindo Garry Kasparov, em 2002, quando ele era o número um.

Polgar, a única mulher no top 10 e a única a disputar o campeonato mundial geral, aposentou-se do xadrez competitivo em 2014. Assistir à série, que ela descreveu como "incrível", deu-lhe uma sensação de déjà vu, particularmente nos últimos episódios. Mas em um aspecto ela não conseguiu se identificar com a experiência de Beth: a maneira como os competidores do sexo masculino a tratavam.

"Eles foram muito legais com ela", disse Polgar. Quando esta estava provando seu valor e subindo no ranking mundial, os homens costumavam fazer comentários depreciativos sobre sua habilidade e às vezes contavam piadas, que achavam engraçadas, mas que na verdade a magoavam, revelou a enxadrista. E ninguém jamais desistiu ao jogar contra ela, como Shapkin fez com Beth no episódio sete, segurando galantemente a mão dela perto dos lábios.

"Alguns oponentes se recusavam a apertar a minha mão. Um deles bateu com a cabeça no tabuleiro depois de perder", relembrou Polgar. Nem toda mulher teve experiências negativas. Irina Krush, que venceu seu oitavo campeonato feminino dos Estados Unidos no mês passado, disse que sentia que a comunidade do xadrez e os homens em particular a apoiavam quando ainda era uma jogadora promissora.

"O espírito do que estão mostrando [na série] está de acordo com minha experiência." Seja típico ou não o que acontece com Beth, a popularidade de O Gambito da Rainha desencadeou novamente um debate sobre a desigualdade e o machismo no xadrez e o que pode ser feito a respeito, se é que pode.

Embora o xadrez pareça ser uma área em que homens e mulheres podem competir em pé de igualdade, historicamente poucas mulheres o fizeram. Entre os mais de 1.700 Grandes Mestres regulares em todo o mundo, apenas 37, incluindo Polgar e Krush, são mulheres. Atualmente, apenas uma mulher, Hou Yifan, da China, está no top 100, na 88ª posição, e ela não vinha jogando com frequência, mesmo antes da pandemia. A superioridade masculina no jogo é tão evidente que as melhores jogadoras reconheceram isso abertamente.

Em uma edição recente da Mint, em um artigo intitulado "Por que as mulheres perdem no xadrez", Koneru Humpy, jogadora indiana que ocupa atualmente a terceira posição entre as mulheres, escreveu que os homens simplesmente são melhores jogadores. "Está provado. É preciso aceitar isso".

A escassez de mulheres no topo do ranking é uma das razões pelas quais há torneios exclusivos para elas, incluindo um campeonato mundial; a Federação Mundial de Xadrez até criou títulos para as mulheres, como Grã-Mestra. Esse status de segunda classe institucionalizado pode parecer uma má ideia, mas não para Anastasiya Karlovich, Grã-mestra que foi assessora de imprensa da Federação Mundial de Xadrez por vários anos.

Segundo ela, os títulos femininos permitem que mais mulheres ganhem a vida como jogadoras profissionais, aumentando assim a participação feminina no jogo. Karlovich explicou que a série da Netflix a ajudou de forma indireta, ao fazer com que os pais de seus alunos de xadrez a vissem de outra maneira.

"Eles têm mais respeito por mim. Entendem melhor a vida de uma jogadora", ressaltou. Embora alguns homens tenham especulado que a razão de não haver muitas jogadoras no topo do ranking é porque elas não estão preparadas para tal – Kasparov afirmou uma vez que não é da natureza delas –, as mulheres acham que a razão principal são as expectativas e os preconceitos culturais. Para Krush, a separação cultural entre meninos e meninas é feita desde cedo. Percorrendo as listas dos melhores jogadores dos Estados Unidos que têm sete, oito e nove anos, Krush apontou que há poucas garotas no top 10.

Isso cria e reforça outro problema que desencoraja a participação das mulheres: poucos contatos sociais. Jennifer Shahade, duas vezes campeã entre as mulheres nos Estados Unidos, que escreveu dois livros sobre a presença feminina no xadrez (Chess Bitch, ou A vaca do xadrez, e "Play Like a Girl!", ou Jogue como uma garota!, em tradução literal), e que é diretora do programa feminino da Federação de Xadrez dos Estados Unidos, observou que as adolescentes tendem a parar de jogar xadrez porque há poucas jogadoras e elas querem ter apoio social.

O fato de Beth ser solitária é provavelmente um motivo importante para não deixar de participar de torneios. Do total de 74 mil membros, a Federação de Xadrez dos EUA informou que há cerca de 10.500 mulheres. Shahade quer aumentar esse número, bem como a participação feminina.

Para tanto, ela e a federação criaram um clube de xadrez online, em abril, para manter as jogadoras engajadas durante a pandemia. Nas últimas semanas, entre 80 e 140 participantes ingressaram, sendo algumas delas de idade mais avançada. A última reunião também contou com um convidado especial: Kasparov, que se tornou um grande promotor do xadrez feminino desde que se aposentou das competições em 2005.

Ele também foi consultor da série da Netflix. Para aproveitar o bom momento, Shahade está lançando um novo grupo online chamado "O Clube do Livro da Louca". O título se refere a um nome pejorativo usado para se referir à rainha nos séculos XV e XVI, depois que ela se tornou a peça mais poderosa do tabuleiro. A primeira reunião já conta com cem inscritos. O assunto da discussão não deverá surpreender ninguém: O Gambito da Rainha, de Walter Tevis, o livro no qual a série da Netflix foi baseada.

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