Adam Ferguson para The New York Times
Adam Ferguson para The New York Times

Garotas libertadas pelo Boko Haram tentam superar traumas

Mais de 100 estudantes do vilarejo Chibok sequestradas em 2014 vivem hoje em um campus universitário, onde buscam retomar a recomeçar a vida

Dionne Searcey, The New York Times

22 Abril 2018 | 10h30

YOLA, NIGÉRIA - A lista tinha mais de 200 nomes. Martha James. Grace Paul. Rebecca Joseph. Mary Ali. Ruth Kolo. E tantas outras. Foram necessárias semanas até que as autoridades nigerianas publicassem o nome de todas as estudantes que o Boko Haram sequestrou de um internato no vilarejo de Chibok quatro anos atrás, na noite de 14 de abril. Quando os nomes finalmente vieram a público, o número era impressionante.

A lista logo circulou entre os pais aflitos que buscavam notícias de suas filhas, e alguns deles chegaram a subir em motocicletas para confrontar os militantes islâmicos que tinham invadido a escola, transferido as garotas para caminhões e as transportado para longe sob a mira de armas. 

Os soldados também usaram a lista enquanto vasculhavam o interior do país em busca das estudantes desaparecidas, marchando pela floresta, enviando caças a jato e recrutando a ajuda de forças armadas estrangeiras. Os negociadores verificavam os nomes das garotas enquanto convenciam os militantes a libertá-las. E a lista se tornou uma inspiração para manifestações a centenas de quilômetros de distância, na capital, que seguiram marchando e pedindo o retorno das garotas, dia após dia.

“Quando começava a ler cada nome, eu sentia minha determinação ganhar força", disse Oby Ezekwesili, ex-ministro da educação que liderou os protestos. “Não eram apenas estatísticas. Tratava-se de seres humanos reais”.

Longe dali, nos Estados Unidos, França, Coreia do Sul e outros países, figuras públicas e celebridades se uniram à causa. Tragam nossas garotas de volta, exigiam.

Durante anos, as adolescentes continuaram desaparecidas, transformando-se de garotas em mulheres, perdidas nas mãos de extremistas conhecidos por espancar e estuprar suas cativas. E então, foi com alegria que muitos daqueles nomes começaram a ser riscados da lista. “Estou ‘de volta’, como dizem", disse Hauwa Ntakai, uma das estudantes de Chibok.

Quase quatro anos depois de serem sequestradas, mais de 100 das estudantes de Chibok vivem agora num ajeitado campus universitário no nordeste da Nigéria, e seus dias são gastos com aulas de inglês e matemática, sessões de karaokê e selfies, e filmes noturnos embalados em pipoca.

O governo negociou a libertação de muitas das estudantes de Chibok, que foram soltas ao longo dos 18 meses mais recentes. Algumas outras foram encontradas vagando pelo interior, depois de escaparem. Mas mais de 100 de suas antigas colegas continuam em poder do Boko Haram. Acredita-se que mais de dez tenham sido mortas.

“Estou feliz", disse Hauwa Ntakai, cujo nome era o 169º da lista. Agora, ela é uma estudante de 20 anos que acorda cedo para participar das aulas de ioga no sábado e debate os benefícios e perigos das redes sociais durante as noites de reunião na universidade. “Mas penso sempre nas minhas irmãs que ficaram para trás", nas garras do Boko Haram, disse ela.

A Nigéria está no seu nono ano de conflito com o Boko Haram, grupo que já matou e sequestrou milhares de civis. Sob muitos aspectos, as estudantes de Chibok foram apenas outro grupo de vítimas da organização. Muitas das jovens se consideram, agora, sortudas. A grande maioria das vítimas do Boko Haram permanecerá anônima, e muitas de suas famílias jamais saberão o que aconteceu com elas. 

Mas as garotas de Chibok tinham nomes. Saratu Ayuba. Ruth Amos. Comfort Habila. Esther Usman. E, poucas semanas de terem sido abduzidas, quando o Boko Haram transmitiu imagens das prisioneiras mostrando-as cobertas com véus pretos dos pés à cabeça, elas ganharam também rostos. As estudantes adolescentes logo se converteram em representantes involuntárias de todas as vítimas mortas e desaparecidas em decorrência de uma crise.

Elas se tornaram as filhas da Nigéria e, num sentido mais amplo, do mundo todo, defendidas como se pertencessem a todos. “Quando ocorreu a abdução em Chibok, teve início a articulação de toda uma saga", disse Saudatu Mahdi, cofundadora do movimento Bring Back Our Girls (Tragam de volta nossas garotas). “Elas se tornaram um foco de união.”

Mas as estudantes libertadas carregam também o fardo dessa celebridade. Frequentam uma universidade particular que educa os herdeiros da elite nigeriana. Mas são obrigadas a conviver com várias restrições. Não podem deixar o campus sem estarem acompanhadas. Não podem receber visitantes sem solicitar permissão especial. E embora algumas tenham dado à luz durante o cativeiro, seus filhos não podem ficar com elas.

Na verdade, as jovens raramente viram seus parentes depois de terem sido libertadas do Boko Haram. Assim que foram soltas, as mulheres foram levadas à capital, Abuja, onde passaram semanas sob custódia do governo, interrogadas em busca de informações que pudessem ajudar a localizar as colegas que continuam desaparecidas, e também convencendo as autoridades de que não tinham se tornado leais ao Boko Haram.

Agentes de segurança alertaram as jovens para não falarem no tempo que passaram sob poder dos militantes, argumentando que isso poderia colocar em risco a segurança daquelas que continuam sob poder do Boko Haram. A recomendação foi que esquecessem o passado e seguissem com suas vidas. Durante meses, seu acesso aos próprios pais foi limitado. Elas não podiam deixar o edifício governamental que servia como seu dormitório. Mesmo agora, sua única forma de entrar em contato com os parentes é pelo telefone.

Em meados do ano passado, funcionários da Universidade Americana da Nigéria viajaram até Abuja para uma reunião com o governo. Ainda em 2014, a universidade recebeu cerca de 20 estudantes de Chibok que tinham sido sequestradas pelo Boko Haram, mas conseguiram fugir horas depois de sua captura. Os administradores da universidade queriam levar embora também as recém-libertadas. A ideia era ajudá-las a retomar os estudos, reuni-las com as antigas colegas e prepará-las para a nova vida de universitárias.

Agora as vidas das estudantes de Chibok são mantidas numa estrutura. Elas são consideradas alvos de destaque. E as autoridades temem que, enquanto figuras públicas, é grande o risco de serem exploradas. “Elas não voltarão a ser as pessoas normais que eram antes do sequestro", explicou Saudatu Mahdi.

Os administradores da universidade não tinham experiência com o ensino de um grupo grande de antigas reféns. Mas não há ninguém com esse tipo de experiência. “Vamos levá-las e descobrir o que fazer", teria dito na época a reitora da universidade, a americana Dawn Dekle. “Elas foram traumatizadas enquanto grupo. A superação desse trauma também precisa ser em grupo”.

Na universidade, os administradores se apressaram para cuidar dos preparativos para a chegada das estudantes, reformando um dormitório para que todas pudessem ficar alojadas juntas. A diretora-assistente para assuntos estudantis se tornou a diretora responsável pelas recém-chegadas. Uma terapeuta americana, que já tinha orientado algumas das primeiras a escapar do sequestro em massa, foi recrutada para trabalhar como psicóloga das estudantes.

Em setembro de 2017, mais de 100 das estudantes chegaram. Algumas das colegas temeram a possibilidade de o Boko Haram perseguir novamente as estudantes de Chibok, ainda mais numa universidade que representa o tipo de ensino ocidental condenado pela organização militante. Outras temeram que as próprias estudantes fossem terroristas.

Depois de chegarem ao campus, as mulheres foram levadas ao refeitório para se alimentarem. Foram encaradas pelas demais colegas. “Deu para ver que elas não ficaram à vontade", disse Reginald Braggs, ex-instrutor da reserva da marinha americana que comanda o programa voltado para as estudantes de Chibok. Os administradores decidiram que o melhor era permitir que elas comessem no dormitório.

Agora todas estão na casa dos 20 anos, e participam de um programa de ensino que às vezes parece voltado para estudantes do fundamental. As salas de aula são decoradas com imagens do Homem-Aranha e tabelas elementares de multiplicação. As mensagens de pensamento positivo são coladas em cada parede: nunca desistir, acreditar em si mesma, brilhar como as estrelas. As mulheres pareciam alegres e relaxadas numa recente manhã de domingo. Raymond Obindu, um carismático pastor local, reserva para as estudantes sermões mais positivos do que aqueles feitos para o restante da congregação.

“Elas passaram juntas pelo inferno", disse Somiari Demm, psicóloga que atende as estudantes. “Elas compartilham uma narrativa detalhada da qual ninguém mais faz parte”. As mulheres disseram a seus pais que enfrentaram períodos de fome enquanto estavam sob o poder do Boko Haram. Foram obrigadas a cozinhar e limpar para os combatentes. Algumas foram estupradas. Uma delas perdeu parte da perna como consequência dos ferimentos infligidos pelo Boko Haram.

Ntakai Keki, 60 anos, disse que a filha, Hauwa, contou de uma vez em que recebeu 30 chibatadas. Disse ter visto os corpos de crianças que eram mantidas como reféns e viu combatentes serem mortos nos bombardeios aéreos.

Os funcionários da universidade não permitem que jornalistas conversem com as mulheres a respeito daquilo que viveram em poder dos militantes. “Em se tratando do padrão americano de maturidade, são mulheres feitas", disse Braggs. “Mesmo do ponto de vista físico, estão maduras. Mas, se analisarmos seu desenvolvimento social, veremos que ainda são muito vulneráveis”.

“Não quero que ninguém pense que sou do tipo superprotetor", acrescentou ele. “Não acho que sejam crianças. Mas fui incumbido de uma responsabilidade”.

Na universidade, as jovens são orientadas a falar apenas inglês, idioma com o qual a maioria tem certa dificuldade (cresceram falando Hausa e outros idiomas locais). A maioria das pessoas encarregadas de cuidar delas não consegue se comunicar com as jovens no seu idioma nativo.

Uma estudante, Glory Dama, quer fazer um curso universitário e voltar para Chibok, trabalhando como enfermeira e ajudando a comunidade. Outra delas, Rhoda Peter, quer ser advogada. “Sei que estou num lugar onde ninguém vai nos perseguir nem fazer nada de errado conosco", disse Rhoda Peter, 22 anos. “Eles estão aqui para ajudar.”

Grace Hamman disse ter encontrado algum conforto durante o tempo passado no cativeiro em saber que não tinha sido esquecida.

“Eu ouvia no rádio que as pessoas estavam chorando, preocupadas com a nossa situação", recordou ela. “Agradeço a todos pelo que fizeram por nós”.

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