Frankie Perez/The New York Times
Frankie Perez/The New York Times

Garotos usam TikTok para ajudar jovens a falarem sobre moda

O app é uma plataforma insaciável, e o conteúdo de moda masculina, geralmente de nível básico, é abundante

Jon Caramanica, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2021 | 05h00

Entre o fim do ano passado e os primeiros meses deste ano, as críticas de moda e de estilo mais severas da internet vinham na forma do rosto muito redondo, muito calmo e sem expressão de Mark Boutilier.

No TikTok, ele usava a função de dueto do aplicativo, com a qual é possível postar um vídeo ao lado do de outra pessoa, para desmantelar silenciosamente os infratores da moda, mantendo um semblante imutável, enquanto os possíveis influenciadores usavam um look amador ou exibiam compras absurdas da Supreme.

Em um aplicativo que muitas vezes privilegia o excêntrico, os anticomentários de Boutilier se tornaram uma alternativa irônica.

Esses vídeos plácidos e cheios de conhecimento ajudaram a dar forma a um discurso de moda emergente entre os jovens no TikTok, que vai além das fotos com curadoria rigorosa e do excesso de conteúdo patrocinado do Instagram, e entra em um território mais discursivo. O TikTok, rápido e não linear, é perfeito para uma conversa sobre moda repleta de interjeições, duelos de humor e palestras improvisadas.

Boutilier faz parte de um pequeno grupo de jovens, a maioria na casa dos 20 anos, que usa as ferramentas e estruturas de memes do aplicativo para criar uma conversa sobre moda que é íntima, generosa, divertida e que sempre muda de forma. Seus vídeos, que incluem filosofia de roupas, arquivos históricos, ironia e instrução, somam-se a uma iteração interativa, reconfortantemente informal e totalmente moderna da crítica de moda.

O mais estudioso e provocador dessa nova abordagem é Etienne Bolduc (@thedigitalcowboy), arquivista de 27 anos de Montreal e historiador amador da moda. Bolduc é especializado em estilistas japoneses – Yohji Yamamoto, Issey Mikaye, Rei Kawakubo, Naoki Takizawa – e seus vídeos são uma mistura de documentação de arquivo, detalhes do passado e exibições extravagantes de roupas.

olduc, que também é dono de uma sofisticada loja virtual de roupas de grife vintage e de uma plataforma de pesquisa chamada My Clothing Archive, é um verdadeiro cavalheiro com um dom verdadeiro para a silhueta e a proporção. Ele descreveu como "hiperrealista" sua forma de se vestir, embora também tenha dito: "Eu me concentro muito mais no significado cultural do que em como eles se encaixam. A maneira como me visto diz respeito a como usar artefatos culturais, símbolos culturais".

No TikTok, ele é um defensor travesso e zeloso da precisão, muitas vezes respondendo a vídeos com informações falsas e adicionando um contexto mais amplo às roupas. "Não se trata apenas de moda. Também se trata de tentar fazer conexões com tudo: música, fotografia, design", afirmou Bolduc, que montou uma vasta biblioteca de revistas e livros japoneses e aprendeu japonês sozinho para traduzi-los.

Bolduc é o radical livre da moda do TikTok. Por outro lado, Joaquin Martinez (@fashion.elitist), de 23 anos, é o filósofo da silhueta no aplicativo, apresentando diversas séries de vídeos sobre como juntar roupas "conectadas" e "desconectadas", quais estilos de roupa complementam melhor as diferentes formas físicas e as maneiras mais elegantes de usar cores. (Martinez, que vive em Los Angeles, geralmente se veste de preto, com roupas esvoaçantes e fluidas.)

@fashion.elitist

Your outfit is like a blank canvas waiting for accessories. What’s your favorite accessories to put on? dm me on ig for questions! ♬ Elevator Music - Bohoman

Ele começou a disseminar seu kit de ferramentas intelectuais sobre como se vestir depois de ter se frustrado com a forma como os influenciadores da moda mais estabelecidos exibiam seus looks sem dar nenhuma instrução sobre como montá-los. "Quando você pratica tanto um ofício, isso se torna tão natural que você logo se esquece de como chegou lá e não sabe como explicar isso a outra pessoa. Analiso demais as coisas, mas acho que é assim que posso ajudar os outros. Alguém tem de apresentar a terminologia e dar a explicação, como seu professor de matemática fazia", disse Martinez.

O comediante do grupo é Boutilier (@mark_boutilier), que tem 23 anos. Nesse ecossistema, ele se tornou uma espécie de meme humano, quer se trate de seus vídeos de reações secas; de agitar preguiçosamente o dedo no ar em direção a uma manchete que está prestes a subverter, uma inversão do modo TikTok de apoio entusiasmado; ou de fazer vídeos sobre coisas horrorosas encontradas em brechós.

Observador impassível do fluxo constante de exageros e tendências, Boutilier, que mora nos arredores de Atlanta, costumava ser visto como um antagonista em seus primeiros "vídeos de reação". "Muitas vezes, eu fazia um vídeo e o original era excluído algumas horas depois. Acho que não conseguiam me interpretar e não sabiam se eu estava brincando ou não".

O TikTok é uma plataforma insaciável, e o conteúdo de moda masculina, geralmente de nível básico, é abundante: tutoriais de estilo, recomendações de produtos, listas de vídeo e uma quantidade infinita de fotos exibindo looks, ou vídeos de looks, ou vídeos de fotos de looks. Existem modelos conhecidos, e modelos, como Wisdom Kaye (@wisdm8), que começaram a carreira fazendo posts no TikTok.

No entanto, esse nicho de criadores compartilha linguagem e interesses próprios. Eles riem uns dos outros com bom humor, tirando sarro das manias de cada um. Todos reviram os olhos com certas peças, como o tênis com logotipo de coração da Comme des Garçons Play ("Sapato de coração é ruim"). Debatem a ética das réplicas de tênis, ou se você pode usar uma jaqueta de outra forma que não seja aberta.

Às vezes, desenterram looks improváveis: jeans Wrangler Wrancher, calças de chef Cookman, sacolas de compra vazias. Com ajuda do recurso de dueto do aplicativo, às vezes uma série de jovens tenta usar o truque – algumas vezes com sinceridade (adicionando uma bolsa ao look), outras vezes com ironia (vestindo uma camiseta regata com calças simples).

Muitos desses criadores também construíram uma comunidade improvisada fora do aplicativo: Martinez iniciou um bate-papo em grupo no Instagram que agora inclui Boutilier, Bolduc e uma dúzia de outros criadores de moda do TikTok. A cena também tem um podcast próprio, o Pair of Kings, que rotineiramente apresenta os principais nomes da cena. Martinez postou recentemente um vídeo em que aparece colando um dos adesivos de Boutilier em uma loja da Fairfax Avenue, em Los Angeles, em um gesto de boa vontade entre países.

A cena ainda é pequena e está fora do radar da maioria das grandes empresas de moda. Apenas nas últimas semanas alguns deles receberam produtos gratuitos de marcas, algo bastante comum no mundo dos influenciadores digitais. Mas o TikTok ainda é visto como um aplicativo para adolescentes, e muitas empresas conhecidas, que ignoram os ritmos e as piadas internas do aplicativo, ainda têm dificuldades para se apresentar. (O estranho Ssense é uma piada recorrente entre esses tiktokers da moda.) E muitos desses criadores aspiram a algo mais nobre e menos gratuito do que a pura atenção.

Mais do que o Twitter, que fomenta principalmente discussões; mais do que o Instagram, que é excessivamente polido; ou que o Snapchat, que funciona principalmente em privado, o TikTok é o aplicativo de mídia social mais adequado para a troca de ideias. Por causa da página "Para Você", que é definida por algoritmos, é quase impossível manter uma experiência de visualização com curadoria no TikTok, o que significa que, no aplicativo, os criadores tendem a trabalhar de forma mais improvisada. O resultado é uma conversa sobre moda que ziguezagueia e depende de uma estrutura de ruptura e resolução.

"Quando você está fazendo coisas para o Instagram, cada detalhe é ajustado até certo grau. É muito mais divertido no TikTok", disse Karsten Kroening (@meme_saint_laurent), estudante universitário de 20 anos em Seattle, que está organizando uma conta de memes de moda com o mesmo nome no Instagram há cinco anos. Ele acrescentou que o mais importante é que, no TikTok, "você pode ver o rosto de quem fala, e, quando você enxerga o rosto, percebe melhor o tom e a maneira como a pessoa está falando, mesmo quando ela está corrigindo você. Isso muda totalmente a forma como podemos ter uma conversa".

Isso fica claro no hábito das correções nesse meio, quando um usuário posta algo errado e outro acrescenta um vídeo ou faz um comentário.

Essa pequena cena da moda começa a encontrar seu ritmo, e é complementada por um grupo de jovens que usam o TikTok para mostrar como fazem as próprias roupas, criando o que não existe como forma de criticar o que existe.

Entre esses tutoriais, os mais acessíveis e relaxantes são os de Julian Carter (@juulian.c), engenheiro de 24 anos de Huntsville, no Alabama, que gosta de roupas militares e hiperfuncionais. Ao contrário dos criadores que revelam sua criação no fim de seus clipes, Carter opta por abrir com o produto acabado para chamar a atenção dos espectadores. "Por que eu assistiria a um vídeo sem saber qual é o produto final?", perguntou.

Seus vídeos, nítidos e atraentes, fazem alterações extremas – como fundir dois pares de calças ou cortar vários centímetros de uma jaqueta jeans. Mesmo seus maiores excessos, como uma calça com cintura de 230 centímetros, são reproduzidos sem brincadeiras.

"Quando comecei, ser aprovado por Mark era importante. As pessoas vinham para meus comentários e marcavam o Mark", contou Carter. (Os dois se tornaram colegas.) Agora, Carter também se tornou um nome importante e, quando mostra uma nova técnica, "as pessoas me mostram seus vídeos". Estas são aulas, mas também convites, reações que se transformaram em estímulos. / 

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
modaInstagramSnapChatvestuário

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.