Julia Gunther / The New York Times
Julia Gunther / The New York Times

Abundância de gás natural tornou-se maldição na Holanda

Décadas de exploração reduziram a pressão nas rochas que contêm o gás, provocando sua contração e aumentando chances de terremotos

Stanley Reed, The New York Times

09 de novembro de 2019 | 06h00

GRONINGEN, HOLANDA – Dirigindo pelos campos hoje mais baixos na Holanda, passamos por estranhos aglomerados de tubos e tanques prateados. São o único sinal visível de que nas profundezas desta região a noroeste do país estão os maiores campos de gás natural da Holanda. A não ser que a gente pare em uma das casas de fazenda abaladas pelos terremotos causados pela extração do gás. Em sua habitação em Appingedam, Nicole van Eijkern apontou para as paredes externas que ameaçam cair e para as rachaduras dos tetos. Vigas pesadas escoram por dentro e por fora a casa que deverá ser derrubada. “Dez anos atrás, era uma casa ótima, hoje é uma ruína”, lamentou.

Os terremotos estão destruindo uma região de 900 quilômetros quadrados, onde os moinhos de vento antigamente forneciam energia para as casas e as fazendas. Muitos dos 585 mil moradores que desfrutavam de uma paisagem secular agora lamentam a riqueza em baixo dos seus pés.

Descoberto em 1959 pela Exxon Mobil e pela Royal Dutch Shell e ainda operado por uma joint venture das duas gigantes, o campo de Groningen é, há muito tempo, uma cornucópia, uma potência energética. A partir da década de 1960, o gás foi uma fonte nacional de combustível relativamente limpo para a Holanda e o noroeste da Europa.

Ele ajudou o país a abandonar a dependência do carvão. As receitas auferidas da venda do gás extraído chegaram a centenas de bilhões de euros para o tesouro nacional, o que permitiu a criação de um generoso Estado do bem-estar. Mas décadas de exploração reduziram a pressão nas rochas que contêm o gás abaixo da superfície, provocando a sua contração. Com isto, o solo afundou cerca de 33 centímetros, e os terremotos começaram. Desde meados dos anos 1980, foram registrados mais de mil tremores. Milhares de edifícios foram danificados, inclusive o rico acervo de igrejas medievais.

Embora em geral se trate de pequenos tremores, cerca de cem foram da magnitude 2.0 ou mais. Moradores lembram dos tremores pelo nome das comunidades que mais os sofrem – a aldeia de Huizinga, por exemplo, foi abalada em 2012 por um terremoto de 3.6 que, segundo analistas, provocou a revoltou da opinião pública contra a indústria do gás.

Cada terremoto é diferente, disse Anke Carter, que mora na aldeia de ‘t Zandt. Às vezes, os móveis “tremem e saem do lugar”. Outras vezes, ouve-se um rugido como o de “trovão”. Um tremor chegou a provocar verdadeiras ondas na superfície dos campos holandeses, “como no mar”, ela lembrou.

Este desastre em câmara lenta hoje obriga o governo holandês a reduzir a produção de gás, com consequências provavelmente profundas para a sua economia. A fim de acalmar a atividade sísmica, desde 2013, os fluxos de gás  foram desacelerados em cerca de 70%. Em setembro, o governo anunciou que pretende parar totalmente a extração até meados de 2022. “É o fim de uma era”, pontuou Tim Boersma, pesquisador da Columbia University de Nova York. “Durante dezenas de anos, a produção de gás foi um motor extremamente importante da economia holandesa”.

Custos

Os proprietários de casas já exigem elevadas indenizações. O governo holandês respondeu aos protestos da população em 2018, quando tirou a tomada das decisões sobre a produção das mãos da Exxon Mobil e da Shell. Sua joint venture, a Nederlandse Aardolie Maatschappij, NAM, é responsável por todos os custos relativos  à exploração do campo. E, até 2018, foi responsável pela avaliação e o pagamento dos reparos. As agências do governo agora assumiram este papel também que cobram a joint venture.

Os custos relativos aos terremotos da NAM, pagos desde 2012, agora somam 2,7 bilhões de euros, segundo a Shell. O gás que continua no campo de Groningen – ao que se calcula para mais 17 anos de consumo na Holanda às taxas atuais – se enquadra na descrição de uma “riqueza encalhada”, por causa dos depósitos de petróleo que não podem ser usados. As companhias  não serão compensadas pela perda, que monta a cerca de US$ 70 bilhões.

Juntamente com os projetos de energia eólica e solar, as autoridades apostam no hidrogênio, um combustível limpo produzido  pelo uso da eletricidade.

A consequência mais imediata  do fechamento de Groningen será o aumento das importações da Rússia.O corte da produção aparentemente está reduzindo os terremotos, mas o perigo persiste. O sismólogo Laslo Evers prevê o decréscimo da atividade sísmica, mas isto não descarta a possibilidade de sismos como o de 3,4 de magnitude em maio. “Ninguém sabe”, respondeu Evers à pergunta sobre quanto tempo os terremotos poderão.

Em Loppersum, considerado o centro da zona de terremotos, ruas inteiras de casas foram derrubadas ou reforçadas. Em Appingedam, uma comunidade de 230 unidades habitacionais de aluguel subsidiadas será substituída por um novo complexo habitacional. Segundo uma moradora, Monique Annaars, de 44 anos, alguns vizinhos esperam habitações melhores, mas outros ainda estão em estado de choque. “Suas vidas são como o efeito dos terremotos, estão bastante abaladas”, disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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