Louise Johns/The New York Times
Louise Johns/The New York Times

Com chop suey e fãs leais, um restaurante centenário mantém a chama acesa

O Pekin Noodle Parlor diz adeus a seu proprietário de longa data, mas se apega a um passado e cidade coloridos

Brett Anderson, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 05h00

Butte, Montana - Danny Wong tinha um sistema para capturar ladrões. O ex-proprietário do Pekin Noodle Parlor, o mais antigo restaurante chinês de propriedade familiar em operação contínua nos Estados Unidos, ordenava aos garçons que trancassem a porta da frente ao som de passos rápidos batendo no assoalho. Os clientes que tentavam fugir do salão do segundo andar sem pagar subiam de volta as escadas íngremes em busca de outro caminho, apenas para encontrar Wong parado ali, segurando uma baioneta e oferecendo uma escolha: pagar a conta ou lavar a louça. "Chamávamos isso de prisão Pekin", disse Jerry Tam, filho de Wong e atual proprietário do Pekin.

O restaurante foi inaugurado em 1911, e a prisão, de acordo com Tam, foi usada com frequência nas décadas de 1980 e 1990, depois que a economia da cidade mineira atingiu o fundo do poço, mas nem tanto nas últimas décadas. Tam mandou consertar as escadas danificadas em 2009, quando voltou para casa a fim de ajudar o pai e a mãe, Sharon Tam, a gerenciar o Pekin. "Foi uma das poucas mudanças que fizemos."

O impulso de manter o Pekin funcionando, sem modificar significativamente seu aspecto desgastado pelo tempo, resultou em um tipo incomum de restaurante: artefato vivo da história de Butte que já sobreviveu a duas pandemias, mas permanece intimamente ligado à vida cotidiana desta cidade montanhosa de 34 mil habitantes.

O motor dessa conexão com Butte foi Wong, que comprou o Pekin de seu avô, Tam Kwong Yee, na década de 1950 e esteve à frente do estabelecimento até ter um derrame em 2019; morreu em novembro passado, aos 86 anos. (Sharon Tam morreu em 2014.) Seu compromisso inabalável com a hospitalidade - Tam comentou que o pai demonstrava compaixão até mesmo por aqueles que tentavam sair sem pagar a conta - deixou uma marca profunda em uma cidade que está habituada a tempos difíceis.

Max Baucus, ex-senador dos Estados Unidos por Montana e amigo de longa data de Wong, mencionou que a influência do dono do restaurante transcendeu seu papel no Pekin. "Butte não é grande e Danny conhecia todo mundo. Ao subir as escadas, você sabia que ia se divertir muito, e tinha de verificar se estava estável quando descia", afirmou Baucus, que, como muitos políticos de Montana, fazia visitas regulares ao Pekin quando passava pela cidade.

A importância do Pekin para esta comunidade ficou evidente em 20 de julho, quando cerca de cem pessoas se reuniram no beco atrás do restaurante para homenagear Wong. O memorial, muito atrasado por causa da Covid, começou com uma cerimônia que rebatizou o beco com o nome de Danny Wong Way.

J.P. Gallagher, executivo-chefe dos condados de Butte e Silver Bow, declarou em sua dedicatória que não conseguia se lembrar da primeira vez que comeu no Pekin. "Meu pai me trouxe aqui quando eu ainda era bebê de colo, mas me lembro da primeira vez que enfiei minha mão na mostarda quente."

Muitos dos simpatizantes que compareceram à cerimônia e à festa voltaram ao Pekin quando ele reabriu na noite seguinte. Uma fila se formou no corredor para uma das cobiçadas cabines com paredes alaranjadas - cena frequente desde que o restaurante voltou a servir as refeições na parte interna em junho, segundo a garçonete veterana Shannon Parr. "Desde a morte de Danny, o restaurante tem estado cheio."

Wong nasceu Ding Kuen Tam na cidade de Guangzhou (ou Cantão, em português), na China, em 1934. Deixou o país depois da invasão japonesa, ficando por pouco tempo na Califórnia antes de se estabelecer em Butte. Imigrantes da província natal de Wong, incluindo muitos de seus parentes, foram atraídos para a cidade para trabalhar na ferrovia ou em empresas de serviços que sustentavam a então próspera indústria de mineração. O Pekin, que seu avô tinha ajudado a fundar, fazia parte de um polo de empresas pouco conectadas, que incluía uma loja de medicamentos fitoterápicos.

Tam contou que seu pai mudou de nome depois que um amigo de infância lhe disse: "Você não pode se chamar Ding Kuen Tam em Butte, Montana." Wong era o sobrenome de uma tia com quem ele morou ao chegar no Estados Unidos.

Segundo Tam, em meados do século XX o Pekin era um entre mais de uma dúzia de restaurantes que serviam uma versão americana da culinária chinesa aos mineiros locais. O menu de hoje inclui pratos que datam da fundação do restaurante, incluindo 16 variações de chow mein e de chop suey. O menu evoluiu ao longo dos anos, passando a misturar elementos da culinária cantonesa da infância de Wong e da Birmânia, terra natal de sua esposa (agora Myanmar).

Tam, como seu pai, desempenha uma série de funções no restaurante, incluindo a de chef. Ele disse que aprendeu a cozinhar "por osmose", uma vez que trabalha lá desde muito jovem. Seu pai rejeitou suas sugestões para substituir a carne de ave em fatias usada no chow mein de frango, ou os cogumelos enlatados usados em muitos outros pratos. "Meu pai queria mostrar às pessoas que nossa comida não é de gente rica. É a comida do homem comum. É a culinária regional do meu pai."

No ano passado, Nelson Lee, primo em segundo grau de Wong, mudou-se de Houston para Butte a fim de ajudar na cozinha do Pekin, depois de ter perdido o emprego por conta da pandemia.

Evan Barrett, antigo agente político de Montana que lecionou a história de Butte na Universidade Tecnológica de Montana, é parcial em relação a qualquer coisa feita com o molho agridoce do Pekin. "Eu costumava dizer ao Danny: 'Você precisa vender esse molho. Ele não é rosa como nos outros lugares."

O prédio abrigava vários negócios administrados por parentes de Wong, na época em que a Empresa de Mineração de Cobre Anaconda era uma potência econômica e Butte tinha cerca de cem mil habitantes. Partes do térreo e do porão estão desocupadas há décadas, sendo atualmente usadas para armazenar produtos; algumas salas parecem congeladas no tempo. Ainda há potes de doces nas prateleiras atrás de um bar no primeiro andar, sobras de uma breve experiência para gerar receita durante a Lei Seca. "Aquela ideia durou talvez meio ano. Ninguém queria doces", contou Tam.

O porão do Pekin é um labirinto de corredores estreitos que conectam salas desordenadas que antes abrigavam jogos ilegais, escritórios e uma área de consumo de ópio. As lâmpadas do teto revelam pilhas de bilhetes antigos de keno (espécie de loteria), roletas e caça-níqueis. "É uma cidade mineira, e os mineiros gostavam de jogar."

O Pekin fica na parte alta da cidade de Butte, ao pé daquela que é conhecida como a Colina Mais Rica da Terra, por causa de seus depósitos de cobre e de outros minerais. Um memorial local em homenagem aos 168 mineiros mortos no incêndio da mina Granite Mountain-Speculator em 1917 é adornado com bandeiras da Turquia, do Líbano, da Espanha e de outros lugares, testemunho da diversidade dos imigrantes de Butte. "Era uma cidade dinâmica. Na parte alta de Butte fervilhavam os bares e as igrejas, sábado à noite e domingo de manhã", comentou Barrett.

Segundo Tam, os imigrantes chineses estavam entre os moradores mais pobres de Butte, em grande parte por causa da Lei de Exclusão dos Chineses, que proibiu seu acesso a empregos com melhor remuneração. Ele disse que seus pais tinham o hábito de não jogar nada fora, porque haviam passado muita necessidade: "Esse tipo de coisa tinha muito valor para eles." Os andares inferiores do Pekin estão exatamente como estavam quando Wong morreu, incluindo seu escritório.

A memorabilia caiu como uma luva para a celebração da vida de Wong. Nenhuma das quatro irmãs mais velhas de Tam mora em Butte, embora todas tenham comparecido ao memorial, assim como muitos ex-funcionários do Pekin. Sue Rawlings, de 86 anos, que se mudou do Japão para Butte em 1961, estava entre eles.

Tam afirmou que só depois do memorial de seu pai pensaria mais seriamente no futuro do Pekin. Considerou transformar um dos andares inferiores em um bar e doar alguns pertences da família a um museu. Tudo que ele sabe com certeza é que fará o possível para dar continuidade ao legado da família. "Vamos dar nosso máximo para manter o restaurante funcionando." 

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