Ivor Prickett/The New York Times
Ivor Prickett/The New York Times

Gazelas ameaçadas de extinção voltam à vida em zona de guerra

Caçada quase à extinção em todo o mundo, a gazela-da-montanha encontra uma mão amiga na fronteira entre a Turquia e a Síria

Carlotta Gall, The New York Times - Life/Style

10 de abril de 2021 | 05h00

KIRIKHAN, TURQUIA - A fronteira sul da Turquia com a Síria se tornou um lugar de adversidade e miséria, com acampamentos para refugiados da guerra no lado sírio, que já dura uma década, e um muro de concreto bloqueando a entrada da Turquia para todos, exceto os mais determinados.

Ainda assim, em meio aos afloramentos rochosos de uma pequena área do lado turco, a vida anda abundante: uma espécie de gazela selvagem ameaçada de extinção está se recuperando e se multiplicando.

A gazela-da-montanha, um antílope delicado com rosto listrado e chifres em espiral, outrora percorreu o Oriente Médio e, como revelam os mosaicos romanos, também o sul da Turquia. Mas, no final do século passado, foi caçada quase até a extinção, restando apenas uma população cada vez menor de 2.500 animais em Israel, de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza.

Na Turquia, a gazela foi esquecida e se pensou que nem existia mais. Os únicos animais registrados oficialmente eram uma subespécie, conhecida como gazela-persa, na província de Sanliurfa, no sudeste do país.

A redescoberta e a sobrevivência da gazela-da-montanha na Turquia se deram, em grande parte, graças a um homem e a seu amor pela natureza.

Yasar Ergun, um professor de aldeia que se tornou veterinário e professor da Universidade Hatay Mustafa Kemal, na cidade de Antakya, em meados da década de 1990 ouviu de um velho caçador que havia gazelas selvagens nas montanhas ao longo da fronteira com a Síria.

Entusiasta das longas caminhadas, ele começou procurá-las. A apenas 40 quilômetros de Antakya – a antiga cidade de Antioquia – os aldeões curdos sabiam delas e pastores às vezes chegavam a vê-las. As gazelas vivem nas encostas rochosas, onde suas manchas e colorações as deixam quase invisíveis. Mas descem em grupos para pastar e encontrar água nas terras agrícolas da região.

O professor avistou sua primeira em 1998 e, depois de uma década de observações, estimou que havia cerca de cem vivendo na área.

Com uma pequena bolsa para um projeto de ensino, ele comprou uma câmera e uma lente teleobjetiva, o que o levou a um contato próximo e a uma descoberta revolucionária. “Era época de acasalamento”, lembrou ele. “Desci para a estrada, e o macho correu em minha direção para defender suas fêmeas. Uma coisa muito rara”.

Ao examinar as fotos, ele percebeu que as gazelas eram diferentes das do sudeste da Turquia. “Eram castanhas, com algumas partes brancas e os chifres eram completamente diferentes”, disse ele.

Ele tinha certeza de que estava diante da gazela-da-montanha, mas encontrou pouco interesse em suas alegações nos círculos acadêmicos. “Eu mandava as fotos – e os professores só davam risada”, disse ele.

Ele contou com a ajuda do biólogo Tolga Kankilic, que coletou amostras de estrume, pelos e peles de restos de gazelas mortas para testes genéticos e descobriu que o DNA era compatível com o de gazelas-da-montanha.

A descoberta deu a Ergun uma tarefa muito mais importante: ajudar as gazelas a sobreviver. Havia várias ameaças – falta de água e habitat, sobretudo – mas, de longe, o maior perigo era a caça ilegal. A caça é permitida apenas sob licença em determinadas áreas da Turquia, mas a caça ilegal é abundante.

As gazelas desapareceram completamente de outras regiões, inclusive de Adana, mais a oeste, onde soldados americanos da Base Aérea de Incirlik costumavam caçá-las vinte anos atrás, disse ele. “O fim de uma fonte genética é o mesmo que o colapso da Terra”, disse ele. “A natureza precisa da biodiversidade”.

Ele ganhou uma bolsa da World Wildlife Fund na Turquia para um projeto com os moradores locais e comprou equipamento de montanha e walkie-talkies amadores para vários pastores, que começaram a monitorar as gazelas. Eles cavaram bacias na rocha para coletar água para as gazelas, embora os animais tenham demorado meses para confiar na fonte de água.

Com seu conhecimento da vida na aldeia, Ergun começou aos poucos, ganhando o apoio dos pastores locais, educando crianças para proteger as gazelas e até encorajando uma lenda curda de que um homem santo vivia com as gazelas e as ordenhava.

Com os caçadores, Ergun e seus ajudantes adotaram uma abordagem tradicional de cortesia e respeito, bebendo chá com eles, mas nunca mencionando sua caça.

“Nunca tentamos usar a força para detê-los”, disse ele. “Só dizíamos: ‘Olá, somos do Projeto Natureza’. Às vezes, o silêncio é mais poderoso do que a fala”.

Os habitantes locais eram curdos, povo montanhês que tem sua própria língua e cultura – e uma história de resistência ao Estado turco. “Se você fizer um inimigo, apenas um, em dez anos terá dez inimigos e, em cem anos, terá mil”, disse Ergun. Mas quando os pastores começaram a monitorar as gazelas, os caçadores entenderam a mensagem.

Ergun também precisava da cooperação do exército turco, que tem uma base na área. As gazelas ocupam uma estreita faixa de território ao longo da fronteira, com poucos quilômetros de largura e menos de trinta de comprimento, que é principalmente uma zona militar restrita.

No entanto, as restrições militares e a eclosão da guerra na fronteira com a Síria há dez anos ajudaram as gazelas de maneiras inesperadas. A Turquia construiu um muro de cimento ao longo da fronteira e desmontou uma velha cerca de proteção, o que abriu mais território para as gazelas e as protegeu de se perderem na Síria, onde a caça continua sendo uma ameaça.

O projeto cresceu, garantindo o apoio do governo para um centro de reprodução e santuário para gazelas órfãs e feridas. As gazelas começaram a prosperar, passando de cerca de 235 em 2012 para mais de 1.100 no ano passado, de acordo com uma contagem oficial de agências governamentais turcas.

Em 2019, o presidente Recep Tayyip Erdogan estabeleceu uma área protegida de 130 quilômetros quadrados para as gazelas, e os planos para uma fábrica de cimento e pedreiras na área foram cancelados.

Nem todos os moradores estão convencidos da importância de proteger as gazelas. “Na verdade, é um tormento”, disse Nuray Yildirim enquanto assava pão achatado num forno ao ar livre na vila de Incirli. “Elas são muitas, comem grão-de-bico e trigo”.

Mas outros descreveram as gazelas como uma bênção, como algo sagrado. “Elas vivem aqui desde a época de nossos ancestrais”, disse Mehmet Hanafi Cayir, lavrador. “A riqueza que elas trazem chegará à nossa porta”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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