Stephanie Keith The New York Times
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Geladeiras 'solidárias' em NY oferecem comida de graça para quem precisa

Para muitos, refeições saudáveis ​​são difíceis de encontrar hoje em dia. Agora, ativistas estão enchendo geladeiras de comida para quem precisa

Amanda Rosa e Stephanie Keith, The New York Times - Life/Style

10 de agosto de 2020 | 05h00

NOVA YORK – Em uma calçada do Bronx, na esquina da Rua 242 com a Broadway há uma geladeira solitária. Não é lixo. Decorada com cores brilhantes: amarelo, purpura, laranja e azul, a geladeira tem o aviso em letras gorduchas “Comida de graça” pintado de atravessado, com a tradução em espanhol: “Comida Gratis”, em um dos lados.

Selma Raven cumpriu a promessa. Ela não fala palavras de estímulo aos que visitam a geladeira. Às vezes conversa enquanto desinfeta o aparelho, que está ligado a uma tomada no interior de um restaurante, e a enche de produtos frescos e comida pronta. “Nós não precisamos saber a história de ninguém”, disse Selma. “Só confiamos nas pessoas”. As geladeiras que oferecem comida gratuita da comunidade, às vezes chamadas “geladeiras amigas”, começaram a aparecer nas calçadas da cidade em fevereiro.

Quando a pandemia do coronavírus e a ordem de permanecer em casa parou a economia de Nova York, muitos moradores – alguns repentinamente sem emprego, e outros doentes com o vírus – lutaram para encher as suas geladeiras. O Bronx, onde Selma mora, sofreu com as taxas mais elevadas da cidade de casos do vírus, hospitalizações e mortes.

Nos refrigeradores da comunidade, qualquer um é bem-vindo para levar o que quiser e deixar a comida de que não precisar, como produtos excedentes. Muitos voluntários que limpam e repõem diariamente os estoques das geladeiras pedem aos restaurantes e às lojas locais a doação de alimentos que não foram usados ou não foram vendidos em lugar de jogá-los fora. Os objetivos são simples: reduzir o desperdício de comida e alimentar a comunidade.

Muito antes da pandemia, a insegurança da comida e o desperdício eram uma praga para os nova-iorquinos e o meio ambiente.  Na cidade, cerca de 2 milhões de pessoas, ou um em cada quatro habitantes, não têm o alimento assegurado. O país desperdiça cerca de 30% do abastecimento de comida, segundo o Departamento da Agricultura dos EUA.

Selma decidiu colocar o refrigerador amigo no bairro de Fieldston, no Bronx, no dia 18 de maio, em geral um dia triste para ela. Anos atrás, neste dia, seu filho Michael, que tinha paixão pelo cultivo da terra e se preocupava em dar de comer a quem tinha fome, se suicidou, aos 21 anos.

Sua companheira, Sara Allen, viu uma geladeira da comunidade no Instagram  e disse que era “uma coisa de que Michael teria gostado muito”. Mães, empregadas, cuidadoras e desempregados param diante da geladeira para pegar a comida, disse Selma. No começo, alguns moradores se mostraram céticos; até as crianças disseram para ela que a coisa não iria funcionar. Agora, são seus aliados.

“Ninguém deveria passar fome” disse Selma, citando as palavras do filho. Os voluntários que cuidam dos inúmeros refrigeradores de comida nas calçadas de Nova York, comunicam entre si pelo aplicativo Signal em código, para coordenar a distribuição de alimentos de organizações como a Universe City, uma fazenda aquapônica e um espaço de trabalho em Brownsville, Brooklyn.

A Universe City mantém uma geladeira gratuita na frente do seu edifício cheia de pepinos, salsão e maçãs, disse o seu diretor executivo, Franklyn Mena. Sem acesso a opções de comida saudáveis, ele explicou, as pessoas não-brancas em locais de renda mais baixa, como Brownsville, correm um grave risco de contrair doenças, como diabetes.

“Quanto mais nós, enquanto comunidade, controlarmos a maneira como produzimos o alimento, como processamos o alimento, e como distribuímos o alimento, maior será a chance de encontrarmos soluções de bem-estar para o nosso povo”, afirmou Thadeaus Umpster, organizador do grupo In Our hearts, disse que as pessoas estão dando geladeiras pelo Instagram.

Em fevereiro, Umpster instalou o primeiro refrigerador do grupo em Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn. Ele o pegara na Craiglist de graça, planejando colocá-lo na lavanderia do seu edifício para armazenar alimentos gratuitos destinados a eventos nos fins de semana. Mas não passou pela porta da frente.

Então o deixou do lado de fora e usou uma extensão para ligá-lo a uma tomada no prédio. E o encheu de produtos. No final do dia, estava meio vazio. “A necessidade é maior do que eu imaginava”, comentou Umpster. MelPaola Murillo, de 32 anos, disse que a geladeira tem ajudado a aliviar o estresse de ter de alimentar a ela mesma e ao filho de 15 meses, Jonah Santiago. Murillo é um imigrante de Honduras que buscou asilo nos EUA.

Ela não consegue emprego porque está aguardando a licença para trabalhar, contou, e consegue comida do Programa Especial de Nutrição Suplementar para Mulheres, Bebês e Crianças, mais conhecido como WIC. Mas “não é suficiente”. Quando a pandemia se agravou em março e abril, outras pessoas pediram para participar; parecia que quanto mais geladeiras os nova-iorquinos viam nas redes sociais, como o Instagram, mais delas apareciam.

Nas últimas semanas, Umpster distribuiu alimentos para outras geladeiras e  atendeu a pedidos de informações de pessoas do mundo todo interessadas em lançar projetos semelhantes. ”Tentamos manter um tipo de relacionamento diferente com as pessoas, um relacionamento entre iguais e não a mão estendida de uma autoridade ou de uma pessoa privilegiada”, disse Umpster.

Geladeiras públicas existem no mundo todo. A Fridge.com, banco de dados e rede de refrigeradores com comida gratuita, tem listas de geladeiras, inclusive uma na Universidade de Nova York. A Playground Coffee Shop lançou um projeto separado de três refrigeradores no Brooklyn no início de junho.

Chez Jean, do Bronx, recentemente colocou uma geladeira no bairro de Fordham Manor. Quando Jean, a fundadora da Sovereign Earth Care, pediu a cerca de 20 lojas locais e supermercados a permissão para ligar um refrigerador, todos, menos uma adega, na esquina de West Kingsbridge e Jerome Avenue, recusaram. O objetivo de Jean é instalar um refrigerador em “todo espaço possível do Bronx”. “Há uma enorme necessidade em toda parte, não é?”, disse Jean. “Eu acredito que as pessoas não deveriam ter de pagar pela comida”.

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