Aurel Schwerzmann
Aurel Schwerzmann

Gelo dos Alpes Suíços narra a história da agricultura e da industrialização na Europa

Dez mil anos de história registrados com fuligem, pólen e esporos

Hannah Hoag, The New York Times

29 Setembro 2018 | 11h00

Enquanto a peste varria a Europa em meados do século 14, acabando com mais de um terço da população da região, uma geleira nos Alpes registrava o caos que agitava a sociedade medieval.

Com dezenas de milhões de pessoas morrendo, o pólen das plantas, árvores e plantações cultivadas na Europa Ocidental era carregado pelos ventos e levado na direção dos Alpes.

Essas partículas ficaram presas em flocos de neve que caíram na montanha mais alta da região o maciço de Monte Rosa. Com o tempo, a neve foi comprimida em camadas e mais camadas de gelo, armazenando um registro da mudança ambiental.

Séculos mais tarde, o pólen das colheitas aprisionado no gelo revela o colapso da agricultura ligado à pandemia, quando o clima ruim levou a colheitas insuficientes e os campos ficaram sem cultivar porque não havia quem trabalhasse neles.

A geleira Colle Gnifetti, perto da fronteira entre Itália e Suíça, localizada bem no centro do continente, reuniu as partículas leves da Europa por cerca de 10 mil anos.

Sandra Brügger, cientista climática do Instituto de Ciências Vegetais e do Centro Oeschger para Pesquisa da Mudança Climática da Universidade de Berna, desenvolveu uma técnica para estudar o pólen, os esporos de fungos, partículas de carbono e fuligem aprisionados num núcleo de gelo extraído dessa geleira suíça que alcança a elevação de 4.500 metros em alguns pontos. Ela tenta estabelecer como o clima extremo, a inovação, as más colheitas e a poluição moldaram a Europa desde 1050.

A Europa sofreu uma série de calamidades no século 14. Antes da Peste Negra, houve a Grande Fome Europeia. Relatos históricos falam das chuvas implacáveis que acabaram com duas colheitas consecutivas em partes da Europa de 1315 a 1317, o que pode ter facilitado a disseminação da doença.

Sandra rastreou a presença do pólen de cereais e do cânhamo ao longo do tempo, registrando os períodos de alta e queda. No início do século 14, esses níveis de pólen das colheitas teve queda acentuada. “As pessoas morriam de fome e não havia mais muita atividade agrícola", disse ela.

A Peste Negra afetou ainda mais a Europa de 1347 a 1351, matando 75 milhões de pessoas, e o pólen desapareceu com a paralisação da agricultura. “Não se observa nada num período de cinco a 10 anos", disse ela. Então, com a recuperação dos vilarejos, os níveis de pólen se recuperam.

O pólen de gramíneas era abundante nos segmentos correspondentes aos anos de 1100 a 1200. Durante o Período Quente Medieval, as temperaturas na Europa e nas proximidades do Atlântico Norte eram tão quentes quanto agora, ou ainda mais, e as colheitas e florestas prosperaram. A alta no pólen de gramíneas corresponde à expansão das paisagens abertas, uma transição das florestas para os pastos.

O registro se torna mais complexo em 1750, que marca a expansão da economia europeia e o início da Revolução Industrial.

Registros históricos nos dizem que Colombo trouxe o milho para a Europa em 1493, mas o pólen do milho só é encontrado no núcleo de gelo a partir de meados do século 18, indicando que sua produção regional em larga escala só decolou mais tarde. Foi também mais ou menos nessa época que a sociedade europeia começou a se tornar mais industrial e urbana. No núcleo de gelo, isso é indicado pelos primeiros traços de pequenas partículas esféricas de carbono, evidência de uma transição da queima da madeira para a do carvão na Europa Central.

Ainda que os cronistas da época tenham registrado esses eventos históricos, os registros manuais podem ser imperfeitos e limitados no seu alcance geográfico. Para Alexander More, historiador e cientista climático da Universidade Harvard, a soma dos registros históricos com os dados contidos no gelo “proporciona um grau de precisão que não se obtém de nenhum desses registros avulsos".

Muitos cientistas, incluindo Margit Schwikowski, química atmosférica do Instituto Paul Scherrer e do 

Centro Oeschger, que comanda o estudo do núcleo de gelo, estão preocupados com o destino dessas geleiras com a mudança climática. Colle Gnifetti foi poupada até o momento, por causa da altitude elevada.

“Está se tornando cada vez mais difícil encontrar geleiras que não estejam derretendo e ainda possam ser usadas para pesquisas", disse a Dra. Schwikowski. “O objeto da nossa pesquisa está derretendo.”

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