National Academy of Sciences/via The New York Times
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Gelo proporciona um olhar sobre a economia da Antiguidade

Pesquisadores descobriram a prosperidade dos romanos gravada no gelo da Groenlândia

Nicholas Wade, The New York Times

02 Junho 2018 | 11h00

Uma história econômica ano a ano do Império Romano pode parecer impossível de reconstituir, tal como os 107 livros de Tito Lívio sobre a história de Roma que se perderam. Entretanto, alguma coisa semelhante a este registro foi recuperada recentemente em um lugar improvável: uma geleira no centro da Groenlândia.

O registro estava escrito não em latim, mas em chumbo. As emissões do chumbo geradas pelas minas que operavam no norte da Europa chegaram à Groenlândia pelo ar e precipitaram com a neve. A neve se acumulou e se transformou em gelo, preservando um registro que se estende por vários milhares de anos no passado.

Os núcleos de gelo da Groenlândia há muito são utilizados para entender a mudança climática, que está gravada nos isótopos de oxigênio da água congelada. O projeto de medição das antigas emissões de chumbo foi iniciado por Andrew I. Wilson, um arqueólogo da Universidade de Oxford, e empreendido por Joseph R. McConnell, especialista na análise destes núcleos, do Instituto de Pesquisa do Deserto em Reno, Nevada.

O núcleo gravou 40 mil anos de nevascas, e o laboratório de McConnell estudou uma seção de aproximadamente 425 metros de sua porção superior, que corresponde aos anos 1235 a.C. a 1257 d.C.

As datas destes anos de gelo foram verificadas sincronizando-as com outras cronologias, como as derivadas de três anéis e de erupções vulcânicas.

Os resultados mostram uma linha flutuante que corresponde a eventos importantes da história romana. As emissões de chumbo aumentaram em períodos de paz e prosperidade, como a Pax Romana, que se estendeu de 27 a.C. a 180 d.C., e caíram durante as guerras civis que antecederam a Pax e a subida ao poder do imperador Augusto. Houve também quedas drásticas que coincidiram com a peste de Antonino, de 165-180 d.C., supostamente varíola, e a peste de Cipriano, de causa incerta, de 250-270 d.C.

O chumbo era amplamente usado na economia romana para a produção de tubulações de água e para revestir os cascos das embarcações. Sua produção serviu também para substituir uma atividade econômica fundamental, o uso da prata nas moedas romanas comuns, o denarius. A prata se encontra no minério de chumbo, e o processo de separação da prata do chumbo a altas temperaturas explica a significativa quantidade de chumbo transportado pelo ar. No início do império romano, o denarius era feito 100% de prata. Mas sob o imperador Nero, a partir de 64 d.C., a proporção de prata foi reduzida a 80%, e o Estado lucrou claramente ao reciclar os denarii de prata e transformá-los em moedas desvalorizadas.

Estas mudanças coincidiram e talvez tenham sido causadas por uma queda na produção de prata, e é a redução nas emissões de chumbo, de pouco depois de 60 d.C., que está gravada nos núcleos de gelo da Groenlândia. Sob o imperador Trajano, houve um curto retorno, de 103 a 107 d.C., à produção de moedas de prata, e este evento histórico também está refletido em um breve pico da poluição de chumbo que termina em 107 d.C.

As emissões de chumbo, refletidas nos núcleos de gelo, caíram a um patamar baixo absoluto durante a Crise Imperial, de 235 a 285 d.C., quando o império quase entrou em colapso em uma época de grandes discórdias internas, invasões bárbaras e a peste de Cipriano. A economia entrou em um período final de declínio devido ao colapso do Império Romano de Ocidente, em 476 d.C.

“Eu não diria que a marca da poluição do chumbo está estreitamente relacionada ao PIB, mas representa provavelmente o melhor quadro da saúde econômica de que dispomos”, disse Wilson.

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