Minzayar Oo para for The New York Times
Minzayar Oo para for The New York Times

Acusado de 'limpeza étnica', general de Mianmar homenageia a si mesmo em memorial

Museu colossal mostra mentalidade de uma força obcecada com sua reputação

Paul Mozur, The New York Times

09 de dezembro de 2018 | 06h00

NAYPYIDAW, MIANMAR - Durante anos, o general sênior Min Aung Hlaing, uma das pessoas mais poderosas de Mianmar, comandou implacáveis campanhas que tiveram como alvo grupos minoritários. Sob a supervisão dele, o exército expulsou mais de 700 mil membros da etnia Rohingya do oeste do país.

Uma parte importante dessa campanha foi travada no Facebook, e o general, acompanhado de outros líderes militares, usou centrais de contas falsas e abusivas para cultivar o apoio a operações que as Nações Unidas descreveram como “limpeza étnica".

O Facebook fechou as contas dele em agosto. Mas, no colossal museu construído pelo exército de Mianmar como auto-homenagem, o rosto do general está por toda parte. O retrato dele decora o imenso hall de entrada. Numa exposição contando a história marcial de Mianmar, a foto dele fica no alto de uma pirâmide de 32 retratos de líderes militares. Em outras salas, sua imagem está sozinha.

“Me parece que o exército quis construir esse grandioso museu para se exibir como guardião do país", disse U Ye Myo Hein, do Instituto de Estudos Políticos Tagaung, da maior cidade do país, Yangon. “Mas é também um indício da sua megalomania.”

O museu fica na capital, Naypyidaw, também ela uma demonstração do poder do exército. Construída no início da década de 2000, quando a junta militar exercia plenos poderes, a cidade foi erguida em meio às moitas de um vale entre duas cordilheiras no centro do país. Em 2005, o exército anunciou que a cidade artificial se tornaria a nova capital, embora ainda fosse um canteiro de obras. Obedientes, os burocratas fizeram as malas e se mudaram para uma cidade inacabada, que carecia de serviços elementares. 

Passados quinze anos, Naypyidaw é um lembrete do quanto o exército conserva o verdadeiro poder num país que aparenta agora ser democrático.

O Museu das Forças de Defesa, construído numa área de 590 acres, tem extensão calculada em 50 mil metros quadrados. “Há museus militares em outros países, mas, em comparação, o de Naypyidaw é gigantesco", disse Ye Myo Hein.

Uma dúzia de salas de exibição do tamanho de campos de futebol mostram bombas, minas terrestres, metralhadoras, morteiros, aviões de guerra e peças de artilharia. Fotos de líderes militares trocando continências são vistas por toda parte. Elaborados dioramas retratam versões otimistas das capacidades do exército. Uma demonstração conta com uma pequena maquete de um porta-aviões. A marinha de Mianmar não tem nenhum navio desse tipo.

Mas, além dos grupos de soldados, há poucos visitantes admirando esses artefatos. Numa visita recente, o número de funcionários do museu era claramente maior que o de civis que caminhavam pelas salas. Um atendente disse que o museu costuma receber poucos visitantes por dia, com o ocasional grupo escolar. 

Nove analistas políticos birmaneses com quem fizemos contato disseram não poder comentar a respeito do museu - pois nenhum deles tinha posto os pés lá. Durante décadas, o exército usou jornais, emissoras de rádio e televisão para difundir sua propaganda. 

Na ala dedicada à guerra psicológica, um modelo de estúdio de TV evocava tais esforços. O exército de Mianmar logo reconheceu o potencial do Facebook enquanto maneira conveniente de conectar as pessoas, fazendo da plataforma uma ferramenta importante numa guerra de informação que continua em andamento, mesmo que o principal general do país tenha sido banido do site.

“O Facebook é ótimo para a propaganda", disse o pesquisador U Myat Thu, que trabalha no combate ao discurso de ódio na rede social.

E embora o museu tenha dificuldade em atrair visitantes, o exército descobriu como atrair multidões para um local muito mais acessível: a internet.

“Ninguém assiste ao canal do exército nem lê o jornal militar", disse Myat Thu. “Mas todos usam as redes sociais. E, nesse espaço, o exército tem um grande público.”

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