Camila Falquez para The New York Times
Camila Falquez para The New York Times

Apresentação de dançarinos de flamenco inova cena cultural espanhola

“Meus dançarinos e eu dançamos nós próprios”, disse Manuel Liñan, criador e estrela do show Viva!

Marina Harss, The New York Times

26 de março de 2020 | 06h00

Um dançarino num vestido longo vermelho surge sozinho no escuro, diante do público. Uma voz aguda se faz ouvir e os braços do dançarino começam a se movimentar ligeiramente, como se despertados pelo som melancólico. “Eres uma rosa”, canta o intérprete que o acompanha.

O corpo do dançarino se mexe levemente, como se reunindo energia, antes de fazer uma reviravolta com um movimento rápido. O que o público vê é algo esperado e inesperado: um dançarino de flamenco penteado e vestido no estilo tradicional. Olhar ardente, fixo. Mas trata-se de um homem, Manuel Liñan, criador e estrela do show Viva!.

Como o flamenco é uma música e uma dança que data de séculos e que nasceu do choque de culturas no sul da Espanha, o que se vê é algo surpreendente e inovador: uma representação travestida, de Liñan e seis dançarinos, usando vestidos coloridos e os xales, conhecidos como “mantones”, cabelos presos decorados com pentes e flores. Enquanto um dança, os outros acompanham com canções, exortações e palmas, marcando o ritmo com as mãos.

O show é algo novo para o público de flamenco tradicional: uma exposição clara e alegre da identidade queer. Para Liñan, que é gay, dançar se tornou uma maneira de expressar quem ele é. “Meus dançarinos e eu dançamos nós próprios”, disse ele. O espetáculo Viva!  tem sido aceito amplamente pelo público e pelos críticos desde a sua estréia em 2019 em Madri. Roger Salas, do jornal El País, descreveu o show como “uma das melhores coisas que surgiram neste momento crucial no flamenco e na dança espanhola”.

Os dançarinos de Manuel Liñan dançam alegrias, tarantos e vulerías, danças tradicionais repletas de sapateado rítmico, braços que se curvam, tapas nas coxas, estalar de dedos e movimentos rápidos do corpo; e também danças da escola mais acadêmica, com seus erráticos passos de balé.

Ainda menino em Granada, Liñan ansiava por usar as roupas coloridas das mulheres que eram seus ídolos, as dançarinas e artistas de cinema glamorosas. “Eu me escondia num quarto em minha casa e colocava saias e me maquiava”, disse ele. Em suas aulas de dança os professores lhe ensinavam a dançar “como um homem”. Os homens são treinados para movimentar menos as mãos e quadril e manter o corpo mais rígido; as mulheres a usar movimentos mais curvilíneos, decorativos, dos braços e torso.

Liñan disse que se sentia limitado por essas regras. “Meu corpo não conseguia frear esses impulsos e logo comecei a mexer com as mãos como eu queria, e também meu quadril”. Roccio Molina, uma artista que também vem ampliando os limites do que pode ser mostrado como flamenco, lembra de ter sido ensinada daquela maneira. No palco, ela diz como acha antinatural mover os quadris de um lado para outro, como é ensinado para as mulheres, e que prefere mover sua pélvis para frente e para trás, como um homem. “Danço com a mesma força, ou mais, de um homem”, disse ela.

O artista de flamenco e estudioso Fernando López Rodriguez, rastreou a existência dos travestis intérpretes de flamenco num livro chamado Historia Queer Del Flamenco. Em um e-mail de Madrid, ele disse que o flamenco sempre teve um componente queer. No início do século 20 havia cafés e salas de música onde artistas travestidos se misturavam com intérpretes de flamenco tradicionais. Mas durante a ditadura de Francisco Franco, os drags se ocultaram, até a década de 1960, quando começaram a retornar.

A Espanha mudou. Quinze anos se passaram desde que o país se tornou um dos primeiros no mundo a legalizar o casamento gay. O show de Liñan é um produto dessa mudança cultural. Mas ele diz que, do mesmo modo que seus dançarinos, está também sujeito a insultos homofóbicos, no exercício da profissão e online. “Naturalmente é doloroso, mas este é o mundo em que vivemos”, disse ele.

Mas sem dúvida o show Viva! é uma celebração da arte do flamenco e sua capacidade de conexão com um enorme público. Quando o show foi exibido no Festival de Jerez de La Frontera no mês passado, um crítico elogiou, afirmando que é uma das melhores coisas a ser vista nesse festival em seus 24 anos de história. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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