Bence Viola
Bence Viola

Genes neanderthais sugerem migração humana da África muito antes do previsto

Os humanos modernos podem ter deixado o continente há 200 mil anos, uma nova análise sugere

Carl Zimmer, The New York Times

17 de fevereiro de 2020 | 06h00

Hoje em dia, as pessoas se emocionam quando ficam sabendo que o seu DNA está mesclado com genes de Neanderthal. Estes genes foram descobertos em 2010, em um estudo sobre DNA realizado com fósseis de neanderthais, que mostrou que os seres humanos modernos cruzaram com os neanderthais há 60 mil anos, depois de deixarem a África. Consequentemente, os genes de não africanos hoje são 1% a 2% neanderthais. 

Acreditava-se que as pessoas com ancestrais africanos tivessem poucos genes neanderthais ou mesmo nenhum. Mas um novo estudo concluiu que uma onda de humanos modernos deixou a África muito antes do que se conhecia: há cerca de 200 mil anos. O estudo sugere que houve um processo de miscigenação destas pessoas com neandertais. Como resultado, os neanderthais já carregavam os genes dos humanos modernos quando se deu outra grande migração da África, há cerca de 140 mil anos.

Os cientistas descobriram também evidências de que pessoas que viviam na Eurásia ocidental voltaram para a África onde houve nova miscigenação. Todos os africanos possuem uma quantidade maior de DNA de neanderthal do que se calculava anteriormente, diz o estudo.

Mas David Reich, um geneticista de Harvard, duvida de um fluxo tão grande de DNA de volta à África. “Parece que um sinal muito fraco”, disse falando dos dados. Os ancestrais dos seres humanos e dos neanderthais viveram há cerca de 600 mil anos na África. Os neanderthais deixaram o continente; a idade dos fósseis varia de 200 mil a 40 mil anos, e são encontrados na Europa, Oriente Médio e Sibéria.

Dez anos atrás, Reich e outros fizeram um esboço simples do genoma neanderthal. Quando os pesquisadores o compararam aos genomas de oito pessoas vivas, descobriram que o neanderthal se assemelhava mais às pessoas de ascendência asiática e europeia do que às de origem africana.

Aproximadamente há 60 mil anos, segundo afirmam os pesquisadores, os seres humanos modernos se espalharam a partir da África e cruzaram com neanderthais. Os descendentes híbridos transmitiram os seus genes às gerações posteriores, que se espalharam pelo globo.

A hipótese se sustentava bem enquanto os cientistas extraíam genomas mais completos de neanderthais de outros fósseis. Mas Joshua Akey, da Universidade Princeton, que realizou alguns destes estudos, não ficou satisfeito com os métodos utilizados na busca do DNA neanderthal em pessoas vivas. Ele e outros encontraram uma maneira de buscar segmentos mínimos de DNA que coincida em primos distantes. Eles identificaram os segmentos extraídos de um ancestral relativamente recente, um sinal de miscigenação.

O genoma humano é detalhado em unidades chamadas pares básicos, cerca de três bilhões de pares no total. Os cientistas constataram que os europeus em média tinham 51 milhões de pares básicos que combinavam com o DNA neanderthal, e os asiáticos do Extremo Oriente tinham 55 milhões.

Os africanos em média tinham 17 milhões de pares básicos, muito mais do que previam os modelos originais. “Provavelmente todos os seres humanos carregam o legado do fluxo de genes com os neandertais, ressaltando que a compartilhamos da mesma história”, concluíram os autores. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
NeanderthalÁfrica [continente]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.