Mark Mannucci/Room 608 Inc., via The New York Times
Mark Mannucci/Room 608 Inc., via The New York Times

Geneticista James D. Watson mantém opiniões polêmicas sobre raça

Em um novo documentário, Dr. Watson ecoa entrevista de 1962, quando afirmou que negros não são tão inteligentes quanto brancos

Amy Harmon, The New York Times

11 Janeiro 2019 | 06h00

Faz mais de uma década que James D. Watson, um dos fundadores da genética moderna, comentou que os negros seriam intrinsecamente menos inteligentes do que os brancos. Em 2007, Watson, que dividiu um prêmio Nobel em 1962 por descrever a estrutura de dupla hélice do DNA, disse a um jornalista britânico que estava "sempre pessimista em relação às perspectivas para a África" porque "todas as nossas políticas sociais partem do princípio segundo o qual eles seriam tão inteligentes quanto nós, ao passo que nossos testes indicam que isso não é verdadeiro". 

Os comentários do Dr. Watson ecoaram pelo mundo e ele foi obrigado a se aposentar do emprego de chanceler do Laboratório Cold Spring Harbor, perto de Nova York. Ele fez um pedido público de desculpas e, em entrevistas posteriores, deu a entender que estava fazendo uma provocação, ou não teria se dado conta de que os comentários seriam publicados.

Desde então, Watson, 90 anos, se manteve longe da vida pública. Em 2014, tornou-se o primeiro ganhador vivo do prêmio Nobel a vender sua medalha, citando o esgotamento de sua renda após ser declarado uma "não pessoa". Mas os comentários perduraram. Foram usados como pretexto para a defesa da supremacia branca, e os cientistas vilipendiam Watson quando o nome dele surge nas rede sociais.

Ainda assim, diante da oportunidade de redefinir um legado manchado, Watson optou por reafirmá-lo. Num novo documentário, American Masters: Decoding Watson, ele é indagado se suas opiniões a respeito da relação entre raça e inteligência mudaram.

"Não", disse Watson. "Nem um pouco. Adoraria que tivessem mudado, que houvesse novas evidências mostrando que o ambiente é mais importante que a natureza. Mas não vi qualquer evidência do tipo. E há uma diferença nos resultados de brancos e negros nos testes de QI. Eu diria que a diferença é genética".

Ele afirma que não lhe agrada a "diferença entre brancos e negros" e preferia que ela não existisse. "É uma lástima, assim como é lastimável a esquizofrenia", diz ele (seu filho foi diagnosticado como esquizofrênico na adolescência). "Se a diferença existe, temos de perguntar a nós mesmos, 'o que podemos fazer para melhorar essa situação?'".

Francis Collins, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde, uma agência do governo dos Estados Unidos, disse que a maioria dos especialistas em inteligência "considera as eventuais diferenças entre brancos e negros nos resultados de testes de QI como resultado principalmente de diferenças no ambiente, e não na genética". Ele disse desconhecer pesquisas críveis que pudessem servir como base para as afirmações de Watson.

Watson não pode mais responder, disseram seus parentes. Ele fez seus últimos comentários em junho, durante entrevistas com o produtor e diretor do filme, Mark Mannucci. Sofreu um acidente de carro em outubro e, desde então, está sob cuidados médicos.

Alguns cientistas disseram que os comentários recentes de Watson são notáveis menos por serem dele e mais por representarem equívocos que podem estar em ascensão, mesmo entre os cientistas, enquanto preconceitos raciais antigos colidem com poderosos avanços na genética que permitem aos pesquisadores explorar as bases genéticas do comportamento e da cognição.

O geneticista David Reich, da Universidade Harvard, argumentou que novas técnicas para o estudo do DNA mostram que algumas populações humanas foram separadas geograficamente por tanto tempo que seria plausível supor alguma diferença genética na sua cognição e comportamento. Mas, em seu livro recente, Who We Are and How We Got Here (Quem somos e como chegamos aqui), ele repudia a presunção de Watson segundo a qual tais diferenças "corresponderiam a antigos estereótipos populares", descrevendo-a como "um equívoco praticamente garantido".

No filme, Watson parece ter se tornado cada vez mais isolado. Ele diz ter saudade de Francis Crick, seu colaborador na corrida para decifrar a estrutura do DNA. A dupla foi capaz de solucionar a charada em 1953. As ferramentas da biologia molecular possibilitadas pela descoberta deles foram usadas para rastrear a pré-história da humanidade, desenvolver terapias capazes de salvar vidas e criar o Crispr, uma tecnologia de edição genética. Watson se tornou provavelmente o biólogo mais influente da segunda metade do século XX.

Mannucci foi atraído pelo tema ao observar certa semelhança com "a história do Rei Lear", disse ele - "um homem que estava no auge do poder e foi derrubado pelas próprias falhas de caráter".

O historiador da ciência Nathaniel Comfort, da Universidade Johns Hopkins, comenta no filme que as opiniões de Watson a respeito das raças são o resultado do filtro genético que ele aplica ao mundo: "Esse é o risco de se passar o tempo todo pensando em genes".

Mas a geneticista Mary-Claire King, da Universidade de Washington, que conhece bem Watson, disse que a cultura racialmente homogênea da ciência também desempenhou um papel no desenvolvimento dos preconceitos dele. 

"Se ele conhecesse negros americanos como colegas em todos os níveis, sua opinião atual seria impossível de sustentar", disse a pesquisadora.

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