Joseph Eid/AFP
Joseph Eid/AFP

Ghosn, foragido mas favorito, retorna a Beirute

Ex-presidente da Nissan anunciou que chegou à capital do Líbano após escapar de Tóquio, onde tem julgamento marcado para 2020 por acusações de irregularidades financeiras

Vivian Yee e Hwaida Saad, The New York Times

31 de dezembro de 2019 | 16h49

BEIRUTE - Durante várias semanas no inverno passado, o rosto de Carlos Ghosn parecia inevitável na capital libanesa: aparecia sem aviso nos outdoors digitais normalmente dedicados a propagandas de planos para celulares e carros de luxo. “Somos todos Carlos Ghosn”, anunciavam o texto, declarando apoio ao homem acusado no Japão de ser um titã corporativo que fez coisa errada.

Agora, o verdadeiro Carlos Ghosn se materializou em Beirute – o foragido de carne e osso de alguma maneira conseguiu voltar para casa.

Ghosn, ex-presidente da Nissan, anunciou abruptamente que está em Beirute, onde cresceu, depois de escapar de Tóquio, onde tem julgamento marcado para 2020 por acusações de irregularidades financeiras.

Quase nada se sabe sobre sua chegada ao país: como ele evitou a vigilância constante das autoridades japonesas? Como conseguiu passar pelo controle de passaportes em pelo menos dois países sem nenhum de seus três passaportes (brasileiro, francês e libanês)? Quem o ajudou? Será que fugiu dentro de uma caixa, como dizem alguns relatos não confirmados?

“É uma aventura da vida real”, disse Ricardo Karam, apresentador de televisão libanês que entrevistou Ghosn em seu programa e que, segundo boatos – falsos, disse Karam –, teria fornecido um lugar para o fugitivo ficar. “Parece coisa de filme”.

Com ou sem caixa, Ghosn encontrou no Líbano um esconderijo seguro. O país está atravessando uma crise financeira e política, e seu novo governo, que ainda não existe oficialmente, enfrenta persistentes protestos e um colapso econômico em câmera lenta. Mesmo que as coisas estivessem menos complicadas, o Líbano não tem tratado de extradição com o Japão: xeque-mate.

Além disso, os moradores de Beirute parecem satisfeitos por recebê-lo. Alguns deles, pelo menos.

“Estou surpreso e feliz. Toda a família é solidária a Carlos”, disse Sandra Nader, que disse ser parente de Ghosn.

“Estamos orgulhosos de suas realizações e do que ele fez no exterior”, disse Mireille Firzli, que fazia compras de Ano Novo na tarde de terça-feira. “Não é justo mandá-lo para a cadeia”.

Ghosn nasceu em uma família libanesa no Brasil, lar de uma grande comunidade da diáspora libanesa, e foi educado em Beirute e na França, lar de outra grande comunidade libanesa. Seu pai mudou a família do Rio de Janeiro para Beirute quando Ghosn tinha 6 anos.

Desde então, Ghosn viveu o sonho libanês. Se os libaneses não são, como diziam os outdoors, “todos Carlos Ghosn”, muitos querem ser.

Gerações de libaneses deixaram o país para fazer fortuna no exterior, fugindo da guerra civil, da instabilidade e de uma economia que oferece pouco aos jovens. Ghosn foi um exemplo desse caminho: escolas de prestígio em Paris, promoções dentro da Michelin na França e depois nos Estados Unidos, presidência de um império automotivo multicontinental – o qual abarcava Nissan, Mitsubishi e Renault. Tinha casas em Tóquio, no 16º arrondissement de Paris e no Rio, além de um jato particular para levá-lo a estes e outros lugares.

Mas, durante toda a sua ascensão global, Ghosn continuou orgulhosamente libanês e os libaneses continuaram orgulhosos dele. Suas duas primeiras esposas são libanesas. Ele se formou no bairro de classe média de sua infância, em Achrafieh, onde mantinha um imaculado casarão cor de rosa – que, segundo uma investigação interna da Nissan, uma subsidiária da empresa comprou por US $ 8,75 milhões e reformou por outros US $ 6 milhões, uma das várias propriedades que a subsidiária pagou para Ghosn usar em todo o mundo.

Na terça-feira, um segurança particular estava postado diante da mansão rosa, mas não havia sinal de Ghosn. Ele emitiu uma declaração por meio de uma porta-voz anunciando que “não seria mais refém do fraudulento sistema judicial japonês”.

E acrescentou: “Não fugi da justiça – escapei da injustiça e da perseguição política”.

Ao fugir do Japão para o Líbano, Ghosn trocou um país em que a rigidez do sistema judiciário é fiscalizada por um país em que o judiciário é notoriamente politizado e o Estado de Direito, notoriamente inconstante. Mas a mesma atmosfera de impunidade que pode ajudá-lo está sendo atacada por algumas pessoas que um dia o celebraram como um herói popular.

Os atuais protestos contra o governo – que começaram em meados de outubro e levaram às ruas ¼ da população de 4 milhões de libaneses – miraram as elites políticas, os banqueiros e empresários e a corrupção que, segundo dizem, enriquece todos eles.

Cantando “Devolvam o dinheiro roubado”, os manifestantes exigiram um novo sistema político, novos líderes, um sistema bancário supervisionado e um judiciário independente, que, esperam eles, possa julgar políticos e empresários corruptos.

Neste momento, a grande fuga de Ghosn, com sua audácia de fora-da-lei, pode soar estranha em meio ao clima nacional.

Mohamed Abdullah, pescador em Beirute, tinha preocupações mais urgentes do que o destino de um homem inimaginavelmente mais rico que ele: ninguém estava comprando peixe.

“Quem se importa? Com esta economia ruim, não dou a mínima para Ghosn”, disse ele ao ouvir as notícias.

“Como se este país precisasse de mais ladrões”, disse ele. “Estamos só pondo mais um bandido na lista”. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

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