Adam Dean/The New York Times
Adam Dean/The New York Times

Depois dos bares e das praias, gibões aguardam um novo lar na Tailândia

Os pequenos macacos outrora se espalhavam por toda a Ásia. Mas o crescente desmatamento e a caça impiedosa reduziram consideravelmente o número e o habitat deste animal acrobático

Richard C. Paddock, The New York Times – Life/Style

24 de janeiro de 2021 | 05h00

SANTUÁRIO DA VIDA SELVAGEM DE KHAO PHRA THAEO, TAILÂNDIA – O gibão de mão branca, uma fêmea, raptada quando recém-nascida por caçadores abusivos, foi resgatada de uma vida infeliz para divertir os visitantes embriagados de bares para turistas, depois passou oito anos em uma gaiola em um centro de reabilitação.

Agora, depois de sobreviver aos abusos e aos traumas vive na selva da ilha Phuket na Tailândia, onde foi vista recentemente pendurada em um galho de árvore a cerca de 16 metros do solo enquanto o seu companheiro, nascido na selva e seus dois filhotes, observavam cautelosos das árvores vizinhas.

A sua é uma rara história de sucesso. Chamada Cop, por causa do policial (do inglês "cop") que ajudou no seu resgate, ela faz parte de uma pequena colônia de gibões resgatados, reabilitados e soltos na maior floresta remanescente de Phuket, pelo Projeto de Reabilitação de Gibões, uma ONG que salva gibões na Tailândia.

“Atualmente, temos 35 na floresta de Phuket, incluindo os que nasceram na selva”, disse Thaphat Payakkapor, secretário-geral da Fundação para o Resgate de Animais Selvagens da Tailândia, diretor do projeto dos gibões. “Alguns deles têm netos agora”. Mas a reabilitação de um gibão resgatado e o seu treinamento para sobreviver na selva pode levar anos, e o esforço nem sempre é bem-sucedido.

Os gibões, os símios menores, antigamente se espalhavam por grande parte da Ásia. O desmatamento descontrolado e a caça impiedosa a este animal acrobático reduziu consideravelmente a sua população. Nos anos 1990 e início dos 2000, quando exibir animais silvestres fazia parte do cenário da vida noturna muitas vezes decadente da Tailândia, às vezes jovens gibões eram ensinados a fumar, beber álcool e comer alimentos dos humanos.

Um movimento público em seu favor levou à adoção de uma nova legislação. Alguns vendedores ilegais passaram a oferecer os gibões por fotografias nas praias ou nas ruas. A queda do turismo causada pela pandemia do coronavírus, nos últimos meses fez com que outros donos ilegais abandonassem os seus animais.

Desde o começo da pandemia, contou Thanaphat, ele resgatou três jovens gibões abandonados perto de áreas florestais ao norte de Phuket. Pelo menos dez centros de reabilitação de países do Sudeste Asiático agora empreendem o lento processo de socialização e soltura de gibões recuperados do comércio ilegal. Ao longo dos anos, eles soltaram cerca de 150 gibões na selva, afirmam funcionários e os centros.

“Nós preferimos ver um animal vivendo quatro anos na floresta a 40 em uma gaiola”, disse Edwin Wiek, fundador da Wildlife Friends Foundation Thailand, que dirige o maior centro de resgate da vida selvagem sem fins lucrativos do país, com 800 animais de 70 espécies. O centro da vida selvagem de Wiek na província de Phetchaburi soltou cerca de dez gibões no norte da Tailândia e solicitou a aprovação governamental para soltar mais 50 em uma área próxima do santuário.

Ele também construiu 14 ilhas em um lago onde vivem mais de 20 gibões em um ambiente natural, sem cercas. Como odeiam nadar, ficam em suas ilhas. O gibão é o único símio nativo da Ásia além do orangotango, e há mais de doze espécies, como o siamang, o maior deles.

Sua área vai do nordeste da Índia ao sul da China e se estende por grande parte do Sudeste Asiático. Thanaphat cresceu ao lado de animais porque sua mãe, que ocupava um cargo importante na Fundação para o Resgate de Animais Selvagens, tinha um verdadeiro zoológico em sua casa, em Bangkok.

Ele lembra que, quando criança, levava um tigre cego passear e brincava com dois filhotes de urso. Levou muitos anos de tentativas e erros, contou, antes que o projeto do gibão soltasse com sucesso alguns deles na selva de Phuket, onde nenhum deles vivera durante dezenas de anos. Também soltou 21 gibões em uma floresta no norte da Tailândia.

Os gibões podem viver até 35 anos na selva e até 60 no cativeiro. O maior sucesso para soltá-los consiste em ajudá-los a formar casais e libertá-los juntos. “Começamos o projeto em 1992 e levamos dez anos para reabilitar e soltar com sucesso a primeira família”, disse Thanaphat. “Não tínhamos ideia de como fazer isto”.

Mas o espaço é reduzido no centro de gibões e na selva de Phuket. O centro, uma instalação velha, acanhada, na floresta de Khao Phra Thaeo protegida pelo governo, tem gaiolas para cerca 30 gibões. A floresta de Phuket não tem uma extensão suficiente para sustentar mais de 40, número ao qual chegará em fevereiro com a soltura planejada de mais cinco do centro.

O retorno dos animais à vida selvagem tem um apelo romântico e melhora consideravelmente a vida de cada um dos que são soltos. Mas outros afirmam que, em muitos casos, proteger o habitat das espécies ameaçadas é muito mais eficiente em termos de custo-benefício.

“O dinheiro seria muito melhor gasto protegendo a floresta em lugar da reabilitação”, disse Tim Redford, coordenador dos guardas florestais da Freeland Foundation, uma ONG que apoia os guardas em sua luta contra a caça ilegal. Thanaphat defendeu a sua organização destacando que alguns gibões vivem permanentemente no centro, inclusive dois que são cegos e um sem membros que nunca se desenvolveu corretamente porque foi mantido em uma gaiola pequena quando filhote.

E, nem todos os gibões soltos gostam de viver na selva. Há ex-cativos que nunca se acostumam longe dos humanos. Um macho, Arun, foi solto há 15 anos e ainda prefere comer a fruta que serviam para ele no centro de reabilitação. Recentemente, ele deixou a companheira nascida na floresta e o filhote como faz em geral e foi para o centro.

Lá, ele foi para a gaiola de Santi, o gibão cego, e roubou a comida dele. Outro gibão, Bo, foi solto cerca de dez vezes. Mas toda vez ele regressa para o centro e para o conforto de sua gaiola. “Nós simplesmente abrimos a porta”, contou Thanaphat, “e ele entra”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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