Shiho Fukada para The New York Times
Shiho Fukada para The New York Times

Financiado por gigantes, grupo molda política de alimentos no mundo

Após décadas operando praticamente sem chamar atenção, ILSI está sob investigação por defensores da boa saúde

Andrew Jacobs, The New York Times

24 de setembro de 2019 | 06h00

Quando o governo da Índia se curvou a poderosas empresas do ramo alimentar no ano passado e postergou a decisão de colocar etiquetas de alerta em alimentos processados prejudiciais à saúde, as autoridades do país também buscaram aplacar críticos, por meio da criação de um painel de especialistas para revisar o sistema de rotulagem - medida que iria muito além do que outros países fizeram para combater taxas de obesidade em elevação.

Mas o homem escolhido para chefiar a comissão de três pessoas, Boindala Sesikeran, um nutricionista experiente e ex-conselheiro da Nestlé, enfureceu ainda mais os defensores da boa saúde. Isso porque Sesikeran é afiliado ao International Life Sciences Institute, uma ONG americana que tem se infiltrado em agências governamentais de saúde e nutrição em todo o mundo. Criado quatro décadas atrás por um alto executivo da Coca-Cola, o instituto agora tem sucursais em 17 países. É financiado quase completamente por gigantes do agronegócio e das indústrias alimentar e farmacêutica. 

A organização, que defendia os interesses da indústria do tabaco nas décadas de 1980 e 1990, na Europa e nos Estados Unidos, expandiu recentemente suas atividades para Ásia e América Latina, regiões que provêm lucros crescentes a fabricantes de alimentos. O instituto tem sido ativo especialmente na China, Índia e Brasil - respectivamente o primeiro, o segundo e o sexto países mais populosos do mundo.

Na China, o instituto compartilha pessoal e espaço de trabalho com a agência governamental responsável por combater doenças relacionadas à obesidade. No Brasil, representantes do ILSI têm assento em numerosos painéis de discussão a respeito de comida e nutrição destinados a pesquisadores de universidades.

Na Índia, o papel de Sesikeran na comissão de etiquetagem de alimentos tem levantado dúvidas a respeito da possibilidade de os agentes reguladores acabarem influenciados pelas empresas fabricantes de alimentos processados, para quem as etiquetas de alerta prejudicariam as vendas.

“Ter um grupo de lobby disfarçado decidindo políticas de saúde pública é errado, um flagrante conflito de interesses”, afirmou Amit Srivastava, do grupo de defesa de direitos Centro de Recursos da Índia. O ILSI nega as alegações de que trabalhe para o avanço dos interesses de seus membros corporativos. “Sob nenhuma circunstância o ILSI protege a indústria de ser afetada por políticas e leis desvantajosas”, afirmou o instituto em um comunicado.

Após décadas operando praticamente sem chamar atenção, o ILSI está sob investigação por defensores da boa saúde. Eles afirmam que o instituto não passa de uma entidade de fachada destinada a avançar os interesses de seus 400 membros corporativos - entre eles, Coca-Cola, DuPont, PepsiCo, General Mills e Danone - que lhe garantem seu orçamento de US$ 17 milhões.   

Ao longo dos anos, o ILSI tem cultivado aliados na academia e em governos, por meio das conferências que patrocina e também pelo recrutamento de cientistas influentes para integrar comissões que tratam de assuntos como segurança alimentar, agrotóxicos ou promoção de suplementos probióticos. “Também ajuda o fato de os cientistas sempre serem hospedados em hotéis cinco estrelas e levados para almoçar”, afirmou Shweta Khandelwal, da ONG indiana Fundação para a Saúde Pública. “Já nós não temos dinheiro para sair oferecendo almoços por aí.”

Desde 2015, Sesikeran tem atuado tanto no ILSI-Índia quanto na operação global da entidade. É palestrante frequente nos eventos do ILSI - onde discorre sobre os benefícios dos adoçantes artificiais e alimentos transgênicos. Os cargos no ILSI não são remunerados, mas a entidade custeia viagens com todas as despesas pagas aos colaboradores, para suas reuniões ao redor do mundo.

Rekha Sinha, diretora-executiva do ILSI-Índia, disse que as afirmações sugerindo que a organização promove os interesses da indústria são falsas. Nas duas décadas desde a sua fundação, disse ela, o ILSI-Índia financiou estudos a respeito das diabetes, ajudou a promover obrigatoriedade no fortalecimento com vitaminas de alimentos processados e aconselhou o governo a respeito de como a nutrição afeta portadores de HIV e pacientes com aids.

Na Índia, a influência em expansão do ILSI coincide com taxas em ascensão de obesidade, doenças cardiovasculares e, especialmente, diabetes - doença que afeta mais de 70 milhões de indianos. O governo respondeu com medidas corajosas, incluindo um imposto de 40% para os refrigerantes que levam açúcar em sua composição, introduzido em 2017. Outras iniciativas, porém, incluindo a proibição à venda de junk food dentro de escolas e no seu entorno, perderam ímpeto em meio à oposição de empresas de alimentos e bebidas.

“O poder dessa indústria é ainda maior que o da indústria do tabaco”, afirmou Sunita Narain, diretora do Centro para Ciência e Clima, de Nova Délhi. Quatro anos atrás, ela participou de um debate organizado pelo governo a respeito das etiquetas de alerta, cujo relatório foi prontamente arquivado. “Mas esses participantes agem de maneira tão escusa que não se atrevem a sentar na mesa de negociação representando a indústria alimentar, porque ninguém aceitaria a Coca-Cola ou a Pepsi na conversa.”

Em nota, a ILSI Brasil negou as afirmações descritas na matéria, alegando que "elas (as entidades) não podem propor, direta ou indiretamente, soluções de políticas públicas ou defender os interesses comerciais de suas empresas membros ou de outras partes ".

Confira a nota na íntegra:

Em nome dos cientistas que contribuem e referenciam o trabalho do International Life Sciences Institute (ILSI), fazemos uma exceção à descaracterização no artigo escrito por Andrew Jacobs, intitulado “A Shadowy Industry Group Shapes Food Policy Around the World”, e publicado no The New York Times.

O ILSI é uma federação global de entidades sem fins lucrativos cuja missão é fornecer ciência que melhore a saúde e o bem-estar humano e proteja o meio ambiente. O ILSI foi fundado em 1978, em Washington DC, e, nos últimos 40 anos, estabeleceu entidades em todo o mundo para promover parcerias científicas público-privadas e preencher lacunas de conhecimento em benefício do bem público. Todas as entidades do ILSI equilibram o envolvimento do setor privado em suas atividades com contribuições marjoritárias de acadêmicos voluntários e/ou cientistas do governo. Estes colaboram com uma ampla gama de especialistas de diferentes áreas e setores. Como resultado, o ILSI é capaz de conduzir pesquisas, sediar eventos, elaborar publicações científicas e criar oportunidades para de capacitação com um impacto de longo alcance em todo o mundo.

Conforme observado no artigo do Sr. Jacobs, as Políticas Obrigatórias do ILSI permitem que as entidades forneçam aos reguladores “informações relacionadas a questões factuais dentro da expertise científica do ILSI”. Entretanto, a mesma sentença nas políticas (omitida pelo Sr. Jacobs) afirma que “elas (as entidades) não podem propor, direta ou indiretamente, soluções de políticas públicas ou defender os interesses comerciais de suas empresas membros ou de outras partes ".

Em novembro de 2018, o ILSI evoluiu de uma organização, cuja associação consistia exclusivamente em empresas, para uma federação de Entidades ILSI: organizações sem fins lucrativos envolvidas em parcerias científicas público-privadas em todo o mundo. O ILSI, com o apoio seu Conselho Científico de Administração, composto pelo setor público-privado, com predominância de membros da academia, e dos Diretores Executivos das Entidades, continuará a elevar o nível de excelência através da conformidade com as Políticas e os Princípios Obrigatórios do ILSI para a Integridade Científica. Atender a esse padrão significa buscar objetividade, clareza e reprodutibilidade para garantir a utilidade de nossas atividades e avaliações científicas e acadêmicas.

O artigo de Jacobs insinua, erroneamente, que os cientistas que se envolveram em atividades com o ILSI depois agem como "representantes" do Instituto sempre que prestam outro serviço público não relacionado à Entidade, como painéis de consultoria científica. Esperamos plenamente que os cientistas que atuam nos conselhos de entidades do ILSI ou em outras posições voluntárias declarem essas posições em outros contextos, a fim de transparência. A implicação no artigo de que tais cientistas agem para ou em nome do ILSI ou dos financiadores do ILSI quando se envolvem em atividades profissionais não relacionadas ao Instituto é falsa.

O ILSI tem a sorte de contar com a colaboração de alguns dos especialistas mais prestigiados, peritos e mais éticos do mundo em ciências da vida. Aqueles que atuam nos conselhos de filiais ILSI o fazem como voluntários, e não recebem remuneração por seu trabalho conosco para promover a saúde pública. Todos devemos ser gratos por seus esforços em apoio ao interesse público, e o ILSI rejeita ataques infundados à sua integridade.​ / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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