Chris Maggio para The New York Times
Chris Maggio para The New York Times

Glitter: o que é, de onde vem e quem está por trás de sua produção?

Acredita-se que o glitter fabricado nos EUA foi criado em uma fazenda nos anos 1930

Caity Weaver, The New York Times

04 Janeiro 2019 | 06h00

Sempre, no mês de dezembro, ficamos extasiados com o verdadeiro prenúncio das festas de fim de ano: o tereftalato de polietileno metalizado com alumínio. Ele reluz. Brilha. É a purpurina (glitter). O que é purpurina? A resposta mais simples não nos satisfará. A purpurina é feita de glitter. O grande glitter gera o glitter menor. Mas quando você pede uma definição mais detalhada, descobre que o caminho para o esclarecimento está repleto de segredos industriais, lingotes de alumínio, níveis de ofuscação dignos da CIA, o espectro visível e Nova Jersey.

O Dicionário de Inglês Oxford preocupa-se principalmente em explicar que o glitter é um tipo de luz cintilante intangível. Até a invenção, no século 20, da substância moderna, era possível observar o brilho de alguma coisa (o brilho do vidro) ou segurar algo que brilhava (vidro moído). Acredita-se que o nosso (fabricado nos EUA) glitter aparentemente foi criado em uma fazenda de Nova Jersey, nos anos 30, quando um imigrante alemão inventou uma máquina para picar material descartável em pedacinhos minúsculos.

A maior parte do glitter que enfeita os produtos da marca nos Estados Unidos é fabricada em dois lugares, ambos em New Jersey. O primeiro, o suposto local da sua invenção, recusou-se a responder às perguntas. O segundo é a Glitterex, a empresa fundada em 1963. Babu Shetty, 69, entrou na companhia como diretor executivo em 1999, embora tivesse desenvolvido alguns dos seus produtos já na década de 70, quando deixou Mumbai para ir aos Estados Unidos onde conseguiu o título de doutor em ciência e engenharia dos polímeros.

Shetty disse que não me permitiria ver a produção do glitter, nem me permitiria ouvir enquanto o glitter estava sendo produzido, sequer entrar, em hipótese alguma, na mesma ala do edifício em que o glitter era fabricado, e nem revelaria a identidade dos clientes da Glitterex (entre os quais estão algumas das maiores multinacionais), e sugeriu que eu seria bem-vinda se me dirigisse à sede da Glitterex para saber mais a respeito do que não me poderia ser informado pessoalmente.

O chão do galpão de engarrafamento da Glitterex estava forrado com algo que parecia a luz da lua pulverizada. As prateleiras estavam lotadas de jarros imensos contendo amostras de glitter arranjados de acordo com sua formulação, cor, e tamanho: corações de esmeraldas, diamantes de estanho  e brilhos de cor neon. Meus guias foram Lauren Dyer, uma gerente da Glitterex, e Jeet Shetty, que trabalha com o pai. O produto que mais vende, disseram, é sempre o prateado.

Conheci Shetty pai em um salão de conferências onde ele me mostrou vários livros de texto sobre engenharia química na tentativa de me dizer o que é o glitter. “Este filme de poliéster”, começou, pegando uma tira de material transparente, “pode ser conhecido como mylar”. E acrescentou: “Se o cortar, terá um glitter transparente”. A maior parte do glitter é feita de plástico, embora algumas variedades derivem de outras fontes, como o alumínio.

Há algumas maneiras de obter um efeito de arco-íris em partículas individuais de glitter. O glitter holográfico é produzido incrustando uma amostra fina em um filme, para que a superfície reflita as cores da luz em diferentes direções. Um glitter iridescente mais sutil, que revela várias cores luminosas dependendo do ângulo do qual é observado, é feito com filme transparente em múltiplas camadas, composto de polímeros com diferentes índices de refração. “A matéria está ficando muito técnica”, advertiu Shetty. “O espectro visível e assim por diante”.

As cores do espectro visível, arranjadas em ordem, a começar pelos comprimentos de onda mais longos até os mais curtos, são vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e violeta. Como o vermelho tem o comprimento de onda mais longo, as camadas do filme iridescente vermelho são as mais espessas; e as camadas iridescentes do violeta são as mais finas. Shetty começou dobrando um filme transparente para trás. “Este é o vermelho”, disse, enquanto o vermelho brilhava. E continuou dobrando-o. “A certo ponto, ficará verde”, enquanto o filme brilhava de luz verde, depois azul, e então violeta. “O que acontece abaixo do violeta é UV, ele disse. “Você não enxerga”.

O brilho mais fino produzido pela Glitterex é de 50 a 75 microns (um micron corresponde a um milésimo de milímetro). A encomenda mínima que a companhia pode atender é suficiente para  fornecer brilho a “meio milhão de vidros” de esmalte de unhas segundo a estimativa de Shetty (4,5 quilogramas). Os preços variam, mas o saco plástico mais caro de 4,5 quilogramas de glitter custa cerca de mil dólares. A companhia oferece mais de 10 mil variedades.

Nada disso explicou o por quê do sigilo. Será que a Glitterex teme que os leitores possam construir suas próprias máquinas para fazer glitter? Quando perguntei a Dyer se ela podia me dizer que setor constituía o maior mercado da Glitterex, sua resposta foi um não imediato. “E você jamais poderia imaginar”, acrescentou. “Eles não querem que ninguém saiba que é o glitter”. Já deixou de ser um tipo inatingível de luz brilhante.

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