Delcan & Company
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Globalização contorna guerra comercial dos EUA

O que parece estar no fim é a era em que os Estados Unidos foram os defensores do comércio global como forma de imunização contra futuros conflitos

Peter S. Goodman, The New York Times

08 de julho de 2019 | 06h00

LONDRES - Se um dia a globalização for colocada em xeque, o início do processo provavelmente seria um pouco parecido com isso. O presidente Donald J. Trump, líder do país que construiu o sistema comercial global, segue perturbando o comércio internacional na sua busca por objetivos nacionais. Deu início a hostilidades tarifárias com a China, taxou o aço produzido por aliados como Europa e Japão, e restringiu o AC  esso da Índia ao mercado americano. Prometeu aplicar tarifas ao México meses após anunciar um acordo comercial com o país.

Mas a globalização se tornou uma característica tão elementar da vida a ponto de ser provavelmente irreversível. O processo de produção dos artigos modernos, sejam aviões ou dispositivos médicos, é tão complexo que algumas tarifas não devem levar empresas a fechar fábricas na China e no México para substituí-las com instalações em Ohio e Indiana.

O que parece estar no fim é a era em que os Estados Unidos foram os defensores do comércio global como forma de imunização contra futuros conflitos. Administradores americanos criaram regras para a mediação de disputas, possibilitando que os países negociassem entre si sem tanto medo de intervenções políticas. Ao ceder esse papel, Trump enfraqueceu o sistema comercial e, ao mesmo tempo, removeu um contrapeso à China, cuja abordagem transacional para o comércio atribui pouco valor à transparência e ao respeito aos direitos humanos.

“Estamos agora em uma economia mundial pós-americana, na qual a globalização é muito mais inconsistente", disse Adam S. Posen, presidente do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington. “O mundo é um lugar mais arriscado, no qual o acesso aos mercados é muito menos garantido”.

No entendimento de Trump, os EUA precisam fazer ameaças com a limitação do acesso aos seus mercados para obrigar outros países a aceitar suas demandas. Mas o restante do planeta se recusa a jogar por essas regras. Este ano, Europa e Japão estabeleceram entre si um acordo que coloca os participantes americanos em desvantagem.

De acordo com a Parceria Trans-Pacífico, um acordo separado firmado por 11 países, o Japão concordou em abrir as pesadas proteções do seu mercado para as importações agrícolas, proporcionando aos agricultores uma oportunidade lucrativa. Mas Trump renunciou à participação americana no acordo, e agora os agricultores europeus garantiram a ampliação do seu acesso ao mercado japonês.

Em resposta às tarifas de Trump, a China dobrou a tributação incidente nos produtos da agricultura e da pesca dos EUA, que passaram de 21% para 42%, em média, de acordo com análise. Mas a China reduziu para 19% a tarifa média para artigos do mesmo tipo provenientes do restante do mundo.

Trump vendeu sua guerra comercial como forma de trazer empregos de volta a um abandonado interior dos EUA, mas é improvável que as tarifas aumentem o número de empregos nas fábricas. Cadeias de fornecimento inteiras foram formadas na Ásia, América Latina e Europa. Os maiores fabricantes usam a China como base para vender produtos ao mundo, limitando sua exposição à tributação americana. As empresas interessadas em sair da China geralmente pensam em transferir suas atividades para outros países e baixo custo, como o Vietnã.

Pesquisa de opinião realizada recentemente pela Câmara Americana de Comércio na China revelou que menos de 6% das empresas tinham tirado suas operações da China ou pensavam em fazê-lo com foco em transferi-las para os EUA. A maioria estava voltada para o Sudeste Asiático ou México.

A globalização não ocorreu por causa de planos do governo, e não será desmantelada por causa de predileções políticas. As empresas continuarão a explorar os mercados mundiais e vender seus produtos e serviços além das fronteiras.

Ainda assim, a guerra comercial cada vez mais intensa desferiu um golpe potencialmente grave ao funcionamento do sistema comercial global, e em especial à Organização Mundial do Comércio, entidade que atua como seu árbitro de facto.

A disputa com o México aumenta esse temor. O governo Trump recorreu às tarifas como se fossem um porrete em uma disputa ligada à política de imigração. De acordo com a economista Swati Dhingra, da London School of Economics, o sistema comercial global precisa ser reiniciado. Ao levar a cabo sua guerra comercial fora da estrutura da OMC, Trump acabou reforçando a abordagem chinesa para o comércio - na qual o saldo final é o mais importante, enquanto interesses nacionais eclipsam princípios e critérios gerais. “Estão violando abertamente as regras do jogo", afirmou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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