Cayce Clifford para The New York Times
Cayce Clifford para The New York Times

Google Glass vira dispositivo importante para ensinar crianças autistas

Pesquisadores acreditam que ferramenta pode ajudar crianças a aprender a reconhecer emoções e fazer contato visual

Cade Metz, The New York Times

03 de setembro de 2019 | 06h00

SAN FRANCISCO - Quando Esaïe Prockett sentou com a mãe, o pai e quatro irmãos mais velhos, era o único que usava Google Glass. Enquanto o menino, então com 10 anos, hoje com 12, olhava através das lentes dos óculos computadorizados, sua família fazia caretas - feliz, triste, surpresa, zangada, aborrecida - e ele tentava identificar cada emoção.

Os óculos lhe diziam se ele estava certo ou errado, acendendo minúsculos ícones digitais que somente ele podia ver. Esaïe é autista. A tecnologia visa ajudá-lo a aprender a reconhecer as emoções e a fazer contato visual. Os óculos verificam as suas escolhas somente se ele olha diretamente para um rosto.

Ele testou a tecnologia para um estudo clínico realizado por pesquisadores da Universidade Stanford, na Califórnia, em um esforço cada vez maior para criar tecnologias para crianças que se encontram no espectro do autismo. Aos 18 anos, estudante em Stanford em 2013, Catalin Voss começou a preparar um pedido de autorização para a utilização de Google Glass que reconheciam automaticamente as imagens. Então, ele pensou no primo, que tinha autismo.

 À medida que foi crescendo, o primo de Voss praticou o reconhecimento das expressões faciais no espelho. Aproveitando os avanços da visão por computador, o software de Voss consegue ler automaticamente as expressões faciais e determinar com maior precisão quando a pessoa reconhece uma emoção e quando não.

Na época, a Google parou de vender o aparelho aos consumidores por causa de problemas de privacidade. Mas o Google Glass sobreviveu como ferramenta a ser utilizada por pesquisadores e empresas, e Voss, atualmente estudante de medicina, passou anos desenvolvendo a sua aplicação com outros na universidade.

As crianças que usaram o software mostraram um ganho significativo nas Vineland Adaptive Behaviour Scales, instrumento que monitora o comportamento de indivíduos no espectro de autismo. Jeffrey Priclett, o pai de Esaïe, achou difícil julgar se o aparelho ajudou seu filho a reconhecer as emoções, mas percebeu uma melhora na capacidade de Esaïe de fazer contato visual.

A preocupação com estes estudos está no fato de eles dependerem da observação dos pais, disse a psicóloga Catherine Lord. A equipe de Stanford licenciou a tecnologia para a Cognon, uma start-up do Vale do Silício. A companhia espera comercializar o método quando receber a aprovação do governo. O que poderá levar anos.

Outros adotaram uma estratégia diferente. A Brain Power, uma start-up de Massachusetts que construiu um software semelhante aos Google Glass, vende a sua tecnologia a escolas locais. A companhia a considera um instrumento ferramenta de ensino, e não um aparelho médico. Patrick Daly, o superintendente assistente do distrito escolar de North Reading, Massachusetts, está testando a tecnologia da Brain Power depois de observar os seus efeitos no filho de nove anos, que está no espectro.

Anteriormente, o distrito ensinava uma capacidade semelhante por meio dos tablets de computador iPad. Daly considera o Google Glass um grande avanço. “Na realidade, ele pode manter o contato visual”, afirmou. “As crianças não ficam mais olhando para baixo enquanto tentam aprender uma emoção”.

A Robokind, uma start-up do Texas, projetou um robô que imita as emoções básicas e procura fazer contato visual com os estudantes. Também faz pergunta e tenta manter conversações simples com eles. A Robokind vendeu centenas destes robôs às escolas para teste. Cada um custa US$12 mil, além de mais de US$ 3,5 mil para o software adicional.

De certo modo, este aparelho é um substituto insuficiente da interação humana real. Mas a força desta e de outras tecnologias está em poderem repetir tarefas sem se cansar ou se aborrecer ou sem se irritar. Elas também podem avaliar o comportamento com precisão, disse Pam Feliciano, a diretora científica da ong Simons Foundation Powering Autism Research.

Por estas razões, Pam também acha promissor o Alexa da Amazon. Seu filho de 14 anos está no espectro. Às vezes, ele chama a si mesmo de “você” e não “eu”. Sua tarefa é corrigi-lo. Mas nem sempre ela lembra. Um aparelho como o Alexa poderá ajudar, observou, se os pesquisadores mostrarem sua eficiência. “As tecnologias estão aí”, ela disse. “É só uma questão de os tecnológos certos trabalharem com os médicos certos.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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