Seth Wenig / Associated Press
Seth Wenig / Associated Press

Gorjeta ou assédio? Entenda o que está em jogo para garçonetes de Nova York

Atrizes pressionam governo americano a aplicar salário mínimo a quem ganha gorjetas; atendentes resistem à proposta

Patrick McGeehan, The New York Times

12 de abril de 2019 | 06h00

Faz mais de um ano que um grupo de atrizes de Hollywood, entre elas Amy Poehler e Amy Schumer, vem pressionando o governador de Nova York, Andrew M. Cuomo, a aplicar o salário mínimo do estado aos trabalhadores que ganham gorjetas, dizendo que isso tornaria as garçonetes menos suscetíveis ao assédio sexual.

A indústria dos restaurantes reagiu, dizendo que a mudança proposta seria um desastre para muitos negócios. Mas as garçonetes e outras funcionárias do tipo estão resistindo à proposta, dizendo que ganham mais dinheiro com as gorjetas. Elas dizem que o assédio é um problema real, mas a necessidade de ganhar o suficiente, também. “A mensagem retumbante de garçons de todo o estado de Nova York para essas atrizes de Hollywood é: deixem-nos em paz", disse Maggie Raczynski, bartender do interior do estado. “Essas celebridades não fazem ideia do que estão falando. Acho que o certo seria não se intrometerem”.

No meio da disputa está o governador Cuomo, que propôs a eliminação do salário submínimo no início do ano passado. Audiências realizadas pelo estado deveriam informar a opção do governador. Mas, passados oito meses após a última audiência, Cuomo não fez anúncio nenhum. Os ativistas que pressionam por salários mínimos uniformes estão perdendo a paciência com o governador.Tradicionalmente, o governo permite que empregadores paguem salários mais baixos a funcionários que recebem gorjetas.

Faz quase 10 anos que o salário mínimo federal é de US$ 7,25 por hora, mas o salário mínimo federal para funcionários que recebem gorjetas é de apenas US$ 2,13 por hora. Somente sete estados, entre eles Califórnia, Washington e Minnesota, impedem os contratantes de pagar aos funcionários que recebem gorjetas salários abaixo do mínimo, prática conhecida como crédito da gorjeta. Espera-se que as gorjetas cubram a diferença salarial e, se isso não ocorrer, os empregadores arcam com o restante.

Muitas garçonetes dizem que aumentar o salário dos funcionários que recebem gorjetas pode obrigar os restaurantes a mudar as políticas de gorjeta ou simplesmente tirá-los do mercado. O ex-ator D. Sweeney, que disse ganhar uma “renda bastante confortável” como bartender em Nova York, insistiu na sua oposição à proposta de mudança. “Estou dizendo que não quero um aumento no salário", afirmou Sweeney. “Por que eu diria algo assim? Por acaso sou algum idiota?”

Se o custo da mão de obra aumentar mais, disse ele, isso pode desencadear várias mudanças no modelo de negócios, prejudicando os trabalhadores em vez de ajudá-los. “Os imigrantes contratados como ajudantes seriam os primeiros a serem demitidos”, disse Sweeney.

Maggie disse ter ficado furiosa com uma carta enviada a Cuomo por celebridades de Hollywood como Amy Poehler, ­Reese Witherspoon e Natalie Portman. As atrizes insistiam para que o governador eliminasse o salário mínimo mais baixo para garçonetes e afins porque, segundo elas, a prática criaria um “ambiente de trabalho no qual os clientes se sentem no direito de abusar das mulheres em troca do atendimento".As garçonetes responderam em uma carta às atrizes. “Agradecemos a preocupação de vocês, mas não precisamos da sua ajuda nem estamos pedindo que alguém nos salve", escreveram. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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