Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Governo do Camboja estreita relações com a China

O líder cambojano, Hun Sen, deu as costas para a ajuda ocidental e, com o apoio de Pequim, aumentou o controle sobre o país

Hannah Beech, The New York Times

06 Abril 2018 | 10h15

STUNG TRANG, CAMBOJA - O homem que governou o Camboja por mais de três décadas, o primeiro-ministro Hun Sen, deu as mãos ao embaixador chinês. "Os líderes chineses me respeitam muito e me tratam como um igual", disse Hun Sen no início deste ano, durante o anúncio da construção de uma ponte de US$ 57 milhões financiada pela China no distrito de Stung Trang.

Por um quarto de século, o Ocidente ajudou a reconstruir o Camboja, enquanto ainda se recuperava do genocídio causado pelo Khmer Vermelho. Os Estados Unidos e a Europa doaram em conjunto bilhões de dólares em ajuda a um esforço para transformar o Camboja em uma democracia liberal. No entanto, o Camboja passou a ser o ápice da influência da China no sudeste asiático. A China é o maior benfeitor do Camboja, fornecendo quase um terço do seu investimento estrangeiro.

Hun Sen, 65 anos, disse que planeja permanecer no poder por mais uma década ou duas. Seu governo dissolveu o principal partido da oposição antes das eleições gerais marcadas para julho, mandou prender críticos e fechou os meios de comunicação dissidentes. Nas recentes eleições para o Senado, o Partido do Povo do Camboja venceu todos os lugares oferecidos.

"O Camboja corre o risco de voltar a ser um Estado totalitário", disse Mao Monyvann, ex-parlamentar da oposição. "E o pior é que Hun Sen olhou em volta e viu que a China o apoiava e que os Estados Unidos não estavam punindo outros países asiáticos por fazerem coisas semelhantes, então ele apenas seguiu em frente com sua repressão".

Hun Sen, há muito tempo, condena as potências ocidentais por tratarem os cambojanos como peões. Os franceses colonizaram o Camboja e os americanos bombardearam o campo onde ele cresceu. Vozes dissidentes foram marcadas como agentes ocidentais.

Hun Sen demonstrou uma noção de quando mudar de lado. O filho de agricultores tornou-se um lutador para o Khmer Vermelho, cujo governo de 1975 a 1979 resultou na morte de cerca de um quinto da população. Mas em 1977, ele desertou para o vizinho Vietnã. Dois anos depois, Hun Sen retornou como ministro das Relações Exteriores. Quando as Nações Unidas chegaram, em 1992, para administrar uma autoridade de transição, ele estava firmemente no controle.

Em uma manhã recente, Hun Sen se dirigiu a 10 mil jovens trabalhadores do setor de vestuário nos arredores de Phnom Penh. O discurso foi transmitido ao vivo pelo Facebook e um fluxo de corações e polegares para cima flutuou na página do primeiro-ministro. Então ele posou para fotos com os membros da multidão. Todo trabalhador recebeu dinheiro em um envelope que especificava que era um presente de Hun Sen e sua esposa.

Mas quase 70% da população do Camboja tem menos de 30 anos. Eles não conhecem outro líder e parecem ansiosos por mudanças.

Hun Sen, no entanto, parece interessado em manter a política como uma preocupação familiar. Ele colocou seu filho mais novo, Hun Many, como encarregado de cortejar a juventude da nação. E Hun Many manifestou interesse em se tornar primeiro-ministro. O filho mais velho de Hun Sen, Hun Manet, deve ser lançado ao cargo de comandante-chefe. Seu segundo filho, Hun Manith, está crescendo nos serviços de inteligência.

"Temos de lembrar que a democracia é um pilar importante", disse Hun Many, "mas não é o único".

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