Andrea Mantovani para The New York Times
Andrea Mantovani para The New York Times

Prefeitos desafiam governo francês a proibir pesticidas

Em maio, Daniel Cueff proibiu o uso de pesticidas num raio de 150 metros de qualquer habitação, estabelecendo uma barreira ao redor de grande parte do vilarejo Langouët

Adam Nossiter, The New York Times

25 de setembro de 2019 | 06h00

LANGOUËT, FRANÇA - Se a França começa a despertar para a ecologia, seu centro espiritual talvez esteja aqui, em Langouët, um tranquilo vilarejo da Bretanha, onde o prefeito ambientalista está se tornando um herói popular. Os prefeitos de 40 lugarejos decidiram seguir o exemplo de Daniel Cueff, embora ele tenha sido advertido, levado ao tribunal pelo Estado francês, e informado de que, o prefeito de um vilarejo de apenas 600 habitantes, não tem o direito de proibir o uso de pesticidas em sua localidade. 

Ao mesmo tempo, os moradores de Langouët picharam os espaços públicos com frases endereçadas à representante regional do governo nacional: “Madame comissária, deixe que o nosso prefeito nos proteja!” Quando Cueff compareceu diante do tribunal na capital da região, Rennes, mil pessoas estiveram presentes para aplaudi-lo.

“Por acaso o prefeito de um vilarejo não tem a tarefa de preencher as deficiências do Estado?” perguntou Cueff, 64, em uma entrevista. “A França votou pela diretiva europeia que protege a população dos pesticidas”, ele disse. “Mas não está fazendo isto. Não quero ser acusado de não prestar assistência à população em perigo”.

Depois de um verão particularmente escaldante com ondas de calor recordes, que enfatizaram a realidade da mudança climática, os políticos que adotaram alguma atitude são raros. Na primavera passada, os Verdes tiveram uma forte votação nas eleições ao Parlamento Europeu; os ambientalistas estão em alta, enquanto os políticos do establishment estão de joelhos.

Mas o presidente Emmanuel Macron apreciou as lições, como mostrou com novas e grandes iniciativas ambientais. Ele expressou inclusive um cauteloso apoio ao prefeito, e falou a respeito de Cueff: “Apoio as suas intenções, mas não posso concordar quando a lei não é respeitada”.

Cueff foi cáustico. “Na política, o que vale não é a intenção, é a prática”, afirmou. No dia 18 de maio, Cueff proibiu o uso de pesticidas num raio de 150 metros de qualquer habitação, estabelecendo uma barreira ao redor de grande parte do vilarejo. No final de agosto, um juiz derrubou a sua portaria depois que o governo central se manifestou contra.

Por sua vez, nos Estados Unidos, os júris emitiram diversas sentenças contra a Monsanto, em ações movidas por cidadãos que afirmaram que o herbicida Roundup contra ervas daninhas provocara câncer. Testes realizados em pessoas de Langouët mostraram níveis de glifosato - um dos herbicidas mais amplamente usados e o ingrediente ativo do Roundup - em sua urina 30 vezes superiores ao recomendado. E particularmente crianças.

“Estamos realmente chocados”, disse Hélène Heuré, a bibliotecária local, que tem dois filhos. “É claro que estamos assustados. O prefeito disse que tentaria encontrar uma solução. Devemos questionar este tipo de agricultura”. O rancor é ainda muito forte entre a meia dúzia de produtores rurais, na maior parte de laticínios, que praticam o que Cueff chamou de agricultura “convencional”.

“É uma catástrofe”, definiu Dominique Hamon, ao lado do seu tanque de leite. “Estamos aqui para alimentar as pessoas, e agora elas estão nos expulsando alegando que somos perigosos. Sequer temos a liberdade de cumprir a nossa obrigação”, afirmou Hamon, acrescentando que, no fim do ano, pretende abandonar o ramo.

Mas Cueff diz não compreender por que razão, em 2017, o Estado proibiu as prefeituras de usar o glifosato, mas continua permitindo o seu uso nas fazendas próximas das pequenas aldeias. “Obviamente há algum problema”, afirmou Bertrand Astic, o prefeito de Boussières, nas proximidades da fronteira com a Suíça. “Ou é tóxico ou não é. Por isso, decidimos nos manifestar contra”.

Astic proibiu o glifosato e ele também está sendo combatido por seu governo local. “Nós, os prefeitos da área rural, estamos testemunhando um verdadeiro declínio do nosso ambiente”, afirmou. “As árvores estão morrendo. As populações de insetos estão minguando. Você olha para os montes aqui, e vê enormes manchas marrons. Tivemos três secas seguidas. A mudança climática está ocorrendo diante dos nossos olhos”.

Na Bretanha, Cueff espera que a opinião pública esteja do seu lado. “Há vinte anos estávamos sozinhos” afirmou. “Eles achavam que nós exagerávamos. Hoje, é o oposto. As pessoas me procuram e perguntam se podem fazer mais alguma coisa”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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