Laetitia Vancon para The New York Times
Laetitia Vancon para The New York Times

Governo russo fortalece elos militares na África

País busca bases mais estratégicas para seus soldados e preocupa Ocidente

Eric Schmitt, The New York Times

03 de abril de 2019 | 06h00

A Rússia vem expandindo constantemente sua influência militar pela África, alarmando representantes ocidentais com vendas de armas cada vez maiores, acordos de segurança e programas de treinamento para países instáveis ou líderes autocráticos. A Rússia busca uma posição no flanco sul da Otan ao ajudar um ex-general da Líbia na luta pelo controle do governo do país e seu vasto mercado de petróleo.

Nos dois anos mais recentes, Moscou retomou as relações com clientes do período soviético como Moçambique e Angola, e forjou novos elos com outros países. O presidente Vladimir Putin, da Rússia, será o anfitrião de uma reunião de cúpula entre Moscou e os países africanos ainda este ano. A expansão da influência militar de Moscou no continente reflete a visão mais ampla de Putin, que deseja restaurar a glória anterior da Rússia. Mas ilustra também o oportunismo da estratégia russa, obtendo ganhos logísticos e políticos onde quer que seja possível.

No ano passado, o assassinato de três jornalistas russos por desconhecidos na República Centro-Africana, ex-colônia francesa, chamou atenção para o retorno do Kremlin ao continente. Os jornalistas investigavam as atividades do Wagner Group, força militar privada ligada a uma pessoa próxima a Putin.

“Moscou e seus prestadores de serviços militares particulares estão armando alguns dos governos mais fracos da região e defendendo os líderes autocráticos do continente", disse Judd Devermont, diretor do Programa África do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.

“Este envolvimento traz o risco de exacerbar as zonas de conflito atuais.” Moscou não pode concorrer com o auxílio estrangeiro americano nem com os amplos esforços chineses de investimento no continente. Mas os analistas dizem que a Rússia é motivada tanto pela oportunidade quanto pela necessidade de avançar na África.

A Rússia busca bases mais estratégicas para seus soldados, incluindo portos líbios no Mar Mediterrâneo e em centros de logística naval da Eritreia e do Sudão, no Mar Vermelho, de acordo com análise do Instituto para o Estudo da Guerra, uma organização de pesquisas.

No ano passado, a Rússia assinou acordos de cooperação militar com a Guiné, Burkina Faso, Burundi e Madagascar. Em separado, o governo de Mali buscou a ajuda de Moscou para combater o terrorismo, apesar dos milhares de soldados franceses e forças de paz das Nações Unidas mobilizados no país.

Treze por cento do total de exportações de armas da Rússia em 2017 tiveram como destino a África, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo. A Rússia busca acordos de venda de armas em todo o continente prometendo pronta entrega e termos flexíveis - estratégia que, de acordo com os analistas, tem mais sucesso quando apresentada a países que têm poucas alternativas para o estabelecimento de acordos defensivos com outros parceiros por terem sido isolados pelo Ocidente.

Quase 80% de todas as armas russas vendidas no continente se destinam à Argélia, uma freguesa antiga, disseram funcionários das agências americanas de defesa. A Tunísia, aliada dos Estados Unidos, também mantém elos de proximidade com a Rússia nas áreas de espionagem, combate ao terrorismo e comércio de energia.

E Burkina Faso recebeu no ano passado helicópteros de transporte fabricados na Rússia e armamento aéreo. O Egito, importante aliado americano, também está se tornando um freguês consistente do armamento russo. No fim de 2018, o Egito assinou um acordo de US$ 2 bilhões para a compra de jatos russos modelo SU-35, de acordo com reportagem da mídia russa.

A Rússia busca novos mercados econômicos e fontes de energia, em alguns casos retomando relações com países que foram aliados durante a era soviética. A Rússia também tem importantes interesses na exploração do petróleo e do gás na Argélia, Angola, Egito, Líbia, Senegal, África do Sul, Uganda e Nigéria. Os elos entre Rússia e República Centro-Africana chamaram bastante atenção no Ocidente. Os dois países assinaram um acordo de cooperação militar no ano passado e, pouco depois, os mercenários começaram a rumar para o país.

O ministro russo das relações exteriores, Mikhail Bogdanov, debateu recentemente a perspectiva de ampliar a cooperação com o presidente Faustin-Archange Touadéra, da República Centro-Africana. O aumento na ajuda incluiria “o treinamento de pessoal e o fortalecimento da segurança e da estabilidade nesse país africano aliado", disse o ministério russo das relações exteriores.

O anúncio foi recebido com frieza por funcionários do alto escalão francês. “Estamos bastante preocupados com a crescente influência russa na República Centro-Africana, país que conhecemos bem", disse a ministra francesa das forças armadas, Florence Parly, aos repórteres. / Neil MacFarquhar contribuiu com a reportagem.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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