Duncan Elliott para The New York Times
Duncan Elliott para The New York Times

Grã-Bretanha oferece recursos para ajudar pequenos jornais

A cobertura dos governos locais é ressuscitada graças a uma iniciativa que redistribui parte do dinheiro que seria destinado à BBC

Amie Tsang, The New York Times

29 de dezembro de 2018 | 06h00

LONDRES - Quando Lucy Ashton deixou “The Sheffield Star”, em 2009, para trabalhar na área de relações públicas, vários outros repórteres já haviam saído do jornal com a queda da circulação e da publicidade, e ela imaginou que nunca mais veria a abertura de novas vagas.

Recentemente, Lucy voltou ao antigo emprego graças a uma nova iniciativa que ajuda empresas de jornais a divulgar as informações sobre os governos locais. Inclusive cobriu uma reunião da Câmara Municipal de Sheffield City, na qual as vereadoras discutiram a questão dos assédios de que haviam sido vítimas. “Isto não estava na agenda”, disse Lucy. “Sem um repórter na reunião, não teríamos conseguido isto”.

Para reeditar a cobertura do governo local, editoras menores da Grã-Bretanha recebem uma parcela da taxa paga anualmente à BBC por todos os domicílios que têm um aparelho de televisão, com a qual a emissora pública se mantém. O dinheiro, 8 milhões de libras (US$ 10,2 milhões), é utilizado pelos jornais locais e pelos novos sites para pagar os salários dos repórteres contratados para esta finalidade.

Em toda a Grã-Bretanha, as publicações podem solicitar 144 empregos de repórteres, e até o momento cerca de 90% já foram preenchidos. Os repórteres, jornalistas experientes, recebem um treinamento adicional da BBC e um salário mínimo de 22 mil libras cada um, comparável a outros repórteres das empresas de notícias regionais do país.

Matt Hancock, membro do Parlamento e ex-secretário de comunicações e cultura do governo, disse que espera que o programa devolva algum vigor à cobertura dos governos locais. Segundo ele, hoje há menos jornalistas contestando as declarações dos políticos. “Você fica pensando: espera aí, é assim que temos uma democracia vibrante?”, disse Hancock.

A Local News Partnership é um exemplo de modelo de negócios na área da reportagem local que pode alcançar uma dimensão até pouco tempo atrás considerada inimaginável, inclusive com financiamento fornecido por grupos sem fins lucrativos. 

O Google anunciou este ano que gastará US$ 300 milhões em ajuda ao jornalismo de prestígio, e o Facebook doou US$ 6 milhões para um novo projeto na Grã-Bretanha. Em troca do financiamento da BBC, os jornais não podem usar os novos cargos como uma oportunidade para cortar empregos, e os repórteres devem cobrir os governos locais. A BBC e dezenas de outras empresas de mídia podem usar os artigos, criando um tipo de serviço para o noticiário local.

No entanto, a pressão financeira que estas empresas de comunicações locais sofrem continua crescendo na Grã-Bretanha, onde 136 jornais fecharam entre 2012 e começo de 2018. Daniel Ionescu é o editor executivo de “The Lincolnite”, um site digital de notícias que atende ao Lincolnshire, que contratou dois repórteres por intermédio da parceria.

Ele disse que está se gastando cada vez mais dinheiro de publicidade em plataformas como Google e Facebook do que em editoras online locais. Ele não acredita que seja possível fazer muito mais para afastar as empresas de tecnologia. “As editoras que criam tudo ficam com as sobras”, afirmou Ionescu.

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