Laetitia Vancon / The New York Times
Laetitia Vancon / The New York Times

Grã-Bretanha rural sofre com austeridade do governo

Apesar de o governo britânico ter mantido benefícios de alto nível e elevado pensão do estado, população idosa é a mais afetada

Ceylan Yeginsu, The New York Times

06 de junho de 2019 | 06h00

ALSTON, INGLATERRA - Não foi até Trevor Robinson receber uma carta notificando-o de uma perda de compromisso, no hospital, que ele percebeu que não havia falado com outro ser humano em mais de seis semanas. Robinson, de 77 anos, um jardineiro paisagista aposentado, passou a maior parte do tempo sozinho, sentado em sua poltrona de couro desgastada, olhando pela janela a charneca que cercava seu chalé no condado de Cúmbria, no noroeste do país. "Quando você passa cada segundo sozinho, você perde a noção do tempo", percebeu enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. "Sinto-me só". 

O isolamento de Robinson, compartilhado por milhares de pessoas idosas na Grã-Bretanha, é o resultado de uma cadeia de causa e efeito que se estende da rural Cúmbria até os corredores do poder em Londres. Ele costumava andar de ônibus subsidiado até a prefeitura local interromper a rota. O Conselho estava respondendo a fortes cortes orçamentários oriundos do programa de austeridade de décadas de duração do governo conservador.

Mesmo que a austeridade tenha afetado quase todos os aspectos da vida britânica, o governo protegeu os benefícios de alto nível para os idosos e elevou a pensão do estado de forma mais generosa do que os governos anteriores.

Mas um passe de ônibus gratuito é de pouca utilidade se os ônibus não chegam até próximo de sua casa, e muitos aposentados descobriram que cortes aparentemente menores - o fechamento de um centro de saúde, do centro comunitário ou da agência dos correios - podem prejudicar profundamente suas vidas.

Os efeitos são significativos em áreas rurais, onde o isolamento dos residentes mais velhos surgiu como um dos maiores custos, e em grande parte ocultos, das restrições orçamentárias das administrações locais, com o financiamento reduzido pela metade em todo o país desde 2010.

Enquanto especialistas dizem que esses problemas são comuns no interior da Grã-Bretanha, eles são particularmente severos em Cúmbria. Mais conhecida por seu Parque Nacional de Lake District e mansões à beira do lago, é uma das áreas rurais mais pobres da Inglaterra - 29% da sua população estão entre os 10% mais pobres do país.

Este ano, o Conselho do Condado de Cúmbria planeja cortar cerca de US$ 23 milhões de seu orçamento para amortecer uma queda constante no financiamento do governo nacional - para US$ 17,7 milhões este ano, de quase US$ 200 milhões em 2012.

O primeiro grande corte do Conselho veio em 2014: acabar com os subsídios de ônibus. Ele economizou cerca de £9 milhões, cerca de US$ 12 milhões por ano, e encerrou cerca de 60% dos serviços de ônibus da região.

Até os últimos anos, a qualidade de vida dos idosos na Grã-Bretanha havia melhorado constantemente. De um ponto alto em meados da década de 1990, a taxa de pobreza entre os idosos havia caído, de acordo com a Fundação Joseph Rowntree, uma instituição sem fins lucrativos, caindo para 13%, em 2012-13, antes de subir para 16%, em 2015-16. Mas um em cada seis pensionistas permanece na pobreza.

Robinson costumava pegar um ônibus para Carlisle, a cerca de 40 minutos de distância, onde fazia compras em seu supermercado favorito, o Morrison's, atirava dardos em um clube, jogava cartas e assistia à televisão com seu melhor amigo, Billy. Isso terminou em 2014, com a retirada dos subsídios de ônibus. "Eu tentei pegar o novo ônibus, mas ele só permanece em Carlisle por uma hora e meia antes de voltar", explicou Robinson. "Isso não é tempo suficiente para fazer qualquer coisa, e se você perder o ônibus, você está condenado".

Agora, Robinson mal sai da casa. Ele gasta a maior parte de sua pensão semanal de US$ 175 em comida da loja local, que ele pega uma vez por semana e aluga uma televisão. "Eu costumava comprar minha lasanha de carne favorita e vegetais frescos no Morrison’s", disse ele. "Mas não há muita escolha por aqui, então agora estou comendo principalmente sopa instantânea".

Não muito tempo atrás, Robinson e outros idosos poderiam ter pedido ajuda a seus familiares. Mas as oportunidades de trabalho em declínio e os cortes de benefícios forçaram muitos jovens rurais a se mudarem para cidades distantes.

O filho de Trevor Robinson, Liam, teve de deixar um imóvel alugado a cerca de 25 minutos da casa de seu pai, quando as autoridades cortaram seus benefícios no ano passado, dizendo que ele não tinha se esforçado o suficiente para arranjar um emprego. Ele contesta isso. Agora ele vive em habitação subsidiada que fica a uma hora e meia do pai. "Sinto falta do ar puro e do espaço do campo e de poder visitar meus pais", disse. "Mas isso é tudo o que podemos pagar".

Em 2016, a unidade de internação do hospital de Alston, com sete leitos, teve de fechar por causa da escassez de pessoal causada por seu isolamento e falta de transporte. Os leitos eram muitas vezes o único lugar onde os moribundos podiam passar seus últimos dias entre amigos e familiares. "Sentimos muita falta do hospital", afirmou Steve Frogley, de 69 anos, eletricista aposentado. "É a maior perda para a comunidade desde que eu estou aqui. Teria sido um lugar maravilhoso para morrer”. / TEXTO DE ROMINA CÁCIA

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