The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey via Associated Press
The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey via Associated Press

Grande Barreira de Coral da Austrália se mostra mais resistente

Os corais ficaram expostos a altas temperaturas por mais tempo desde a última vez em que o fenômeno aconteceu, em 2016, e a descoloração só ocorreu mais tarde

Kendra Pierre-Louis, The New York Times

04 de janeiro de 2019 | 06h00

Entre os corais ameaçados da Grande Barreira de Coral da Austrália, uma das maravilhas naturais do mundo que foram devastadas pelo aquecimento global, os pesquisadores encontraram motivos para o otimismo.

Os recifes de coral, que de acordo com algumas estimativas são responsáveis por sustentar um quarto da vida marinha, são prejudicados pelo aquecimento das águas. Os efeitos podem ser vistos na perda de suas cores vibrantes, fenômeno conhecido como descoloração. 

Mas, em 2016, depois que a temperatura da água aumentou vertiginosamente perto da Grande Barreira de Coral, provocando estragos extensos, os pesquisadores descobriram que os corais que sobreviveram se tornaram mais resistentes a outro período de aquecimento extremo no ano seguinte.

“É um grande acontecimento de seleção natural", disse Terry Hughes, especialista em recifes de coral da Universidade James Cook, na Austrália, e principal autor de um estudo publicado no mês passado na revista Nature Climate Change. 

A onda de calor de 2016 matou boa parte do coral mais sensível às temperaturas, deixando os corais capazes de resistir a temperaturas oceânicas mais elevadas. O estudo revelou que, em 2016, quando partes do recife foram expostas a temperaturas oceânicas entre 4°C e 8°C mais altas do que o normal, quase a metade do coral apresentou descoloração em quatro ou cinco semanas. 

Mas, em 2017, o coral teve de ficar exposto a essas temperaturas por oito ou nove semanas antes de apresentar o mesmo nível de descoloração. “Apesar do segundo ano ter sido mais quente, observamos menos descoloração", disse o Dr. Hughes. De acordo com ele, o motivo é a memória ecológica: a ideia segundo a qual a experiência anterior de uma comunidade biológica pode influenciar sua reposta ecológica hoje ou no futuro.

Os recifes de coral são vastas colônias de um tipo de coral que extrai o carbonato de cálcio da água marinha para construir uma estrutura de calcário para sua proteção. Os minúsculos animais são translúcidos e obtêm suas fortes tonalidades vermelhas e roxas a partir de algas que vivem nas suas células, proporcionando o oxigênio que o coral necessita para crescer.

O coral é sensível à temperatura da água. Se estiver fria demais, o coral sofre; se estiver quente demais, o coral e as algas se separam, deixando o coral sem cor. Corais descoloridos são muito mais suscetíveis a infecções e à morte. Mas o estudo revelou que nem todos os corais estão ameaçados.

A Grande Barreira de Coral já vivenciou antes esse tipo de descoloração maciça, primeiro em 1998 e novamente em 2002. Mas os cientistas disseram que, em 2017, a descoloração foi vista pela primeira vez em dois anos seguidos.

O encurtamento do intervalo entre os episódios de descoloração é importante, disse o Dr. Hughes, “pois significa que não temos mais o luxo de estudar esses eventos de descoloração como se fossem raros, com bastante tempo entre eles, permitindo assim sua plena recuperação". 

Um recife leva cerca de 10 anos para se recuperar plenamente após a descoloração. “Temos que estudá-los não apenas como eventos isolados, e sim como sequências de eventos que interagem uns com os outros", disse ele.

Os recifes de coral sustentam cerca de um quarto das espécies marinhas do mundo e proporcionam 17% da proteína animal consumida pelos humanos, de acordo com as Nações Unidas. Em alguns países, como Gana, Bangladesh e as Maldivas, os recifes são fonte de mais da metade da proteína animal consumida pela população.

O estudo traz alguma esperança de sobrevivência para os recifes de coral diante do aquecimento dos oceanos. Mas “as linhas basais estão mudando tão rapidamente que é difícil prever se esse padrão vai se manter”, disse a pesquisadora Kuulei S. Rodgers, da Universidade do Havaí, em Manoa.

Se o mundo for capaz de alcançar as metas estabelecidas no acordo climático de Paris e evitar os piores efeitos do aquecimento global, disse o Dr. Hughes, há esperança para a existência dos corais no futuro. “Mas serão recifes bem diferentes dos de hoje", disse ele.

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