Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Grandes edifícios vazios afetam negativamente economia chinesa

Os 65 milhões de apartamentos não habitados são um grande fardo para a China e causam impacto mundial

Alexandra Stevenson e Cao Li, The New York Times

07 de janeiro de 2019 | 06h00

JURONG, CHINA - Para Hu Peiliang, Jurong era uma cidade de guindastes, concreto e oportunidades. Ele tinha tanta certeza de que ali estaria prestes a ocorrer um boom que em 2017 ele se mudou com sua família para lá.

Hu, corretor de imóveis de 31 anos, apontou para edifícios novos e mais edifícios. Novos quarteirões, novas passarelas e semáforos surgiram neste local da noite para o dia. Trata-se de uma incorporação que se estende por vários quarteirões, chamada Yudong International, e quando concluída, incluirá 120 edifícios.

"Eu me perguntei quem comprará todos esses apartamentos", disse Hu. Desde julho, ele só vendeu alguns.

Apartamentos indesejados estão sendo um fardo para a economia chinesa, e, por extensão, prejudicando o crescimento em todo o mundo. As vendas de imóveis estão caindo. Os apartamentos estão vazios, ninguém os compra. As incorporadoras que apostaram pesado no mercado estão sobrecarregadas de dívidas no valor de bilhões de dólares.

"O mercado imobiliário é o maior rinoceronte cinzento", enfatizou Xiang Songzuo, economista sênior da Universidade Renmin, em uma conferência no mês passado, referindo-se a um termo usado pelo governo para descrever os problemas visivelmente grandes da economia chinesa que são menosprezados até começarem a ganhar importância.

A China está às voltas com uma crise econômica provocada pelos esforços para conter a dívida e agravada pela guerra comercial com os Estados Unidos. Mas toda solução terá de levar em conta os problemas do setor imobiliário. Nas cidades chinesas, mais de um em cada cinco apartamentos - aproximadamente 65 milhões - permanece desocupado, calcula Gan Li, professor da Southwestern University of Finance and Economics em Chengdu.

Em lugares como Jurong, algumas incorporadoras cortaram violentamente os preços dos novos apartamentos a fim de impulsionar os negócios ou para tentar economizar dinheiro. Isso prejudica os valores dos imóveis dos compradores anteriores, que foram para as ruas em protesto.

Em outubro, dezenas de compradores de apartamentos de Jurong se reuniram em frente ao escritório de vendas do Center Park, um complexo de 22 edifícios residenciais lançado pela Country Garden, a incorporadora, como a versão chinesa do Central Park de Manhattan. Seguranças fizeram uma barricada para impedir que os manifestantes invadissem o edifício para exigir seu dinheiro de volta.

A Country Garden enfrentou a fúria dos compradores, alguns deles quebraram as vitrines do escritório de vendas em pelo menos outra cidade, informou a mídia local. A incorporadora informou que "fará as correções adequadas" para atender aos compradores enfurecidos.

"Estou muito revoltado", reclamou Jia Rui, 24, que adquiriu um apartamento no Center Park em 2017. Quando soube que apartamentos semelhantes foram vendidos mais tarde quase pela metade do preço, Jia disse que se sentiu impotente. "Mas talvez o preço volte a subir", considerou, ao comentar que Jurong terá, até 2023, uma linha de metrô com ligação até Nanquim, uma importante cidade chinesa.

A atual crise é, em parte, consequência de uma onda de construções impulsionada pela alta dos preços em muitas cidades. As autoridades tiveram dificuldade para conter o mercado com medidas que incluíam a introdução do imposto predial.

"Nós não sabemos quando essa música vai parar na China, então tentamos fazer o possível para que a música pare”, explicou Nicole Wong, analista de imóveis da CLSA, uma corretora de ações. "E ela parou".

Os imóveis são a maior riqueza de uma família em um país que impõe regras rigorosas contra a movimentação do dinheiro no exterior e tem um mercado de ações volátil. Às vezes, eles representam até 85% dos bens de uma família, afirmam os pesquisadores.

Com esta reserva de riqueza cada vez mais instável, as pessoas estão com raiva. Em resposta, as autoridades chinesas decidiram abrandar suas exigências, reduziram as restrições ao prazo para os proprietários revenderem suas propriedades e agora permitem que os universitários continuem morando nas cidades onde estudam depois de se formarem, aumentando potencialmente a demanda. Algumas incorporadoras, por sua vez, devolveram aos compradores a diferença entre o preço atual e o que eles pagaram.

Hu e seu amigo Wang Liwei vendiam casas em Nanquim, antes de se transferirem para Jurong, uma pequena cidade de acordo com os padrões chineses, com 600 mil habitantes. Se os preços eram tão elevados em Nanquim, parecia lógico para os dois que os possíveis compradores que não tinham condições de adquirir uma habitação procurassem em Jurong.

Em 2016, foram vendidos 49 mil apartamentos em Jurong. A média anual é de cerca de 4 mil, segundo Huifeng Li, um pesquisador de Nanquim. Hoje, segundo ele, os compradores são especuladores.

No Center Park, homens de luvas brancas aguardam para receber possíveis compradores. Mas os clientes são escassos. No escritório, mais de dez corretores olham para os respectivos telefones.

Depois de uma visita a vários apartamentos à venda, Wang disse calmamente: "Eu não compraria um apartamento deles".

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