Zacharias Abubeker/Agence France-Presse - Getty Images
Zacharias Abubeker/Agence France-Presse - Getty Images

Grandes esperanças em um país que estava à beira do colapso

Satisfazer as exigências dos jovens da Etiópia, onde a idade média é de 18 anos, será o maior teste do novo primeiro-ministro

Somini Sengupta, The New York Times

28 de junho de 2018 | 15h15

ADDIS ABEBA - Eles se denominam um clube do livro. E se reúnem um sábado por mês, jovens entre 20 e 30 anos, para discutir um clássico.

Mas hoje, eles decidiram discutir a história de seu país. O protagonista: o primeiro-ministro, Abiy Ahmed, cuja ascensão ao posto mais alto, no final de março, tirou a Etiópia da beira do abismo de uma implosão política.

Abiy, 41, um dos líderes mais jovens da África, está reorganizando as antigas práticas da nação. Ele realizou reuniões com as lideranças locais em todo o país, pediu desculpas pela morte de manifestantes pelas forças do governo, e pediu a unificação dos principais grupos étnicos da Etiópia.

Abiy também aceitou as divergências de opinião - quase nunca ouvidas em um país em que os dissidentes vão para a cadeia. No dia 22 de junho, o seu gabinete anunciou que não bloquearia mais 264 sites da internet, blogs e emissoras de televisão, muitos deles favoráveis à oposição.

“Ele sente o nosso sofrimento”, observou um membro do clube do livro, um professor universitário chamado Mekonnen Mengesha, 33. “Porque é nosso contemporâneo”.

“Ele é estimulante”, foi o comentário de Makda Getachew, 31, especialista em política pública.

Nem todo mundo está feliz com as mudanças. No dia 23 de junho, alguém jogou uma granada em um comício para Abiy em Addis Abeba, matando pelo menos duas pessoas.

A Etiópia é o segundo país mais populoso da África, depois da Nigéria. E, mesmo pelos padrões da África, é um país extremamente jovem. A idade media dos seus 100 milhões de habitantes é 18 anos.

Atender às suas reivindicações, econômicas e políticas, será o maior teste de Abiy. Por enquanto, ele já empreendeu algumas medidas politicamente inteligentes. Ordenou o fim do estado de emergência mais cedo do que o planejado, imposto pela segunda vez em menos de dois anos para controlar as manifestações.

Ele também concedeu indulto a um preso político, um cidadão britânico chamado Andargachew Tsige, que havia sido condenado à morte por sua participação no Ginbot 7, que o governo considera um grupo terrorista.

O governo de Abiy declarou que honrará um acordo de paz para resolver uma disputa de fronteira com a Eritreia, vizinha e rival da Etiópia.

Afirmou também que venderá participações em duas de suas maiores empresas estatais, abrindo as portas para um injeção de dinheiro que ajudará a solucionar a escassez de reservas estrangeiras.

A inflação da Etiópia é alta, acima de 11%. O país contraiu enormes dívidas com credores estrangeiros, e o aperto monetário é tão grave que os etíopes afirmam que às vezes não encontram medicamentos básicos.

Abiy é diferente também em razão de sua identidade. Ele é em parte Oromo, um dos maiores grupos étnicos do país, cujos integrantes há muito se queixam de terem sido marginalizados.

Ex-oficial militar, fez carreira nas fileiras da coalizão política que se denomina Frente Revolucionária Democrática Popular Etíope e tem praticamente o monopólio do poder.

Abiy representa a ala mais jovem e mais reformista do partido, embora ainda tenha de realizar sistemáticas reformas políticas e econômicas. Ele ainda não falou nada a respeito das negociações com os grupos da oposição. E pouco fez para tranquilizar os cidadãos de que as suas instituições - a polícia, o judiciário, a imprensa - poderão ser independentes.

Getachew, o membro do clube do livro, disse que Abiy ainda não organizou um diálogo com a oposição. Nem propôs reformas políticas em vista das próximas eleições.

“Ele está alimentando muitas expectativas”, afirmou. “No fim das contas, ainda lidera o país com a estrutura partidária antiga”.

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