Rafael Marchante/Reuters
Rafael Marchante/Reuters

Gravações secretas de ex-chefe de polícia geram alvoroço na política espanhola

Trechos das conversas vêm sendo divulgados pela mídia; caso levou à abertura de investigações

Raphael Minder, The New York Times

15 de agosto de 2019 | 06h00

MADRI - Nos mais de 20 anos que trabalhou como comissário de polícia da Espanha, José Manuel Villarejo se misturou a políticos, juízes, jornalistas, aristocratas e lideranças empresariais. Foi homenageado seis vezes, incluindo por seu trabalho combate ao terrorismo. Ainda assim, ele era uma figura relativamente desconhecida pelo público espanhol. Tudo isso mudou há 20 meses, após a detenção dele.

Hoje, o antigo herói da polícia é alvo de 10 investigações da promotoria espanhola. É acusado de manter uma estrutura ilícita e lucrativa durante anos, atuando como intermediário dos ricos e poderosos da Espanha na solução de problemas, espionando rivais e difamando adversários. Villarejo, 67 anos, é agora um dos rostos mais conhecidos da Espanha. Mas é a voz dele que abalou o establishment espanhol.

Villarejo gravou secretamente as negociações de que participava. Trechos dessas conversas vêm sendo divulgados pela mídia espanhola. Os vazamentos deixaram claro que ele pode ter informações chocantes a respeito de muitos da elite política e empresarial da Espanha. “Ele registrou absolutamente tudo - todas as suas reuniões e conversas telefônicas - e com isso sabemos que o acervo é imenso", disse Joaquín Vidal, diretor da publicação online moncloa.com, que divulgou muitas das gravações sem explicar como teve acesso a elas.

Somados ao depoimento de Villarejo nos tribunais, os registros expuseram um universo de truques sujos nos mais altos escalões do poder na Espanha. Levaram a abertura de muitas investigações, e uma delas busca determinar se o antigo governo conservador da Espanha teria usado uma unidade especial da “polícia patriótica” para manchar a reputação de adversários políticos. A carreira de Villarejo começou a desmoronar em 2016, quando investigadores encontraram milhões de euros que Villarejo teria escondido no exterior.

Os promotores dizem que ele recebeu € 5,3 milhões (US$ 5,9 milhões) do governo do presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, da Guiné Equatorial, para ajudar o líder africano a manchar a reputação de seus adversários políticos. Juízes congelaram bens no valor de milhões de euros controlados por empresas que Villarejo e seus sócios usaram para comprar propriedades na Espanha, além de um hotel no balneário uruguaio de Punta del Este. Os promotores o estão acusando de suborno e lavagem de dinheiro, entre outros crimes. Cerca de 50 outras pessoas também foram indiciadas.

Villarejo nega as acusações e diz que seu trabalho foi feito em nome do governo espanhol. A prisão dele aprofundou questões a respeito da possibilidade de parte do governo espanhol ter tentado atacar e difamar adversários ilegalmente. As pessoas gravadas por Villarejo negaram as irregularidades, mas não o contato com ele. A ministra da justiça da Espanha, Dolores Delgado, disse ao parlamento que foi vítima de “chantagem política” por parte de adversários de direita depois que uma das gravações dele vazou.

Em outra gravação, Villarejo se gabava de ganhar “muito dinheiro” para encontrar irregularidades cometidas por políticos catalães e revelá-las ao governo espanhol em um momento em que um conflito secessionista parecia ganhar força. Essa alegação é agora parte de uma investigação nos tribunais espanhóis para determinar se o antigo governo conservador também tentou difamar seus adversários do partido Podemos, de esquerda.

O Podemos entrou no parlamento em 2015, demolindo o sistema de dois partidos. Na época, a mídia espanhola publicou artigos revelando que o partido e seu fundador, Pablo Iglesias, recebiam financiamento ilegal com dinheiro iraniano e venezuelano, citando um relatório confidencial da polícia.

“Villarejo parece ter integrado um círculo de pessoas que acreditavam estar em posições privilegiadas, podendo ganhar muito dinheiro e se beneficiar da completa impunidade", disse Iñigo de Barron, jornalista do El País. “Quero saber o quão perto do topo esse sistema ilegal chegava.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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