Gravidez de celebridades torna-se um grande negócio
Janet Manley, The New York Times – Life/Style

13 de abril de 2021 | 05h00

O ano de 1948 proporcionou ao mundo um dos grandes não-anúncios da história: um comunicado um tanto ambíguo do Palácio de Buckingham de que Elizabeth – ainda princesa na época – não assumiria nenhum compromisso público depois do final de junho”. Nenhuma palavra a respeito da sua gravidez do primeiro filho, o príncipe Charles.

Nas décadas seguintes, as coisas tornaram-se um pouco mais explícitas – e lucrativas. A notícia de que uma personalidade pública está grávida muitas vezes vem diretamente da fonte, em um post que poderia também ser um #ad.

Os parceiros mais óbvios em termos de marca nesta área são os fornecedores dos testes de gravidez. A Clearblue trabalhou com mais de 70 celebridades e influenciadores que apoiam os seus produtos desde 2013. A First Response patrocinou anúncios de gravidez, também, como os da cantora Kelis e da dançarina Karina Smirnoff.

Outras companhias, como a Belly Bandit (que vende vestuário para a maternidade), Enfamil (fabricante de leite em pó) e a CBR (companhia que tem um banco de cordões umbilicais), também fazem acordos com celebridades a respeito da gravidez e de outros eventos históricos do gênero.

Quando Audrina Patridge de The Hills anunciou a sua gravidez no Twitter em 2015, suas palavras foram acompanhadas por uma foto que lembrava um anúncio de sabão para lavar a roupa do início dos anos 50: com um sorriso agradável, o produto (um teste de gravidez da Clearblue) posicionado em diagonal com os olhos brilhantes da modelo e, evidentemente, alguns exemplares para imprimir bem a mensagem (#bebeacaminho).

“Foi uma maneira muito inteligente, fácil de anunciar ao mundo e mostrar para todo mundo ao mesmo tempo que você está grávida, porque o teste mostra que você está grávida. Você o está segurando”, disse Patridge. (No entanto, pareceu confundir o seu colega de reality, Spencer Pratt, como se não tivesse certeza se o post era uma publicidade ou um anúncio pessoal. Hoje, sabemos que os anúncios da chegada do bebê de uma celebridade podem ser ambas as coisas.)

Iskra Lawrence, uma modelo britânica com quatro milhões de seguidores no Instagram, contou à sua equipe administrativa que tinha visto posts de anúncios pagos e também estava interessada em fazer algo assim. Ela compartilhou a notícia no final de 2019 com a First Response e doou US$ 20 mil – a maior parte do que recebeu, diz – a duas seguidoras inférteis; na época, a mensagem foi como uma bomba de Relações Públicas, um anúncio e uma campanha de conscientização.

A quantidade de exposição que uma marca conseguirá com o patrocínio de um anúncio de gravidez é “exponencial”, segundo Sarah Boyd, vice-presidente da Socialyte, que é corretora de negócios de marketing para influenciadoras e celebridades. O pagamento depende da “sua fama e relevância na época”, afirmou, e provavelmente diminuirá depois do primeiro filho. Sarah calculou que uma pessoa como Kylie Jenner pode pedir mais de US$ 1 milhão.

Mas para muitas estrelas, a decisão de postar uma mensagem como esta está repleta de questões sobre controle, influência, leis trabalhistas e privacidade.

“As pessoas querem cada vez mais de você”

Esta parceria com as marcas reforça a ideia da maternidade definida pelo consumo e pelo gasto, afirma Renée Cramer, professora de direito, política e sociedade na Drake University, e autora de Pregnant With the Stars: Watching and Wanting the Celebrity Baby Bump.

No livro, ela explica como as mães que são celebridades se tornam “exemplos patrocionados de como as pessoas comuns podem e devem viver”. Quando vemos uma celebridade segurando determinada marca de teste de gravidez ou de fraldas, Cramer disse em uma entrevista, a imagem lembra “às pessoas comuns que esta marca deveria estar presente no quarto do seu bebê, mesmo que não haja nenhuma razão para isto”.

Ellis Cashmore, professor visitante de sociologia da Aston University de Birmingham, na Inglaterra, e autor de Kardashian Kulture: How Celebrities Changed Life in the 21th Century, observou que as celebridades já licenciaram os seus nomes para linhas de perfumes, tornaram as próprias vidas em aplicativos de smartphones e venderam o seu tempo a aplicativos como o Cameo. “É lógico imaginar que elas  estejam transformando uma vida em fonte de ganhos antes mesmo que ela se torne uma vida”, falou.

Nicole Polizzi, que se tornou famosa como Snooki no programa da MTV Jersey Shore, observa que a maré muda para as celebridades que se encontram neste momento de sua vida pública. Ela anunciou a sua primeira gravidez em 2012 na capa da revista People. “Na época, foi um tremendo negócio”, ela disse. “No terceiro, você decide: Tudo bem, vamos postar no Instagram. Pronto”.

O público, outrora achavam que as mamães celebridades exageravam com a publicidade. Agora, as fãs querem saber o sexo, o nome, a data prevista. Paparazzi ficam na porta da maternidade. Em um mundo que está sempre de olho em uma gravidez, a celebridade tem duas opções, segundo Cramer: “Posso tentar controlar a imagem, ou posso lucrar de alguma maneira”.

Bebês são caros, afirmou a atriz Danielle Brooks (mais conhecida por seu papel em Orange Is The New Black), que ficou feliz em anunciar com a Clearblue sua gravidez ao mundo no final de 2019. “Você precisa fazer o que é certo para a sua família”.

Há também a pressão enquanto você é uma figura on-line para “continuar criando conteúdo” a fim de criar o seu exército de seguidores, disse Lawrence, a modelo. Depois do parto, ela afirmou que se viu diante de um dilema entre querer estar presente com o seu bebê e pensar: “Será que eu deveria pegar isto?”

“As pessoas querem cada vez mais de você”, disse a escritora e atriz Jenny Mollen, casada com o ator Jason Biggs. Ela falou do vazamento da bexiga depois do parto, o mal de Graves, do Botox e de sua placenta; anunciou a segunda gravidez com uma companhia de produtos para bebês em um negócio de cinco dígitos, contou.

Para Cramer, este constante compartilhamento é um trabalho de interpretação dobrado. “A celebridade não só tem o trabalho da reprodução e dos cuidados do bebê com a maternidade, como também faz uma representação desta identidade para as seguidoras.

Mesmo as celebridades que não revelam a própria gravidez devem montar toda uma estratégia para ter o bebê. No dia 26 de agosto do ano passado, a Unicef anunciou o nascimento do filho de Katy Perry e Orlando Bloom no Instagram. (Katy havia anunciado a gravidez em um vídeo musical.) Ela repostou o link da Unicef: mais de 5,5 milhões de pessoas gostaram do seu post.

 

O privado torna-se público

Mulheres grávidas, famosas ou não, precisam decidir o momento mais apropriado para o anúncio. Em geral, costuma-se esperar até pelo menos a 12ª semana antes de revelar uma gravidez, embora um aborto no segundo ou no terceiro trimestre ainda seja possível. Quando uma gravidez anunciada publicamente não chega ao fim, transforma-se em uma história ainda maior, disse o dr. Cashmore.

Takiema Bunche-Smith acordou em sua casa no Brooklyn no dia 1º de outubro e recebeu várias mensagens de amigas alertando-a de que poderia encontrar a mídia social conturbada naquele dia. Chrissy Teigen acabara de postar fotos mostrando o aborto de se terceiro filho com John Legend, e a sua rede social estava abarrotada de mensagens de simpatia e de críticas.

O primeiro filho de Takiema nasceu morto na 37ª semana e dois dias em 2003; na época falar em aborto era tabu. Ela achou a mensagem de Chrissy muito forte. “As fotos eram impressionantes, doces e amargas ao mesmo tempo, um exemplo mito claro do que cada uma de nós pode experimentar”, ela comentou. (Chrissy contou em um artigo na Medium que as respostas que recebeu das seguidoras foram extremamente carinhosas, e a ajudaram a superar um momento impossível.)

 

“A gente tem medo de abalar outras mulheres grávidas, teme que o seu aborto afete estas mulheres”, afirmou Georgina Brackstone, designer de joias de 40 anos que perdeu a primeira filha com 33 semanas de gravidez, há nove anos. Ela disse que pessoas públicas como Chrissy “permitiram que pessoas como eu falassem das próprias experiências”.

Elizabeth Gress, uma cabeleireira de Los Angeles que teve vários abortos e perdeu o seu bebê sete semanas após o nascimento, disse que não há uma data “segura” para o anúncio. Ela está no meio de uma gravidez e disse: “Desta vez decidimos comemorar cada dia”.

Em situações em que há complicações no parto, dificuldade para amamentar, problemas perinatais e ansiedade, ou vazamento da bexiga, as celebridades agora se mostram mais inclinadas a compartilhar isto também, na esperança de que a sua experiência ajude outras mulheres.

“Se elas fazem um serviço público, ou acreditam estar fazendo, falando de um produto, sempre haverá mulheres que se beneficiarão com a sua mensagem,  seja ela paga ou não”, disse Cramer.

Acredita-se que  compartilhar também beneficia a autora, algo que Mollen começa a contestar. “Quanto mais nos damos aos outros, mais somos recompensadas por isto, mas este caminho é escorregadio", afirmou. “Tudo é representação, mesmo que você esteja dizendo: ‘Isto é real. Esta é a minha vida real'”.

Em abril do ano passado, Iskra Lawrence comemorou a gravidez do filho com o parceiro, Philip Payne, executivo da área de música. Quando as seguidoras quiseram saber a respeito do seu parto na água, ela compartilhou um vídeo. "Me pareceu importante", afirmou.

Agora, ela não tem tanta certeza disto, ao pôr tudo no Instagram. “Quero ter mais controle sobre a minha vida, o meu futuro e a minha carreira”, afirmou. “Parece uma coisa instável colocar tudo isto na rede social”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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