Amber Bracken / The New York Tiems
Amber Bracken / The New York Tiems

Indígenas grávidas não precisam mais cruzar centenas de quilômetros para dar à luz no Canadá

Cerca de três entre quatro gestantes da aldeia Inukjuak agora realizam o parto na clínica local; antes, serviços de saúde eram limitados na região

Amber Bracken e Megan Specia, The New York Times

16 de janeiro de 2020 | 06h00

INUKJUAK, QUEBEC – Os gemidos da mulher se mesclavam ao bip do monitor do batimento cardíaco fetal. A parteira fazia o parto no Inuktitut. Finalmente, ouviu-se o choro de um recém-nascido, um lembrete das reivindicações das parteiras inuit -  o direitos das mulheres de dar à luz em suas cidades.

Enquanto o Canadá tenta corrigir sua história de brutalidades para com a sua população indígena, os moradores de Inukjuak, uma remota aldeia de cerca de 1.800 habitantes, apontam para a clínica como um exemplo de progresso. Hoje, cerca de três entre quatro mulheres grávidas da aldeia dão à luz na clínica local. “Eu me sinto aliviada por poder dar à luz em casa, perto da minha família”, disse a mãe, Susie Mina.

Durante inúmeras gerações, os inuits da região de Nunavik, no norte de Quebec, viveram como nômades, e se deslocaram pela paisagem varrida pelos ventos seguindo as manadas que caçavam. Mas nos anos 50, o governo canadense pressionou as famílias a se estabelecerem em comunidades permanentes.

Em muitas remotas áreas inuit, o serviço nacional de saúde também começou a pressionar as mulheres grávidas a viajarem centenas de quilômetros ao sul para dar à luz em hospitais. O motivo alegado para a prática, inaugurada no início dos anos 70, era melhorar as taxas de sobrevivência nas comunidades que não dispunham de hospitais e onde os cuidados pré-natais eram limitados.

Privação de métodos tradicionais

No entanto, para muitas, a medida as privava do cuidado dos métodos tradicionais. Elas passavam semanas longe da família para dar à luz em ambientes desconhecidos, assistidas por médicos que não falavam sua língua mãe.

Em 1986, os anciãos locais convenceram um hospital da região a começar o treinamento de mulheres inuit para a função de parteiras. Em pouco tempo, na costa da Baía do Hudson surgiram três clínicas.

Em 1996, uma delas foi inaugurada em Inukjuak, que hoje é uma localidade com algumas centenas de domicílios, três armazéns, uma agência dos correios e alguns outros edifícios ligados por estradas de cascalho.

A volta dos nascimentos trouxe uma renovação, disse Simonie Nalukturuk, o prefeito. Em outros tempos, os recém-nascidos eram saudados pelos membros da comunidade. “Acho que nós até esquecemos como comemorar o nascimento dos nossos irmãozinhos e irmãzinhas”, disse. Agora, para festejar cada chegada, a clínica liga a iluminação intermitente do Natal.

Método prejudicial

Brenda Epoo, de 49 anos, uma parteira da clínica que ajudou a dar à luz a centenas de crianças, disse que a prática anterior era prejudicial. “Falar a todas elas que cada gravidez é perigosa e depois mandá-las para outro lugar – para um hospital onde as pessoas não conhecem os seus costumes, a sua cultura, ao seu modo de vida – não está certo”, afirmou. “Não é uma doença, é vida.”

A clínica tem cinco parteiras e três em treinamento que monitoram as mulheres ao longo de toda a gravidez. Elas aprendem a fazer intervenções médicas de emergência. Somente as futuras mães consideradas de alto risco são transferidas para o sul, com o seu consentimento.

Em toda Nunavik, nascem anualmente cerca de 200 crianças com a ajuda de parteiras. Segundo estudo da Universidade McGill, nos últimos anos da política de transferência para um hospital, a taxa de mortalidade chegou a ser três vezes superior à do mesmo período em Montreal. Os últimos dados de 2000 a 2015 mostram que nas aldeias Nunavik a taxa foi de 7,7 por mil nascimentos em comparação com 5,8 no Canadá como um todo.

Susie Mina teve o primeiro filho em Montreal. Suas gravidezes posteriores, assistida por parteiras em Inukjuak, foram diferentes. “Eu me senti mais confortável dando à luz aqui porque não precisei falar inglês”, justificou.

Depois do parto, Susie entregou o bebê à sua mãe, Lilly, que teve todos os seus filhos no sul. As lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto apertava no peito o seu novo neto. “Eu me sinto muito grata por eles poderem nascer aqui”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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