Jens Schlueter/EPA, via Shutterstock
Jens Schlueter/EPA, via Shutterstock

'Pânico climático' de Greta Thunberg é necessário, mas não suficiente

Greta disse ao mundo para "entrar em pânico”, mas medo desmedido pode criar geração convencida que nenhum tipo de ação tem sentido

Jochen Bittner, The New York Times

14 de setembro de 2019 | 06h00

As palavras que mais denotam um país são frequentemente aquelas impossíveis de traduzir. No caso da Alemanha, uma dessas palavras é “Zweckpessimismus”. Significa mais ou menos "pessimismo de propósito" - a atitude de esperar pelo pior para ser capaz de sentir alívio quando o pior, sorte nossa, não ocorrer.

As pessoas que demonstram Zweckpessimismus são frequentemente desagradáveis. Elas tendem a acabar com a graça das conversas com sua postura de “o que puder dar errado dará errado”. Mas os Zweckpessimistas, na maioria dos casos, têm razão, como os pais que alertam seus filhos a respeito de comportamentos estúpidos.

No ano passado, ocorreu o contrário: o movimento Fridays for Future, que é composto e liderado por jovens, se define pelo “pessimismo de propósito” em relação às gerações anteriores e seu papel nas causas da mudança climática. O Fridays for Future surgiu um ano atrás, a partir dos protestos de uma adolescente sueca, Greta Thunberg, e seus ruidosos alertas sobre o iminente eco-apocalipse, que atravessaram o Norte da Europa e são particularmente intensos na Alemanha. Em junho, 500 estudantes deram as mãos em torno do Reichstag, em uma tentativa de impedir os legisladores de sair para seu recesso de verão.

É tão fácil quanto equivocado ridicularizar este movimento. O jovens não têm apenas o direito de serem moralmente rigorosos: têm o dever de sê-lo. Com a idade vem a rotina intelectual - e com a rotina intelectual, a complacência e a cegueira operacional. Frequentemente é necessário o olhar perplexo de um novato para constatar e romper os impasses sociais e psicológicos da sociedade - seja em marchas contra guerra em Washington, meio século atrás, ou em protestos ambientalistas em Estocolmo e Berlim hoje.

Enquanto membro de uma geração anterior, fico agradecido por essa nova energia jovial. Mas, correndo o risco de soar como um pai dando sermão, ofereço um conselho: Zweckpessimismus tem limite. Também precisamos de otimismo. Sem otimismo, nossos alertas constantes correm o risco de se tornar uma rotina complacente.

Na Alemanha, pelo menos, a mensagem do Fridays for Future foi recebida e compreendida. Hoje não há nenhum partido político sério e nenhuma empresa responsável que não tenha tornado, recentemente, o clima uma prioridade - e não há dúvida que este movimento é também responsável por essa grande transformação. Falta de conscientização não é mais o problema.

O problema real da Alemanha, que impede o caminho de uma transformação real, é mais profundo: a falta de confiança no poder do espírito humano e da tecnologia. É precisamente a respeito destes pontos que os jovens têm de fazer seu próximo esforço - mas é também onde precisamos nos esforçar para ajudá-los.

As sociedades precisam de jovens moralmente rigorosos, mas também precisam de jovens dispostos a correr riscos e tentar o impossível. Greta Thunberg disse ao mundo para "entrar em pânico”. Mas o medo desmedido pode, em si, ser paralisante e criar uma crescente geração convencida que nenhum tipo de ação tem sentido.

O pessimismo aflige, é claro, não somente os jovens. Em abril, pesquisadores do renomado Allensbach Institute publicaram um estudo devastador demonstrando que a porcentagem de alemães que acreditam no progresso atingiu o menor índice em cinco décadas. Indagados se consideravam que “a humanidade está a caminho de um futuro melhor”, somente 32% responderam que sim, acreditavam no progresso. 

Espantosos 39% afirmaram que pesquisas científicas que coloquem seres humanos em risco, mesmo que baixo, devem ser proibidas. É impressionante: se os alemães descobrissem o fogo amanhã, mais de um terço deles se apressaria em apagar essa assustadora nova fonte de calor e luz. Eles poderiam se queimar!

E mais. Ao longo dos últimos dois anos, o número anual de startups diminuiu em 100 mil. Sarna Röser, diretora de uma associação de jovens empreendedores, afirma que seus pares estão enfrentando problemas para encontrar o capital de investimento alemão. “Os alemães estão se tornando, definitivamente, mais avessos ao risco”, disse Sarna.

Se alemães de todas as idades estão cada vez mais pessimistas, então é mais importante ainda que os mais jovens entre eles se movam para além do pânico para prover visões e soluções construtivas. Os jovens alemães têm de considerar o seguinte: eles querem viver em um país que é evitado por investidores e ficar para trás em relação aos avanços tecnológicos envolvendo a mudança climática? Ou eles vislumbram uma Alemanha que utiliza sua riqueza e potencial intelectual para se tornar um país pioneiro nos esforços para enfrentar a mudança climática com todo e qualquer meio que a genialidade humana seja capaz de produzir?

Aeronaves movidas a hidrogênio e carros com emissão zero podem ter soado como ficção científica uma década atrás. Hoje, aparecem como opções sérias. Mas torná-los realidade vai exigir investimento, pesquisa, disposição para correr riscos e, sobretudo, otimismo. Os méritos do movimento Fridays for Future com certeza não serão esquecidos. Agora é hora de todos se sacudirem para encarar o trabalho. Não permita que sua juventude seja desperdiçada com sua angústia.

Jochen Bittner é codiretor da seção de debates do jornal semanal Die Zeit. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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