Adriana Loureiro Fernandez para The New York Times
Adriana Loureiro Fernandez para The New York Times

Grupo indígena foge da ruína na Venezuela

No deserto da Colômbia, a chegada de migrantes sobrecarrega os recursos locais

Nicholas Casey, The New York Times

07 de agosto de 2019 | 06h00

PARENSTU, Colômbia - Eles viveram da terra por centenas de anos, antes da fundação da Venezuela ou da Colômbia. Os Wayuu, um grupo indígena de pastores, sobreviveram a guerras, levantes, revoluções e até mesmo à separação com a criação de fronteiras nacionais.

 Para os wayuu que vivem na Venezuela, o ponto de ruptura ocorreu com a devastação econômica no governo de Nicolás Maduro e as sanções americanas impostas a ele. Enquanto o país mergulhava na ruína econômica, eles começaram a partir a pé rumo à Colômbia - na esperança de encontrar um lar junto a seus irmãos.

Mas aqui em Parenstu, o seu plano deu errado. Os wayuu da Venezuela chegaram com filhos famintos e desnutridos, as costelas finas visíveis depois de anos de devastação econômica. Sua chegada causou tamanha tensão em seus parentes colombianos, igualmente pobres, que causou um conflito. As crianças de ambos os lados estão famintas, algumas morrem de desnutrição.

Pelo menos quatro milhões de venezuelanos fugiram do seu país nos últimos anos, forçados pela fome, pela hiperinflação e por implacáveis perseguições políticas. Este fluxo humano pesa sobre os anfitriões, que estão dilacerados entre o desejo de ajudar e o instinto de proteção dos próprios recursos. Os novos migrantes levaram ainda para a Colômbia o sarampo e a malária.

Os wayuu buscaram refúgio no Deserto de Guajira, na Colômbia, um lugar desolado onde a eletricidade nunca chegou a muitas aldeias, nem a água encanada. Uma seca que dura cinco anos provocou longas temporadas de fome.

A líder dos Parenstu, Celinda Vangrieken, disse que viu com simpatia a chegada dos refugiados, mas embora eles fossem o seu povo, não eram do seu sangue. ‘Eles disseram: ‘Somos wayuu, somos daqui, como vocês’ ”, contou. “Mas esta não é a terra deles”.

Recentemente, uma criança com erupção cutânea gritava. Vomitou sangue, disse a mãe, Andreina Paz,  e ela perdeu um quilo nas últimas semanas. Andreina, 20, cruzou a fronteira depois que as filhas da vizinha morreram. Agora, ela temia que a sua também fosse morrer na Colômbia.

Celia Epinayu enterrou o filho de dez meses, Eduardo, em fevereiro.  Ela é colombiana, mas com a chegada dos venezuelanos, a comida ficou escassa e ela não teve como alimentar seus cinco filhos.

“É o medo de todos nós, que esta terra não possa alimentar a nós todos”, disse Guillermo Ojeda, um putchipu’u, ou mediador wayuu. Entretanto, afirmou, os venezuelanos precisam ser aceitos, mesmo que isto implique em riscos para todos.

Celinda Vangrieken, 72, lembra do dia em que um grupo de wayuu venezuelanos chegou à sua terra com uma pequena caixa contendo os ossos dos seus familiares.

Pela tradição wayuu, vinte anos depois da morte de uma pessoa, os membros da família voltam ao cemitério e abrem o túmulo, limpam os ossos e voltam a enterrá-los em um local de onde acreditam que os seus ancestrais saíram. Os parentes do defunto também reclamam a terra onde os seus restos mortais foram novamente sepultados.

Celinda disse que a possibilidade de uma migração em massa jamais passara pela sua cabeça. Era 2009 e a Venezuela era um país próspero. Mas, no ano passado, começaram a aparecer migrantes. Alguns vinham de cidades e não falavam o wayuunaiki, a língua nativa. À medida que a tensão foi crescendo, Celinda pediu paciência ao seu clã, afirmando que, como wayuu, os recém-chegados deviam ser tratados como iguais.

Milcidi Palmar, uma refugiada wayuu venezuelana de 32 anos, contou que  sua filha mais nova, Mayerli, adoeceu no ano passado. Ela a levou para um hospital venezuelano, que a mandou embora sem nada para controlar a febre. Mayerli morreu. Pouco depois, a outra filha de Milcidi, Wendy, também caiu doente e morreu.

A história é um pesadelo para Yadira Martínez, a filha de Celinda. Ela vive na terra reivindicada por Milcidi e o marido. Yadira fazia carvão para vender - usando árvores consideradas sagradas em Parenstu. Yadira lembra que, quando criança, brincava no meio daquelas árvores. Ela se sente dividida entre a saudade e a simpatia por uma mãe da sua nação.

“Quer comprar carvão?”Milcidi perguntou, para quebrar a tensão. As mulheres riram um pouco sem graça. Perto do pôr do sol, Celinda e Yadira foram ver um poço. Estava seco, mas Celinda  lembrou de uma menina que caiu lá dentro e morreu afogada dezenas de anos antes.

“Como é possível que falem que esta terra não é nossa?” disse Yadira depois que sua mãe acabou de contar a história. “É aqui que nós derramamos o nosso sangue”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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