Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Grupos contrários à vacinação perdem mais uma batalha

Líderes islâmicos, judeus e do Vaticano atestaram que as vacinas não infringem preceitos religiosos

Donald G. McNeil Jr., The New York Times

10 de maio de 2019 | 06h00

A epidemia de sarampo nos Estados Unidos é a maior desde que a doença foi declarada eliminada há 19 anos. O retorno deste flagelo foi provocado pela desinformação. Juntamente com os boatos de que as vacinas causariam autismo ou que os vestígios de mercúrio e alumínio que elas contêm são perigosos - declarações falsas que foram desmentidas - começaram insinuações visando pais religiosos.

A vacinação é apoiada por estudiosos judeus e islâmicos e pelo Vaticano. Autoridades religiosas analisaram meticulosamente o processo de produção das vacinas e seu conteúdo e determinaram que elas não infringem as lei judaica, islâmica ou católica.

Embora nenhuma vacina esteja isenta de efeitos colaterais, a imunização constitui um dos maiores avanços da medicina. A Organização Mundial da Saúde calcula que as vacinas salvaram mais de 10 milhões de vidas somente na última década.

"Como está provado que as vacinas são eficientes na prevenção da difusão da doença, vacinar os filhos é uma obrigação de todo pai", afirmou em carta aberta o rabino Moshe Sternbuch, vice-presidente do Tribunal Rabínico em Jerusalém.

As vacinas são extremamente purificadas, mas ainda podem conter células isoladas ou traços de DNA das células humanas ou animais em que foram cultivadas. Elas incluem linhagens celulares originalmente derivadas de macacos ou de rins de cachorros, lagartas e mariposas, sangue de bezerro, ou os tecidos imaturos de fetos humanos abortados.

Os ingredientes mais obscuros da vacina do sarampo tornaram-se um problema para alguns judeus ortodoxos. O Manual de Segurança da Vacina, publicado pelo grupo Peach, que é contrário às vacinas, inclui ingredientes de vacinas derivados de animais que os judeus são proibidos de consumir. Mas leis dietéticas kosher são "de total irrelevância" no que diz respeito às vacinas, de acordo com Naor Bar-Zeev, professor de saúde internacional e ciência das vacinas da Faculdade de Saúde Pública Johns Hopkins de Maryland. "Todas essas leis complexas se aplicam aos alimentos ingeridos pela boca e de modo algum relevantes para o material injetado".

Os ingredientes das vacinas não são apenas um problema entre os judeus ortodoxos. Como o Islã também proíbe o consumo de carne suína, os alarmes em relação à gelatina e ao DNA viral suíno impediram a vacinação em alguns países muçulmanos. Em 1995, um grupo com 112 dos principais estudiosos islâmicos avaliou muitas substâncias ingeridas e aprovou o uso de gelatina suína em medicamentos.

Mas os ingredientes não são o foco principal da opinião do rabino Sternbuch. Ele citou o princípio do pikuach nefesh, que afirma que, para salvar uma vida ou impedir um dano permanente, é permitida qualquer transgressão à lei judaica, com exceção de idolatria, incesto ou assassinato. As vacinas são feitas com vírus, que são cascas de proteínas contendo breves pedaços de DNA ou RNA, e podem se multiplicar somente quando cultivadas em células vivas. Estas células devem ser "imortais" - capazes de replicar por dezenas de anos sem envelhecer. Além disso, as células devem estar isentas de câncer e vírus, e é por isso que as células ancestrais provêm de fetos que nunca foram expostos a patógenos.

Em 2005, o Vaticano declarou que as vacinas crescidas nestas células continuavam a representar problemas éticos. Para a instituição, os católicos precisam escolher vacinas alternativas, caso existam, e pressionar fabricantes a produzir alternativas. Não obstante, como não existem alternativas, o Vaticano determinou que o uso das vacinas atuais "moralmente justificado" pela necessidade de proteger crianças e mulheres grávidas.

Mórmons, episcopais, luteranos e muitas outras denominações cristãs apoiam as vacinas e exigem que sejam aplicadas em escolas e distribuídas em seus hospitais missionários. Entre os budistas, o Dalai Lama deu pessoalmente vacinas contra a pólio a crianças. Um dos primeiros relatos de variolação - uma forma antiga de prevenção da varíola - foi sobre uma freira budista do século 11, que soprava cascas de varíola moídas no nariz de seus pacientes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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