Nadia Shira Cohen/The New York Times
Nadia Shira Cohen/The New York Times

Volta dos guardas de trânsito à Piazza oferece uma alegria improvável em Roma

Embora os motoristas sejam conhecidos por dirigirem de modo caótico, a volta dos guardas de trânsito no cruzamento foi recebida por muitos como um sinal de normalidade numa época difícil

Elisabetta Povoledo, The New York Times - Life/Style

26 de março de 2021 | 05h00

ROMA – Se todos os caminhos levam a Roma, como diz a expressão, então eles se cruzam na Piazza Venezia, no centro da capital italiana, fiscalizado por um guarda de trânsito instalado num pódio que coordena a circulação de carros em meio ao caos automotivo. Para muitos romanos e turistas, esses controladores do tráfego são um símbolo da Cidade Eterna, como o Coliseu ou o Panteão.

Isto explica porque o retorno do pedestal (e do guarda de trânsito) depois de uma pausa de um ano. enquanto a praça vinha sendo pavimentada. desencadeou um frenesi na mídia – mesmo com pouco trânsito para ser controlado devido ao lockdown geral que começou para conter um recrudescimento de casos de covid-19.

“Neste período difícil, isto foi visto como sinal de alguma coisa retornando ao normal”, disse Fabio Grillo, 53 anos, que, com 16 anos no comando, é o membro mais antigo da equipe de quatro ou cinco guardas municipais que controlam o tráfego a partir do pódio na Piazza Venezia.

Sob chuva ou granizo, suando nos verões escaldantes de Roma, os guardas há muito tempo orientam o trânsito da Piazza Venezia perto da entrada da Via del Corso, uma das ruas principais da cidade. E os gestos que fazem com as mãos cobertas com luvas brancas é algo que todos os motoristas italianos devem memorizar quando fazem seu exame de habilitação. (Nota importante: as duas mãos com as palmas direcionadas para os motoristas equivalem a sinal vermelho).

“Isto se compara a conduzir uma orquestra”, disse Grillo.

À parte o trânsito regular, a Piazza Venezia é também um entroncamento de ruas que leva à prefeitura, o Parlamento, o palácio presidencial italiano e um monumento nacional que os chefes de Estado que visitam o local regularmente prestam homenagens, e tudo isto contribui para o caos do centro.

“Esta praça é o epicentro aórtico do país”, disse Angelo Gallicchio, 62 anos, que tem uma banca de jornal na praça desde 1979. “Toda pessoa importante que vem a Roma tem de passar pela Piazza Venezia – não pode evitar”.

Durante muitos anos, a guarda de trânsito foi dirigida por Mario Buffone, cujas três décadas no pódio – o que o tornou uma das figuras mais reconhecíveis da cidade – foram imortalizadas num livro. Ele se aposentou em 2007. “Ele era um ícone para nós”, disse Grillo.

Giuseppe Battisti, 47 anos, que ocupou o pódio por 12 anos, disse que tudo o que é exigido para exercer bem o trabalho é paixão “e um pouco de elegância”.

Embora os sinais de trânsito estejam no código de conduta do motorista, “todo agente os personaliza”, afirmou.

A elegância de Pierluigi Marchionne no pódio – seus gestos lhe renderam um “Ele é Belíssimo! Maravilhoso!”, de um transeunte na quinta-feira – provavelmente chamou a atenção de Woody Allen quando ele buscava locações para seu filme Para Roma com Amor, de 2012. Ao ver Marchionne em ação, ficou tão encantado que reescreveu o roteiro para colocá-lo no filme.

Mas essa afeição por esses guardas de trânsito provoca algumas críticas também. A imagem da guarda municipal, da qual eles fazem parte, ficou manchada nos últimos anos por investigações sobre possíveis irregularidades, como fechar os olhos para construções ilegais e recebimento de propina.

Uma história sobre as forças de polícia municipais na Itália postada no site de uma associação nacional liga suas origens aos guardiães de um templo romano do século V antes de Cristo, durante o reinado do Imperador Augusto.

Hoje, a Piazza Venezia tem o único pedestal de trânsito que restou na cidade. “Ele faz parte da arquitetura da praça”, disse Gallicchio, o dono da banca de jornal. Inicialmente, os pódios eram de madeira e os guardas os carregavam para os cruzamentos.

Num dado momento, foi instalado um de cimento, iluminado pelo refletor de um prédio vizinho à noite, quando nenhum guarda estava em função.

O refletor não ajudava "porque os motoristas continuaram batendo no pedestal”, disse Grillo. Assim, em 2006, ele foi substituído por um mecânico que é levantado dos paralelepípedos para receber os guardas que chegam ao trabalho.

Agora, com a reforma da praça concluída este ano, os guardas dizem que estão ansiosos para retornar ao trabalho que adoram e, esperam, se tornarem novamente o foco das câmeras dos turistas, quando a pandemia acabar.

“Não somos, talvez, tão famosos como a Fonte de Trevi, mas somos uma atração turística”, disse Battisti. “Aposto que há fotos nossas até na Coreia do Norte”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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