Antonio Rojas / The New York Times
Antonio Rojas / The New York Times

Guatemaltecos recorrem a empréstimos para viagem aos EUA

Os mais desesperados pedem dinheiro emprestado a bancos sob falso pretexto

Emily Kaplan, The New York Times

22 de novembro de 2019 | 06h00

SANTA LUCÍA UTATLÁN, GUATEMALA —O funcionário do governo guiou o representante do banco pelo terreno deste vilarejo rural na Guatemala, descrevendo a casa dos sonhos que ele imaginava erguida a partir daquela terra. Apontou para onde ficariam a cozinha e os quartos. Tudo que ele precisava era de um empréstimo do banco.

Na verdade, ele buscava dinheiro para pagar um contrabandista que o levaria aos Estados Unidos. O banco em questão, Banrural, uma das maiores instituições financeiras da Guatemala, aprovou um empréstimo para a construção no valor de aproximadamente US$ 5.700. Dias depois, o homem cruzou a fronteira sudoeste dos EUA com a ajuda de um contrabandista.

Essa é “a maneira mais fácil de se alcançar o sonho americano", disse o homem de 30 anos, que agora vive em Nova York e trabalha na construção civil. Ele só permitiu a publicação do nome do meio, Yovany, por medo de alguma retaliação.

Nos anos mais recentes, a Guatemala observou uma emigração recorde. Parte da população foge da violência, e outros buscam uma saída da pobreza, rumando para o norte até o Estados Unidos.

Alguns captam o dinheiro cobrado pelos contrabandistas com parentes. Para outros, a saída está nos empréstimos bancários. Os imigrantes pobres pedem empréstimos oferecendo suas terras como garantia, assumindo fardos que se tornam pesados demais para muitos, levando ao endividamento e ao desespero.

Dentro desse ecossistema, nenhuma entidade ocupa um papel mais central (nem lucra tanto) quanto o Banrural, instituição privada e ligada ao governo da Guatemala. Suas fachadas verdes e brancas brotaram por toda parte. Muitos imigrantes tomaram empréstimos do Banrural sob falso pretexto para pagar o custo de suas viagens, de acordo com imigrantes, funcionários do governo, contrabandistas, acadêmicos e um ex-funcionário do Banrural.

Alguns, como Yovany, alegam a intenção de construir em suas propriedades. Outros dizem que vão comprar maquinário agrícola. “A imigração ilegal da zona rural guatemalteca não seria possível sem o Banrural", disse o professor David Stoll, da Middlebury College, em Vermont. “O Banrural é o financiador de facto da imigração para os EUA.”

Funcionários do Banrural disseram que o banco é uma instituição que respeita a lei, dedicada ao desenvolvimento do interior rural da Guatemala, sem nenhuma cumplicidade no eventual uso equivocado dos empréstimos concedidos.

Farsa jurídica

Alguns guatemaltecos pobres carecem de garantias ou boas relações necessárias para obter um empréstimo. Assim, recorrem a um submundo de credores privados e não regulamentados que cobram juros abusivos.

Em um processo do tipo, o solicitante entrega uma escritura ao credor em troca do empréstimo. Em uma espécie de farsa jurídica chamada “simulação", os dois visitam um cartório e declaram que o solicitante vendeu a terra ao credor. O credor devolve a terra em outra simulação se o endividado quitar o valor emprestado. Caso contrário, a terra se torna propriedade do credor.

Mas, às vezes, é estabelecido um pacto entre solicitante e credor, sem a mediação de um cartório, e o sucesso do negócio depende da palavra dos envolvidos. Mas os moradores dizem que os credores costumam recorrer a ameaças de violência para garantir que os pagamentos sejam feitos no prazo.

Um imigrante vindo de Sololá, morando atualmente em Nova York, disse ter pago a um contrabandista US$ 12.000 em recursos obtidos com um credor. Ele ainda deve metade da quantia, e disse que a mulher, que ficou para trás, era constantemente ameaçada como forma de obrigá-lo a pagar.

Na Guatemala, alguns tentam combater a máfia dos empréstimos. Mas essas iniciativas mal conseguem concorrer com o desespero dos imigrantes na sua busca pelo caminho rumo ao norte. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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