Jim Huylebroek para The New York Times
Jim Huylebroek para The New York Times

Depois da guerra, luto e cegueira, poeta se casa, graças à luta da mãe

A guerra no Afeganistão tomou muito da vida do poeta Zaheer Ahmad Zindani. A mãe dele estava decidida a garantir que não levaria a chance de se casar

Mujib Mashal, The New York Times

30 de janeiro de 2020 | 06h00

KANDAHAR, AFEGANISTÃO - O jovem poeta estava sentado na cadeira do barbeiro, de frente para um espelho gigante na parede que ele não podia ver. O poeta era Zaheer Ahmad Zindani, e era a véspera de seu casamento. A guerra no Afeganistão havia tirado muitas coisas dele: a visão, o pai, a irmã, o primeiro amor. Mas ele teve a chance de um novo começo, e estava se preparando para casar com uma mulher que sua mãe encontrou depois de trabalhar incansavelmente na busca.

 

À frente das comemorações do grande dia em dezembro estava sua mãe, Bibi Sediqa. No final da noite, ela e um grupo de mulheres levaram Zindani à noiva para uma tradicional festa de henna. Na noite seguinte, ela estava no banco da frente do carro que levou a noiva para sua nova casa.

 

"Essa foi minha primeira felicidade verdadeira na vida", disse Bibi após o casamento. Ela disse ter se casado com 14 anos. Nos primeiros anos da invasão liderada pelos Estados Unidos, um ataque aéreo americano matou o marido em seu distrito natal de Gereshk, em Helmand. Ela tinha 26 anos e ficou com três filhas e dois filhos para criar. Zindani tinha sete anos.

 

Ao se mudar para Chaman, uma área de fronteira com o Paquistão, ela trabalhava cozinhando e limpando casas paquistanesas para alimentar seus filhos. Então, Zindani se apaixonou por uma amiga de infância. Mas outra tragédia aconteceu. Enquanto Zindani, na época com 17 anos, e a irmã mais nova viajavam para visitar parentes, o ônibus em que estavam passou por cima de uma bomba do Taleban na estrada. A menina morreu carbonizada e Zindani perdeu a visão.

 

"Eles disseram que as terminações nervosas nos olhos ficaram completamente destruídas", disse Bibi. Ela se mudou com a família para a cidade de Kandahar e, por alguns anos, trabalhou como vacinadora contra poliomielite. A família do amor adolescente de Zindani o rejeitou depois que ele ficou cego e decidiu casar a garota com outra pessoa. Mas Zindani estava determinado a provar que a cegueira não era o seu fim. No entanto, convencer qualquer família a casar sua filha com um deficiente visual foi uma tarefa árdua que caiu sobre os ombros de Bibi. Ela bateu em 18 portas, disse Zindani.

 

"Todos diziam: 'Nós concordaríamos alegremente se ele não fosse cego'", lembrou Zindani. "Minha mãe dizia: 'Os olhos dele serão curados'. Eles diziam: 'Volte quando estiverem funcionando normalmente’." Durante seu trabalho como vacinadora, Bibi conheceu Sima, uma mulher de 20 e poucos anos que dava aulas para crianças em sua casa. Bibi começou a gostar de Sima e a conversar com a família dela. Depois de mais de uma dúzia de visitas ao longo de um ano, os pais de Sima disseram que aceitariam o casamento.

A deficiência de Zindani não era um problema, disseram eles, desde que ele tivesse bom caráter e provasse que poderia cuidar de uma nova família. A garantia de Zindani era: ele possuía um cartão de benefícios por invalidez e sua família tinha muitas terras em Gereshk. Uma vez que o Taleban se fosse, eles poderiam fazer uso dessa terra.

 

Os pais de Sima disseram que a filha havia concordado com a proposta. Mas, antes de um acordo final, a mãe e a irmã de Sima foram à casa de Zindani para uma última conversa com o futuro noivo. "Eles queriam ter certeza de que eu seria uma boa pessoa com a filha deles, que respeitaria seus direitos e que não seria abusivo", disse Zindani. "Tanto minha mãe quanto eu dissemos a eles, porque sou deficiente e estão sendo generosos comigo, vamos tratá-la como uma joia preciosa."

 

No dia do casamento, um pequeno comboio de carros partiu da casa de Zindani para a da noiva. Zindani parecia feliz e animado. Ele disse que o que restava de seu antigo amor e do desgosto pelo coração partido agora se limitava à inspiração poética. Ele recitou um de seus mais recentes versos: 

 

Vim a este beco perguntar do meu amor

Perambulo entre ruínas; esperava que ela ouvisse meu suspiro.

Ele disse que estava preso às imagens de sua vida antes de ficar cego. "O amor com os olhos abertos - quando você se apaixona por alguém que já viu - é diferente do amor de olhos fechados", disse Zindani. "Quando você não pode ver a pessoa, a sede não é satisfeita da mesma forma."

 

Quando o comboio voltou à casa de Zindani com a noiva, ele ficou do lado de fora, em um beco escuro, enquanto seus amigos dançavam. "Gostaria de poder ver o que está acontecendo", disse Zindani. "Mas meu coração está feliz." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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