Guerra comercial com os EUA pode deter crescimento da economia mundial

Guerra comercial com os EUA pode deter crescimento da economia mundial

Tarifas à importação de frango aplicadas pela Europa mais de um século atrás são uma mostra dos danos que uma guerra comercial podem causar à economia global

Eduardo Porter, The New York Times

19 Março 2018 | 10h00

Aqui vai um fato pouco conhecido: uma das razões pelas quais a picape Ford Série-F adquiriu tanto prestígio no topo do ranking das vendas de automóveis e caminhões nos Estados Unidos, há mais de 36 anos, teve muito a ver com os frangos.

A história é a seguinte: na esperança de fazer frente ao ingresso maciço dos frangos americanos mais baratos na Alemanha Ocidental, em 1962, o Mercado Comum Europeu triplicou a tarifa sobre as aves para cerca de 30% o quilo. Os EUA contra-atacaram com a imposição de tarifas sobre o conhaque, famosa bebida francesa, e sobre a dextrina e o amido de batatas a fim de atingir os holandeses.

Visando a Alemanha Ocidental, e querendo agradar aos seus amigos do sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística, oneraram a perua comercial da Volkswagen com um imposto de 25% sobre caminhões leves.

Embora as outras tarifas retaliatórias tenham sido levantadas, a dos frangos sobre os caminhões leves - muito mais alta do que as típicas tarifas de 2,5% sobre os automóveis - permanece. Não é mera coincidência que os caminhões leves representem 82% dos veículos vendidos pelas três grandes indústrias de Detroit.

O odor de uma guerra comercial está novamente no ar, mesmo porque o presidente Donald J. Trump impôs tarifas sobre o aço e o alumínio estrangeiros. Acaso será o início de uma conflagração comercial do vale tudo, do olho por olho, que poderá deter bruscamente o crescimento econômico mundial?

É uma possibilidade. Mas este não é o único risco. As novas tarifas causarão danos à economia americana, mesmo que não haja retaliação. Se a história vale como lição, Trump está propondo proteger o país dando um tiro no próprio pé.

O paralelo mais próximo é o que aconteceu em 2002, quando o presidente George W. Bush decidiu que as siderúrgicas nacionais mereciam uma ajuda, e impôs tarifas de 8% a 30% sobre uma variedade de produtos de aço procedentes de diversos países.

As importações dos países afetados despencaram. Mas as de outros países - nas categorias de aço não cobertas pela salvaguarda e de países excluídos protegidos por acordos preferenciais - cresceram. As importações de aço em geral aumentaram 3% nos 12 meses seguintes. O emprego na indústria siderúrgica americana continuou declinando. E, segundo um estudo, na época em que as tarifas foram levantadas, em 2003, o aumento dos preços do aço custara 200 mil empregos nas companhias que utilizavam o aço, mais do que todos os empregos do setor siderúrgico em si.

O presidente Barack Obama fez mais ou menos a mesma coisa. Depois das reclamações sobre o aumento das importações, ele taxou os pneus de fabricação chinesa, embora os fabricantes americanas não produzissem mais o tipo de pneu de baixa qualidade exportado pela China. As importações de outros países subiram 20% depois da imposição das tarifas. E o preço dos pneus importados aumentaram 18% em média. Uma estimativa do custo adicional para os consumidores: US$ 1,1 bilhão, ou cerca de US$ 900 mil para cada emprego salvo na indústria de pneus.

No caso da indústria do açúcar, a proteção montada ao redor da indústria quase a matou. Na esperança de proteger um piso do preço para o açúcar de US$ 0,37 o quilo, embora os preços mundiais despencassem, nos anos 1980, Washington recorreu a cotas de importação cada vez mais rigorosas que aumentaram os preços do açúcar nacional até cinco vezes a média mundial.

Astutas companhias canadenses enviaram misturas para bolos com açúcar para os Estados Unidos - onde o açúcar era extraído. Outros países aproveitaram esta tática. Em 1985, Washington impôs cotas de emergência sobre todas as importações de cacau, misturas para bolos e preparados comestíveis contendo açúcar.

Então aconteceu o impensável: a Coca-Cola e a Pepsi decidiram substituir o açúcar caro com xarope de milho de alto teor de frutose, mais barato. De 1980 a 1987, a parcela de açúcar no consumo de adoçantes americanos, anteriormente de 65%, baixou para 47%.

Moral da história: as distorções produzidas pelas barreiras comerciais impõem um custo para a economia. Não é fácil detectá-lo antes do fato, mas tende a ser mais substancial do que qualquer outro ganho fugaz que o protecionismo possa trazer ara os protegidos.

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