Michael Probst/Associated Press
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Cortes provocam temores de guerra cambial

Grandes economias mundiais cortaram os juros ou consideraram a adoção de estímulos em conjunto pela última vez durante a crise financeira, indica estudo

Jeanna Smialek e Karl Russell, Thw New York Times

30 de agosto de 2019 | 06h00

Este ano, mais de 30 bancos centrais ao redor do mundo cortaram as taxas de juros, enquanto os países tentam proteger as respectivas economias em meio aos crescentes temores em relação ao crescimento global, a conflitos comerciais e à ameaça de um Brexit turbulento. Recentemente, Índia, Tailândia e Nova Zelândia baixaram inesperadamente as taxas de juros ou cortaram mais do que o esperado. No dia 15 de agosto, o México surpreendeu alguns economistas baixando pela primeira vez a sua taxa de juros para empréstimos desde 2014. E enquanto o presidente Donald J. Trump apoia o Federal Reserve a continuar baixando a sua taxa de referência, muitas das maiores economias mundiais pensam fazer o mesmo.

Com estas medidas, encerra-se uma era em que os principais bancos centrais esperavam, e em alguns casos tentaram, fazer voltar aos níveis normais os juros baixos e os grandes balanços – as marcas dos esforços de recuperação após a Grande Recessão. Agora, os estrategistas passaram a redirecionar a sua política a fim de preparar suas economias contra riscos de recessão.  As grandes economias mundiais cortaram os juros ou consideraram a adoção de estímulos em conjunto pela última vez durante a crise financeira, segundo dados da Refinitiv (uma fornecedora mundial de dados).

Segundo muitos analistas, tais medidas poderiam  contribuir para evitar uma dolorosa crise. Mas há um perigo: isto também poderia denunciar uma corrida da política monetária ao fundo. Tradicionalmente, os banqueiros centrais cortam os juros ou compram títulos a fim de alimentar os gastos e os empréstimos internamente. Mas em muitos países a inflação e as taxas de juros estão fixas a patamares historicamente baixos, de modo que os estrategistas têm menos espaço de manobra para encorajar os empréstimos e os gastos com dinheiro barato. Consequentemente, os cortes dos juros poderiam focar-se cada vez mais em manter as moedas baratas. O câmbio menor permite que um país exporte mais bens e serviços enquanto torna as importações mais caras, contribuindo na realidade para sustentar os preços internos.

“Cada vez mais, estaremos olhando para um mundo em que a taxa cambial se torna o objetivo da política monetária, das taxas de juros”, disse David Woo, diretor de pesquisa de taxas de juros e câmbio no Bank of America Merrill Lynch. “Não há crescimento, não há inflação, para justificar isto – estamos enfraquecendo a moeda apara importar inflação”.

Os bancos centrais sempre olharam os níveis de câmbio, e os movimentos da sua taxa de juros acabam afetando-os. Mas, em geral, evitaram explicitamente vincular as decisões na área monetária ao mercado cambial com medo de ser chamados de manipuladores, o que acarretaria riscos geopolíticos.

Jeremy Stein, ex-governador do Federal Reserve dos Estados Unidos, alertou que se os bancos centrais competirem cada vez mais nos mercados cambiais, o risco poderá produzir quase uma guerra monetária total, detonando uma “espécie de flexibilização competitiva” – uma corrida para ser o primeiro a cortar os juros a fim de colher os benefícios monetários.

O Banco do Japão vinculou a moeda a uma medida potencial na política monetária, em fevereiro, quando o seu presidente comunicou aos legisladores que poderia ser forçado a adotar um estímulo adicional se o iene continuasse a se fortalecer. Do contrário, afirmou, a inflação perigosamente baixa no país poderia tornar-se ainda mais baixa.

Quando o banco central da Austrália cortou os juros em junho, segundo notas da reunião, as autoridades reconheceram “que os canais principais através dos quais os juros mais baixos sustentariam a economia eram um valor menor da taxa cambial” e a redução dos gastos com empréstimos das famílias.

Em um universo de juros já baixos, “o ambiente internacional torna-se mais importante, porque a depreciação da moeda é uma das opções que restam”, afirmou Joseph Gagnon, economista do Peterson Institute of International Economics. “E seguramente isto apresenta alguns problemas, porque a depreciação da moeda é um jogo de soma zero. O que eu ganho, o outro perde”.

Trump, por exemplo, está convencido de que outros bancos centrais  estabelecem uma política a fim de desvalorizar as próprias moedas. Frequentemente, ele sugere que o Fed deveria tentar fazer o mesmo. O Banco Central Europeu deverá cortar ainda mais os juros entrando em território negativo em setembro.

FMI

A China costuma intervir por razões competitivas, concorda a maioria dos economistas, embora o Fundo Monetário Internacional afirme que o preço do reinmimbi é razoável de acordo com as condições econômicas atuais. Isto torna o fato de a Casa Branca taxar recentemente a China de manipuladora um gesto em grande parte simbólico, porque o FMI desempenharia um papel fundamental fazendo a China realinhar a sua moeda.

Dados divulgados recentemente indicaram que a economia alemã, que depende da manufatura, avança a largos passos para a recessão e que a produção industrial chinesa está se expandindo ao seu ritmo mais lento em quase 20 anos. Estas crescentes preocupações poderão levar o Fed a cortar os juros além do costumeiro quarto de ponto, em julho, mas é improvável que ceda à pressão de Trump de reduzi-los rapidamente para baixar o valor do dólar, que vem se mantendo relativamente estável há anos.

Mesmo que os governos por pouco não deflagrem uma guerra cambial, a política monetária concentrada na moeda poderá continuar uma realidade enquanto persistir a guerra comercial, afirmou Woo. “A coordenação internacional está se quebrando”, disse. “Anteriormente, as taxas cambiais não tinham tanta importância na política monetária. Agora, a política cambial passou para o primeiro plano”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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