Yuyang Liu para The New York Times
Yuyang Liu para The New York Times

Guerra comercial entre China e EUA aflige donos de animais de estimação

O mercado pet chinês também foi fortemente atingido pelas medidas protecionistas do governo Trump

Ailin Tang e Keith Bradsher, The New York Times

02 Novembro 2018 | 06h00

XANGAI - Olivia Ren nunca pensou que a guerra comercial entre Estados Unidos e China afetaria Dada.

Dada é o amado golden retriever de Olivia, e para que ele coma do melhor, ela paga bastante em Xangai por uma marca americana de comida de cachorro chamada Canidae. Olivia frequentemente experimenta ela mesma a comida para garantir que não esteja azeda nem tóxica, pois às vezes suspeita da ração de cachorro chinesa.

A Canidae e outras marcas americanas se tornaram, agora, um dano colateral de uma guerra comercial que envolve centenas de bilhões de dólares em mercadorias que fluem entre os dois países. Especialistas na indústria de ração para animais de estimação afirmam que vingativos funcionários do governo chinês têm atrasado o despacho aduaneiro desde maio como forma de retaliação contra os Estados Unidos. Novas tarifas aplicadas desde julho também encareceram o preço do alimento dos mascotes.

Em junho, Olivia comprou 90 quilos de Canidae para Dada e o cachorro de seu namorado. "Tenho pesadelos que me fazem acordar com angústia, achando que não serei capaz de comprar Canidae", disse ela.

Austin Chen, morador de Guangzhou, está estocando comida para Fera, seu gato laranja. "É a primeira vez que me dou conta de que a guerra comercial influenciou profundamente minha vida e a do meu gato”, disse ele.

Donos de bichos de estimação exigentes são uma minoria na China, mas a aflição deles poderia ser um presságio de tensões maiores, enquanto a guerra comercial se aprofunda. As tarifas retaliatórias da China tornaram a soja e a carne importadas mais caras, em um país que depende de importações para suprir muitas de suas necessidades alimentares.

As questões envolvendo a ração para animais de estimação demonstram o quão criativos os funcionários do governo chinês terão de se tornar caso queiram contra-atacar o presidente Donald Trump. A China não importa o suficiente para equiparar as tarifas de Washington sobre mais de US$ 250 bilhões em mercadorias chinesas. Em vez disso, Pequim adotou medidas pouco ortodoxas, como barrar carros importados nos portos.

Animais de estimação se tornaram um grande negócio na China. O alto preço dos imóveis e outros custos trouxeram dificuldades em formar família para muitos moradores das cidades. Alguns escolheram os mascotes como alternativa.

Gastos com animais de estimação na China aumentaram para mais de oito vezes o volume observado em 2010, para cerca de US$ 25 bilhões ao ano, em sua maioria com gatos e cães.

E muitas pessoas simplesmente não confiam nas rações produzidas na China.  Num país em que até fórmula para bebês e vacinas infantis têm problemas de qualidade, os donos dos mascotes frequentemente consideram mais seguros os produtos importados.

Robert B. Zoellick, um ex-representante comercial dos Estados Unidos, afirmou em setembro em Pequim que a ração de animais de estimação poderia ser uma área para negociar concessões entre os países.

"Há uma expansão da cultura de mascotes aqui. É claro que queremos mantê-los saudáveis", disse ele. "São consumidores muito amáveis e fofos".

Olivia encontrou recentemente na internet um raro pacote de Canidae, mas foi informada de que o produto ficou preso na alfândega. Ela cancelou a compra.

"Preferiria cozinhar eu mesma!", disse ela. "Cães são como humanos: se comem comida boa, não precisam ao médico com tanta frequência".

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