Hector Retamal/Agence France-Press
Hector Retamal/Agence France-Press

Titãs americanos se dobram à vontade chinesa

A recompensa é o acesso contínuo ao consumidor chinês; o preço pode ser a erosão da credibilidade americana enquanto bastião da liberdade de expressão

Steven Lee Myers e Chris Buckley, The New York Times

20 de outubro de 2019 | 06h00

PEQUIM — Na época da Guerra Fria, o rígido sistema soviético se mostrou incapaz de concorrer com o poder de atração do entretenimento americanos: rock ’n’ roll, Coca-Cola e Hollywood. Tudo isso se tornou símbolo de uma liberdade e prosperidade americanas que nenhuma proibição comunista seria capaz de deter. Hoje, a venda da criatividade e do talento dos americanos exige cada vez mais a submissão à visão do Partido Comunista como preço a ser pago pelo acesso a um mercado de 1,4 bilhão de pessoas.

Uma recente polêmica que teve início com uma mensagem publicada no Twitter por um executivo da Associação Nacional de Basquete (NBA) em apoio às manifestações em Hong Kong sublinhou as consequências da disposição chinesa em usar seu vasto poder de influência econômico para policiar valores políticos que ameacem a legitimidade do partido ou suas políticas. Durante anos, as empresas americanas cederam às demandas chinesas, seja adaptando seus discursos e produtos, como agora fazem regularmente os estúdios de Hollywood, ou pedindo desculpas. A recompensa é o acesso contínuo ao consumidor chinês; o preço pode ser a erosão da credibilidade americana enquanto bastião da liberdade de expressão.

“Quando o assunto é soberania nacional, o governo chinês está deixando bem claro que prefere ser temido do que amado", disse Jessica Chen Weiss, professora de assuntos governamentais da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York. O gerente geral dos Houston Rockets, Daryl Morey, apagou imediatamente a mensagem que deu início à toda a polêmica, mas era tarde demais.

NBA

Os planos da NBA para a China foram subitamente eviscerados. Transmissões de partidas foram canceladas, patrocínios foram suspensos. A associação enfrentou denúncias por parte da mídia estatal e dos fãs, que rasgaram os ingressos para um jogo amistoso entre Los Angeles Lakers e Brooklyn Nets em Xangai.

As autoridades chinesas pareceram demorar para se dar conta das consequências do mal-estar gerado, agindo no sentido de maneirar as críticas e os comentários contra a NBA. “Mesmo no caso da NBA, se começarmos uma troca de insultos ou abusarmos da violência verbal, fomentando o ódio, os problemas só ficarão mais complicados e sérios", afirmou Tong Zeng, empresário de Pequim que se envolveu em protestos e campanhas contra o Japão.

Reações

Para uma superpotência emergente, a China pode parecer fácil de ofender, e as reações do país podem ser vistas como petulantes. Lady Gaga enfrentou uma proibição temporária às vendas de suas músicas e suas apresentações na China em 2017 depois de ter se encontrado com o Dalai Lama, líder espiritual tibetano que o Partido Comunista acusa de separatismo. No ano passado, a Gap foi obrigada a pedir desculpas por vender uma camiseta mostrando um mapa da China que não incluía Taiwan nem as ilhas do Mar do Sul da China.

Jonathan McClory, gerente geral da Portland Communications para a Ásia e editor de um levantamento anual do poder brando publicado pela Universidade do Sul da Califórnia, disse que reações como essas “causam má impressão". “Essa atitude terá impacto negativo na percepção das pessoas em relação à China, não somente nos Estados Unidos, mas em todo o mundo", acrescentou.

A NBA tem muitos fãs entusiasmados na China, e tentou capitalizar em cima disso. Para a associação, a China é vista como um de seus principais mercados e há potencial para o recrutamento de jogadores. O comentário de Morey pareceu acender o pavio da frustração acumulada em relação aos EUA durante a guerra comercial. Os protestos em Hong Kong, realizados ao longo do trimestre, se somaram a esse quadro. Ainda que o governo tenha amenizado a reação da opinião pública, a indignação dos chineses parecia sincera.

O servidor público Xu Guyong, de 46 anos, frequentou uma partida recente em Xangai. Ele e o filho, de 13 anos, vestiam camisas dos Lakers. Mesmo assim, ele condenou a mensagem de Morey publicada no Twitter. “Se os chineses disserem que devemos boicotar a NBA, eu seria a favor", garantiu. “Responderia ao apelo do país e deixaria de assistir aos jogos". 

A associação se apressou para conter o incêndio, pedindo desculpas e distanciando-se da opinião de Morey — o que resultou em outra reação indignada, por ceder aos desejos de Pequim. Para alguns americanos, o episódio mostrou o poder da China de enfraquecer um dos direitos elementares nos EUA: a liberdade de expressão.

Hollywood já pratica a autocensura, disse no Twitter o senador republicano Marco Rubio, da Flórida. “Agora os cidadãos correm o risco de perder o emprego se ofenderem a China". Mas McClory destacou que, no mundo de hoje, os interesses comerciais são muito mais fortes que qualquer intenção de promover um conjunto de valores políticos. “Para a NBA, a China não é um lugar para se brandir a bandeira americana nem alardear os valores da democracia e da liberdade de expressão", sugeriu. “Sem meias palavras, eles querem estar lá pelo lucro". 

A NBA está com dificuldades para reparar a situação. Recentemente, quando um jornalista tentou perguntar a dois jogadores dos Houston Rockets se eles ainda se sentem à vontade para comentar temas políticos e sociais nas redes sociais, um assessor de imprensa dos Rockets intercedeu para controlar as respostas. “Desculpe", disse o assessor, “só responderemos a perguntas ligadas ao basquete". /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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