Andrea DiCenzo/The New York Times
Andrea DiCenzo/The New York Times

Engenheiro perdeu a família num ataque aéreo no Iraque; ao invés de vingança, ele prega o perdão

A esposa, a filha e outros membros da família de Basim Razzo foram mortos por engano em um ataque aéreo da coalizão liderada pelos EUA, mas ele está mais disposto a semear o entendimento do que o ódio

Jane Arraf, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2021 | 05h00

IRBIL, Iraque – O apartamento de Basim Razzo na cidade curda de Irbil é antigo, mas sem a desordem como a maioria das outras casas. O armário da cozinha impecável contém latas do café Maxwell House, uma marca que ele e a esposa, Mayada Taka, passaram a preferir quando moravam nos Estados Unidos nos anos 1980.

Na sala de visitas, perto de uma TV de tela grande, um unicórnio de pelúcia cor de rosa e outros brinquedos estão dispostos de maneira ordenada em uma poltrona azul, à espera da próxima visita da neta de três anos, que Razzo, hoje, considera a sua vida.

A garotinha também se chama Mayada, como a avó, a falecida esposa de Razzo. Taka, e a filha de 21 anos do casal, Tuqa, foram mortas em um bombardeio aéreo na cidade de Mosul no Iraque, em 2015, pela coalizão liderada pelos Estados Unidos no combate ao Estado Islâmico.

Razzo, que dormia a poucos metros da esposa, sobreviveu, embora gravemente ferido. Seu irmão e sobrinho morreram em um segundo ataque em sua casa, ao lado da deles. O outro filho de Razzo, Yahya, agora pai da jovem Mayada, fugiu de Irbil no começo da ocupação.

O caso de Razzo foi documentado em 2017, em uma investigação realizada pela The New York Times Magazine, que descobriu que as mortes de centenas de civis em bombardeios da coalizão nunca foram reconhecidos pelos Estados Unidos, que, do Qatar, supervisionavam os alvos das missões contra o Estado Islâmico.

Washington nunca se desculpou publicamente por ter identificado erroneamente a casa da família Razzo como uma fábrica de carros-bomba do EI. Mas, no ano passado, o governo holandês, membro da coalizão, reconheceu que um dos pilotos realizou o bombardeio e teria concedido a Razzo uma indenização de US$ 1 milhão.

Seria compreensível que Razzo estivesse revoltado com o ataque que matou sua esposa e filha e o feriu gravemente. Mas em vez disso, ele prega empatia e perdão no seu trabalho com o grupo World in Conversation que procura conectar universitários iraquianos de Irbil, Mosul e Najaf com estudantes nos Estados Unidos por meio de diálogos on-line.

Embora ele ainda não esteja pronto para se encontrar com o piloto holandês, que também está amargurado por seu papel na tragédia – Razzo enviou uma mensagem para ele.

“Eu disse: ‘Olhe, diga apenas que ele estava cumprindo ordens. Ele é um soldado. Era a sua missão. Se ele soubesse que havia famílias aqui, tenho certeza de que não teria lançado as bombas, mas ele não sabia. Por isso, diga a ele que eu o perdoo”.

No Iraque e em muitos países, a reação mais comum seria a promessa de vingança.

“Algumas pessoas afirmam que o perdão é um ato covarde”, ele falou recentemente em uma entrevista em Irbil. No entanto, como muçulmano, ele acredita que o destino de uma pessoa está traçado antes de ela nascer.

“Não tenha nenhuma outra explicação senão que se trata de um ato de Deus”, ele disse falando do motivo pelo qual sobreviveu. “Talvez fosse o meu destino fazer o que faço. Porque depois disso comecei a pregar estas ideias, comecei a conversar sobre empatia e perdão”.

Em parte, isto criou uma amizade com um professor americano depois que Razzo encontrou um trabalho dele no TEDx, aproximadamente na época da invasão americana no Iraque, em 2003, intitulado “A Radical Experiment in Empathy.”

Nele, o professor, Sam Richards, um sociólogo da Penn State University, pedia aos americanos que imaginassem como eles se sentiriam se os Estados Unidos fossem invadidos e ocupados pelo exército chinês.

“Eu não sabia o que significava a palavra empatia, por isso procurei”, disse Razzo. Ele mandou um e-mail para Richards, que acabou pedindo que ele fizesse uma palestra por vídeo a cada semestre para os 700 estudantes do seu curso de sociologia. Os estudantes perguntaram sobre como é ser iraquiano e sobre o Islã, e ele se deu conta de que estava estabelecendo uma verdadeira conexão com eles.

Mas ele parou depois do bombardeio.

Um ano mais tarde, “Sam disse: ‘Basim, quero você de volta na minha aula’,” contou Razzo. “Respondi: ‘Sam, não posso’, e ele: ‘Por favor, volte’”.

Na realidade, ele fez mais do que isto, viajou para a State College, Pensilvânia, para falar pessoalmente com os estudantes depois de obter o dinheiro para a viagem. Enquanto estava nos EUA, ele conversou com oficiais militares e parlamentares na tentativa de conseguir que os militares aceitassem a responsabilidade pelo bombardeio. Até hoje, nada foi feito, mas ofereceram a Razzo US$ 15 mil como uma manifestação de condolências – um valor que não paga nem os danos provocados pelas bombas nos seus carros.

Recusou a oferta e disse que prometeram enviar-lhe uma carta de um advogado do exército confirmando que nenhum dos membros de sua família estava associado ao grupo do EI. Ele nunca a recebeu. Mas isto não impediu que ele continuasse suas tentativas de superar a divisão entre americanos e iraquianos.

Começou o seu trabalho com o projeto World in Conversation pondo em contato estudantes de Mosul com seus colegas americanos em 2018, um ano depois da libertação da cidade de três anos de controle do Estado Islâmico.

Razzo vem de uma importante família da classe média alta de Mosul. Foi encorajado pelo pai farmacêutico a estudar engenharia, e ele foi para a Universidade de Michigan. Ele e Taka, sua prima, casaram e ela foi para os Estados Unidos viver com ele.

Ambos tinham pouco mais de 20 anos, a vida era boa, ele disse. Enquanto estudava para obter o diploma de engenheiro na Western Michigan University, Taka trabalhava como representante da Avon. Eles queriam permanecer nos EUA depois que ele se formasse, mas era o ano de 1988, a guerra Irã-Iraque era devastadora, e seu pai quis que ele voltasse.

“Ele falou: ‘Você é meu filho mais velho. Quero você ao meu lado’,” contou Razzo. “Segundo a tradição, eu não podia dizer não ao meu pai. E este foi o maior erro”.

Quando o Estado Islâmico tomou o norte do Iraque, em 2014, Razzo era um gerente de contas da Huawei, a companhia chinesa de telecomunicações. Temendo que o EI confiscasse suas casas e negócios caso fossem embora, a família, com exceção de Yahya, decidiu ficar e se viu encurralada.

Na noite do bombardeio, Taka foi para a cama cedo e Razzo ficou acordado até mais tarde assistindo a vídeos de carros no seu computador. Viu a luz acesa no quarto da filha, pediu que ela desligasse o celular, e depois foi dormir.

O bombardeio ocorreu algumas horas mais tarde.

“O som das explosões foi indescritível”, contou. Houve duas explosões: “Uma na minha casa, a outra na casa do meu falecido irmão. E então tudo ficou escuro. As luzes se apagaram e, quando olhei para cima e a fumaça desapareceu, vi o céu”.

O teto e todo o primeiro andar haviam sido destruídos, matando sua esposa e filha instantaneamente. Na casa ao lado, somente sua cunhada, que foi jogada para fora da janela pela explosão, sobreviveu.

Razzo disse que essa provação o tornou uma pessoa diferente. “Tudo mudou para mim”, afirmou. “Nunca tive a paciência que tenho hoje. Muitas coisas que eu faço agora, nunca fiz antes”, desde experimentar novos pratos a embarcar em novas experiências.

Apesar da sua ênfase na empatia e no perdão, ele não esqueceu que os militares americanos ordenaram o ataque sobre a sua casa.

“Eles deveriam ter tido um melhor monitoramento”, disse. “Deveriam ter informações precisas sobre o local. Mas não fizeram nada disso”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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